artigo
Oposição por conveniência
*Marcio Bittar
Acho que sei respeitar o resultado das urnas. Afinal, é nela onde se expressa a soberana vontade popular. Como brasileiro, lutei contra a ditadura para que nosso País pudesse, um dia, voltar a fazer as pazes com a democracia.
Quando fico sem mandato procuro interferir o mínimo no processo político. Participei de um tenso e intenso processo eleitoral em 2014, quando coloquei o meu nome à disposição dos acreanos para a disputa ao governo do Estado. Cometi acertos e erros. Aliás, quem não comete erros?
Perdemos uma eleição onde a derrota não era prevista, e nunca culpei alguém, mas não sou cego e sei bem quem cruzou os braços no segundo turno, quem apareceu na foto ao mesmo tempo em que desmobilizava sua equipe.
Quem pode mandar no dinheiro dos outros? Quem cruzou os braços tinha seus motivos, geralmente negócios de família com o governo do PT. Não sou a palmatória do mundo, mas a verdadeira oposição no Acre precisa avaliar até que ponto deve continuar sacrificando milhares em nome de algumas pessoas, que precisam ganhar um pouco mais de dinheiro.
A proposta de uma CPI para investigar as óbvias irregularidades nas obras da BR-364, entre Sena Madureira e Cruzeiro do Sul, expõe uma parte da oposição que ainda não sabe por que ainda não é governo, ou talvez queira mudar os nomes para nada mudar.
A BR-364 é um dos maiores escândalos de corrupção na história do Acre e do Brasil, e o papel cívico de quem é da oposição é fiscalizar. Ou vamos esperar que isso seja feito pelos governistas?
A construção e a recuperação daquilo que nunca foi entregue oficialmente ao povo acreano já consumiu alguns bilhões de reais, que se dissolveram pelo ralo da corrupção com a mesma facilidade com que o asfalto usado na rodovia se dissipa com as chuvas mais fracas de nosso inverno amazônico.
Pagamos altíssimo por obras que se dizem de primeiro mundo, mas recebemos de terceira categoria. E ainda temos de aguentar a propaganda oficial nos dizer que é melhor assim do que nada. Ver uma investigação por parte dos mais legítimos representantes do povo –os deputados estaduais – ser enterrada no nascedouro por pessoas que se elegeram do lado de cá, não pode ter meu silêncio.
Ouvir parlamentar dizer que não assinou porque não sabia do que se tratava, ou, pior ainda, alguém retirar sua assinatura dizendo que é pelo bem da obra ofende profundamente a inteligência de todos os pagadores de impostos de nosso Acre.
Não sou candidato ano que vem, e Deus é quem sabe se serei ainda candidato a algum cargo. Sei quem saiu credenciado eleitoralmente para pleitear uma candidatura futura de governador. Porém, o líder lidera, comanda, tem pulso firme; se assim não for, os liderados perdem o foco.
Em 2018, tenho certeza, o Brasil se reencontrará com a alegria. Quem não pode falar ou fazer o que deveria, pelo menos deveria ficar calado.
*Marcio Bittar é ex-deputado federal e presidente do PSDB no Acre
