Por meio de nota, Funai critica divulgação de fotos de tribo indígena isolada no Acre

"O teor invasivo do sobrevoo e, consequentemente, das fotografias pode ser percebido no semblante de terror dos indígenas e na postura de ataque ao empunhar arcos e flechas contra a aeronave", diz a nota

Por meio de nota, a Fundação Nacional do Índio (Funai) se pronunciou nesta sexta-feira (23) à respeito da divulgação de fotos de uma tribo indígena isolada que fica na fronteira do Acre com o Peru. No texto, o órgão critica a divulgação e diz que as fotografias demonstram “desrespeito” aos índios que, segundo a Funai, se mantêm isolados “por decisões próprias”.

A descoberta da tribo, segundo o sertanista acreano José Meirelles, ocorreu quase que por acaso. Ele afirmou que, quando ele e o fotógrafo Ricardo Stuckert sobrevoavam a área de floresta no Jordão a bordo de um helicóptero, precisaram desviar o percurso em razão do mau tempo e, com a lente de alta definição, o fotógrafo conseguiu avistar a tribo.

Na nota a Funai diz que as fotografias demonstram “desrespeito” aos índios que se mantêm isolados “por decisões próprias” /Foto: Ricardo Stuckert

“O teor invasivo do sobrevoo e, consequentemente, das fotografias pode ser percebido no semblante de terror dos indígenas e na postura de ataque ao empunhar arcos e flechas contra a aeronave, conforme registrado na própria reportagem. Os efeitos de uma violência simbólica desse nível são social e culturalmente imensuráveis”, afirma a nota
Leia abaixo a íntegra da nota divulgada pela Funai:

Nota sobre publicação de imagens de povo indígena isolado

A Funai vem a público manifestar-se diante da reportagem veiculada pela National Geographic, “Stunning New Photos of Isolated Tribe Yield Surprises”, repercutida por diversos meios de comunicação, na qual o fotógrafo Ricardo Stuckert apresenta fotos de povo indígena isolado no estado do Acre.

Primeiramente, a reportagem demonstra desrespeito aos povos indígenas isolados ao expor publicamente indígenas que se mantém em isolamento por decisões próprias. O teor invasivo do sobrevoo e, consequentemente, das fotografias pode ser percebido no semblante de terror dos indígenas e na postura de ataque ao empunhar arcos e flechas contra a aeronave, conforme registrado na própria reportagem. Os efeitos de uma violência simbólica desse nível são social e culturalmente imensuráveis.

A instituição refuta argumentos que defendem que esse tipo de trabalho pode, de alguma maneira, contribuir para a defesa dos povos em questão, uma vez que atende somente aos interesses de venda de notícias sensacionalistas, não segue estratégias de proteção territorial e se omite diante dos direitos dos povos indígenas. Prova disso é o fato de que o trabalho foi realizado à revelia dos trâmites necessários ao controle de acesso a Terras Indígenas, inexistindo autorização de ingresso ou observância do direito de imagem, o que configura violação de direitos fundamentais preconizados na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.

A legislação indigenista tem mecanismos de proteção aos povos indígenas isolados e de recente contato, de maneira que a Funai tomará providências para a devida responsabilização dos autores e envolvidos, assim como para o resguardo dos povos indígenas em questão.

Fundação Nacional do Índio (Funai)

Brasília, 23 de dezembro de 2016

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