A quem interessa a COP23, sobre o clima, que está acontecendo na Alemanha?

Com tantas promessas que ficam só na retórica, é legítimo o desânimo dos cidadãos comuns diante do evento

Dificilmente as notícias sobre a 23ª Conferência do Clima da ONU – que está acontecendo agora em Bonn, na Alemanha – vão fazer parte da lista dos top 10 mais lidas. A menos que um líder dê alguma declaração polêmica, é claro. Nesse sentido, o ditador Bashar Al-Assad, da Síria, pode estar colaborando, já que declarou ontem (7) que vai assinar o Acordo de Paris, o que deixa o norte-americano Donald Trump como o único que não vai aderir. Não custa lembrar que desde 2012 a Síria vive uma guerra civil que já matou centenas de pessoas.

Neste cenário, é plausível que os cidadãos comuns tenha a sensação de que as reuniões da ONU sobre o clima podem estar sendo inúteis. Sobretudo quando se sabe, por exemplo, de estudos científicos provando que o planeta vai aquecer 1,3ºC, mesmo se todos se unissem fervorosamente e concentrassem esforços para reduzir as emissões. Porque o desmatamento continua, o uso de combustíveis fósseis não zerou, há um avanço irrefreável sobre os recursos naturais, o consumismo não está arrefecido. E isso tudo está gerando problemas visíveis, sentidos na pele sobretudo por quem mora em locais de risco.

“Não custa lembrar que desde 2012 a Síria vive uma guerra civil que já matou centenas de pessoas”./Foto: Reprodução

Sendo assim, qual a importância de uma reunião como a COP, perguntariam os leitores, com legítima incredulidade? A resposta é uma só: basicamente porque as mudanças climáticas já estão sendo sentidas em vários lugares, não só através das ondas de calor e inundações, como também quando o solo se resseca e não deixa chance para plantar nada. E, segundo estudos científicos mais do que provados e comprovados, sem cortes bruscos nas emissões de gases poluentes, a coisa vai piorar e muito, afetando bilhões de pessoas em todo o mundo. Fazer barulho é o que resta a muita gente.

As nações-ilha do Pacífico, por exemplo, que se juntaram numa Aliança de Pequenos Estados-Ilha (Aosis, na sigla em inglês) já sabem que têm futuro incerto, pois as águas do mar deverão afogá-los.

A COP-23 é presidida por Fiji,uma dessas ilhas, mas está acontecendo na Alemanha porque falta estrutura a Fiji para receber tantas autoridades em seu território pequeno e já tão impactado pelos eventos extremos. Em sua declaração inicial postada no site, a Aosis diz que a COP, pela primeira vez presidida por uma ilha, abre “na sequência de uma das piores estações de furacões registradas”, o que devastou vários de seus membros, incluindo Antigua e Barbados, Dominica e Cuba.

“Se as cenas da total devastação do Caribe não são evidências suficientes da realidade da perda e do dano, não sei o que é”,escreve Thoriq Ibrahim, Ministro da Energia e Ambiente das Maldivas e Presidente da Aosis.

Interessante notar que tais países-ilhas contribuem com uma minúscula parcela das emissões e são os mais vulneráveis aos impactos. A observação feita pelo ministro é uma resposta clara às pessoas que não acreditam no que dizem os cientistas sobre a responsabilidade dos humanos nas mudanças do clima. Esta lista é hoje encabeçada por ninguém menos do que o homem mais poderoso do planeta, Mr.Trump.

Sobre isso, porém, temos um fenômeno que pode ser muito promissor e revelador da atual civilização. A contar pelo que disse Christiana Figueres, ex-chefe de Mudanças Climáticas da ONU, enganou-se quem acreditou que o anúncio de que os Estados Unidos sairiam do Acordo de Paris iria causar um efeito dominó no pacto. Segundo ela, Trump acabou causando uma espécie de determinação, entre os outros países, de que é preciso um pacto mundial, com ou sem a nação mais rica e mais poluidora do planeta.

Consta ainda que Trump vai mandar alguém falar à plateia da COP23 que a melhor medida contra as mudanças climáticas é promover o uso de carvão e gás, atuais inimigos públicos número um do clima.Será uma ousadia, sem dúvida, difícil de acreditar que ele vá fazer isso. Mas é preciso dizer: sem tanta ousadia, há mesmo quem aproveite os holofotes da Conferência para falar bonito e fazer belas promessas e, na hora de botar em prática tudo o que foi dito, aciona a marcha-à-ré.

O Brasil está entre esses casos. Em 2009, em Copenhague, numa das COPs que mais recebeu a atenção do mundo porque se esperava sair dali um acordo, o ex-presidente Lula e o ministro do Meio Ambiente à época, Carlos Minc, foram figuras importantes para tentar costurar o pacto que só seria conseguido seis anos depois. Levavam na bagagem vários acenos de que o país iria, sobretudo, combater o desmatamento com força e com vontade. Em 2015, já no meio de uma crise institucional, política e econômica da qual não nos livramos ainda, a ex-presidente Dilma Roussef apresentou uma proposta ambiciosa de redução de emissões de carbono e teve também um papel de liderança nas negociações que culminaram com o Acordo.

Hoje, no entanto, há muitos retrocessos na legislação ambiental causados pela política do governo atual, de não se importar com os direitos conquistados até então no âmbito socioambiental. Com isso, a preocupação dos ambientalistas é grande, o que é bem razoável. Algumas das principais organizações não-governamentaisque se ocupam do tema já estão divulgando suas críticas. Entre elas, a Fundação alemã Böll, que tem acompanhado de perto o desenvolvimento socioeconômico e ambiental do país, publicou um dossiê sobre a flexibilização da legislação ambiental brasileira que, segundo os especialistas ouvidos para a montagem do estudo, “estão pondo em xeque os direitos socioambientais no país”.

“O projeto da gestão Temer engloba um pacote de ações amplo, incluindo medidas provisórias, projetos de lei e propostas de emenda constitucional que atendem a pauta histórica das bancadas ruralista e minerária. Entidades que têm como foco a justiça socioambiental têm se mobilizado para dar visibilidade – nacional e internacional – a esse processo, e também para se opor ao retrocesso”, escrevem eles.

E não há como discordar, principalmente depois de ler alguns dados expostos no trabalho.São 226 milhões de cabeças de gado, número levantado este ano por Camila Moreno, que assina um dos artigos do dossiê. De áreas abertas, ocupadas por pastagens, temos 170 milhões de hectares. As monoculturas, também indesejáveis se for mantido o pacto de baixar as emissões e combinar o aumento da temperatura do planeta na casa dos 1.5 grau, avançam nada lentamente. São34 milhões de hectares de soja, equivalente ao território da Alemanha; 17 milhões de hectares de milho e 9 milhões de hectares de cana de açúcar, entre outras, como eucalipto para celulose (7 milhões). Todas elas, segundo Moreno, “indissociáveis dos impactos no uso do solo das respectivas infraestruturas de logística para atender a escala de produção e escoamento”.

Com tantas promessas que ficam só na retórica, é legítimo o desânimo dos cidadãos comuns diante do evento. Mas, de novo, se lembrarmos da angústia que devem estar passando os povos moradores nos pequenos países, muitos deles sem recurso algum para consertar os estragos dos eventos extremos, é o caso de prestarmos mais atenção às notícias que nos chegarão da Alemanha nos próximos dias. Vou tentar ajudar, cumprindo meu dever de informar aos meus leitores aqui deste espaço.

Por: Amelia Gonzalez
Fonte: O Globo

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