Assistindo-se a “Últimas conversas”, é possível visualizar como o diretor conduzia as entrevistas de seus filmes, de “Cabra marcado para morrer” (1985) a “Santo forte” (1999), de “Edifício Master” (2002) a “Jogo de cena” (2007). Mais do que nos outros trabalhos, o novo documentário transforma o próprio Coutinho em protagonista, destacando sua interação com os entrevistados e até incluindo uma cena em que o cineasta demonstra estar em crise com o projeto. “Fiz o contrato com o governo do estado e tenho que fazer este filme”, diz Coutinho, no documentário.
— Ele sempre sofreu durante a produção dos seus filmes, mas também descobria algo que transformava o sofrimento em prazer. Neste eu não vi prazer algum. Ele estava insatisfeito em trabalhar com os adolescentes, não encontrava o caminho que queria — conta Jacques Cheuiche, diretor de fotografia de todos os filmes do Coutinho desde “Babilônia 2000” (2001) — Em geral, era muito divertido trabalhar com ele. O Coutinho tinha um mau humor que não era mau humor. Ele era muito espirituoso, conversava sobre tudo. Na sexta-feira antes de sua morte, nós nos falamos por telefone, e ele me chamou de “filho”. Foi estranho porque foi a única vez em que Coutinho me chamou de filho.
“Últimas conversas” foi rodado em novembro de 2013, ao longo de nove dias, num estúdio localizado na Zona Portuária do Rio, o mesmo utilizado pelo diretor nas filmagens de “As canções” (2011). O título original do projeto, ainda com Coutinho vivo, era “Palavra”, e a ideia inicial do diretor era colocar crianças diante da câmera, para que elas falassem sobre como enxergam o mundo. Contudo, pelas dificuldades jurídicas que um filme com crianças poderia acarretar, a proposta foi alterada: saíram as crianças e entraram adolescentes no fim do ensino médio. Cerca de 250 jovens foram entrevistados por pesquisadores contratados pela produção, e 30 foram levados ao estúdio para gravar com Coutinho.
Em janeiro do ano passado, o diretor entregou para Jordana Berg, montadora de todos os seus filmes desde “Santo forte”, um caderno com anotações feitas a partir das transcrições das entrevistas. Eles se preparavam para começar a trabalhar na edição do documentário quando ocorreu a tragédia. Num domingo, Coutinho foi morto por seu filho Daniel, a facadas, dentro de seu apartamento, na Lagoa. Daniel, que sofre de esquizofrenia, assumiu a autoria do crime (atualmente, ele está preso num manicômio judicial).
— Havia muito tempo, o Coutinho queria fazer um filme com crianças. A ideia era ouvir pessoas que já não tivessem uma cultura introjetada. Ele queria perguntar o que é dinheiro, o que é casamento, o que é viver. Queria ter conversas óbvias com pessoas para quem nada daquilo seria óbvio — conta Jordana. — Mas o projeto mudou de rumo, e vieram os adolescentes. E o Coutinho ficou infeliz porque não acreditava que poderia conseguir um bom filme com adolescentes.
O filme foi montado por Jordana, e sua versão final é assinada por João Moreira Salles, amigo de Coutinho e produtor de seus longas. “Últimas conversas” se inicia com o próprio diretor sentado no lugar de seus entrevistados, comentando as dificuldades de levar a filmagem adiante. “Crianças produzem grandes questões, jovens já vêm moldados e ainda precisam de licença das mães para falar”, reclama Coutinho.
Depois, quando começam as entrevistas, o filme traz muito mais falas do próprio diretor do que é habitual em seus outros documentários. Para um dos dez personagens incluídos na versão final, ele diz: “Vou te fazer perguntas completamente imbecis. Sou como um marciano ou um menino de 4 anos de idade”. Coutinho quer saber de religião, fé, amor, família — enfim, do dia a dia de seus entrevistados.
As respostas variam entre histórias sobre pais, namoros ou perspectivas em relação ao futuro. Uma jovem, na época com 19 anos, conta que seu padrasto “fazias coisas que não eram para um pai fazer”. Outra revela que sua mãe tem uma namorada a quem ela chama de “padrasta”. E mais uma diz que adora música e coloca “Listen to your heart”, da banda sueca Roxette, para tocar no celular. Apenas uma personagem, a última, era uma criança, como desejado originalmente por Coutinho: a menina Luiza, de 6 anos, sobrinha da diretora de produção Carolina Benevides, outras colaboradora habitual de Coutinho.
— No último dia de filmagem, duas pessoas da equipe decidiram lhe fazer uma surpresa e apareceram no estúdio com duas crianças. O fato de a obra se encerrar com este encontro me parece um desfecho feliz. Ele, que passou a vida atrás de quem pudesse dar lustre às palavras, terminou falando com alguém para quem as palavras são todas novas e ainda estranhas e misteriosas. Foi como chegar à fonte — explica João Moreira Salles.
As sessões de abertura do É Tudo Verdade são fechadas para o público, mas “Últimas conversas” terá outras exibições no Rio ao longo do festival, sempre com entrada gratuita: no sábado, às 19h, no Espaço Itaú; e no domingo, às 20h, no Instituto Moreira Salles. Depois, o documentário entra em cartaz no dia 7 de maio.
— Nós fizemos uma primeira montagem como se tivesse sido feita pelo Coutinho. Eu e João brincávamos que era psicografado. Mas aí nos demos conta de que não havia como achar que ele mandaria um corte do além. Então, fizemos um filme sobre como ele pensava as coisas, e incluímos um pouco do seu processo — diz Jordana. — Eu trabalhava com o Coutinho há 19 anos, falava com ele praticamente todos os dias. A ideia de saber que eu não vou escutar uma nova coisa inventada por ele me desespera um pouco.
