Marina Silva diz que a lei é para todos e que Lula “aposta em mais polarização e divisão”

"Essa lógica de ter um projeto maravilhoso que só funciona com você traz prejuízo para a democracia"

Marina Silva deu entrevista ao Congresso em Foco:

Como é o diálogo da Rede com outros partidos para a disputa de 2018?
Estamos dialogando de forma muito tranquila. Ninguém precisa desconstituir suas perspectivas para que possamos conversar. Temos respeito pelos projetos de cada um. Tenho como princípio a seguinte frase: quanto mais estrela no céu, mais claro é o caminho. Não gosto da política do tachi, uma árvore da Amazônia sob a qual não nasce qualquer outra planta.

Quais erros a sua campanha cometeu em 2014?
Acreditávamos que disputávamos uma eleição legal. Não fomos capazes de descobrir que havia uma fraude eleitoral. Ao término da campanha, além da fraude política, de dizer uma coisa e fazer outra, tinha a institucional do caixa dois. Os dois candidatos que foram para o segundo turno lançaram mão dos mesmos expedientes.

Essas propostas foram apresentadas de forma completamente equivocada por um governo que não tem legitimidade, credibilidade e popularidade, e que se vangloria de não ter nada a perder – e, com 3% de aprovação, tem mesmo muito pouco a perder. O Brasil precisa de reformas, mas não das apresentadas por Temer.

A senhora foi criticada, em 2014, por ter declarado apoio a Aécio Neves no segundo turno. Arrepende-se desse voto?
Ele se comprometeu comigo, na ocasião, a manter os programas sociais e a prerrogativa do Executivo de demarcar as terras indígenas, além de retomar a reforma agrária. Por isso, com as informações que eu tinha na época, declarei meu voto. A diferença é que não sou como aqueles que se mantêm fiéis acriticamente a Lula, Aécio e Dilma mesmo após descobrirem seus erros. Não por acaso, foi a Rede que levou Aécio ao Conselho de Ética.

Há clima para romper a polarização eleitoral em 2018?
A polarização exacerbada entre PT e PSDB levou o Brasil para o buraco. Não há como essa polarização ser a solução dos nossos problemas. Eles, que nunca se uniram pela educação, pela saúde, pela segurança, pelo meio ambiente, agora se juntam para combater a Lava Jato. Não por acaso se uniram para monopolizar o tempo de televisão e o fundo partidário e eleitoral, para que não seja possível qualquer inovação e renovação política. Fizeram uma aliança para definir quem ganhará o poder em 2018. Pelas medidas que tomaram, pela monopolização dos recursos, já decidiram entre eles que só poderá governar o Brasil alguém do PT, do PSDB, do PMDB ou do DEM.

As pesquisas apontam Lula e Bolsonaro como favoritos para a disputa presidencial. Essa será a polarização de 2018?
Com Lula ou Bolsonaro, estão indo para os extremos. Hoje todo mundo busca pretexto para se separar, desqualificar e destruir um ao outro. É preciso criar um contexto para que possamos nos reencontrar. O que nos une, o que nos interessa? O cabo eleitoral mais forte do Bolsonaro é o Lula, e o do Lula é Bolsonaro. Temos de acabar com a política do ódio, do medo, da violência, da desconstrução.

(…)

Que imagem a senhora tem hoje do ex-presidente Lula?
Ninguém deve celebrar os problemas que acontecem com as lideranças. Mas hoje não existe quem seja forte, popular ou rico demais para estar acima da lei. Ela deve ser para todos. A Justiça tem de fazer o seu trabalho sem boicote e intimidações para que se tenha um julgamento com amplo e legítimo direito de defesa. Infelizmente o presidente Lula talvez não tenha olhado para trajetórias de vida que nos ensinam muito, como a de Nelson Mandela. O Brasil, mesmo com suas desigualdades, sempre foi um país unido, mas Lula aposta em mais polarização e divisão.

Por que a volta de Lula seria um retrocesso? Essa lógica de ter um projeto maravilhoso que só funciona com você traz prejuízo para a democracia, para a formação de novas lideranças. Um bom projeto é aquele que resiste, sobrevive à alternância de poder, institucionaliza conquistas, não fulaniza nem partidariza.

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