Rio Branco, Acre,

Constituiçao-BR

Contra fundamentalismo religioso e pelo Estado laico, intelectuais lançam manifesto

Constituiçao-BRnota

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Constituiçao-BRUm grupo formado por pensadores da sociedade acreana divulgou nesta sexta-feira (22) manifesto contra o que eles consideram uma ameaça ao Estado democrático de direito no Acre, e o avanço do fundamentalismo religioso nas principais instituições que deveriam zelar pelo laicismo.

Assinado por advogados, jornalistas, desembargador aposentado e integrantes da classe artística, o documento critica a forma desproporcional como o vocalista de uma banda de rock, que queimou a Bíblia em um sarau universitário, foi atacado por segmentos da sociedade, sobretudo os protestantes, em alguns casos contando com o apoio de instituições do Estado.

O grupo afirma ver com preocupação o avanço da influência religiosa nas tomadas de decisões por parte de instituições públicas que deveriam zelar pela imparcialidade e o princípio do Estado laico. Apesar disso, o grupo preferiu não procurar órgãos do Estado para apoiar o manifesto para evitar a sua “politização”.

A Defensoria Pública é a única instituição estatal a apoiar o documento. O desembargador aposentado Arquilau de Castro Melo também assina o manifesto. O padre Massimo Lombardi é um dos poucos líderes religiosos a integrar o grupo.

Leia na íntegra:

MANIFESTO EM REPÚDIO A INTOLERÂNCIA FUNDAMENTALISTA E EM DEFESA DO DIREITO À DIVERSIDADE

Nós artistas, intelectuais, ativistas culturais, militantes de movimentos sociais, de entidades de direitos humanos, trabalhadores, estudantes e desocupados, diversidade viva, pensante e atuante, nos reunimos para, a partir do episódio da performance da queima da Bíblia em show na Universidade Federal do Acre e sua repercussão desproporcional, manifestar nosso repúdio à toda forma de intolerância fundamentalista assim como nossa defesa do direito à diversidade.

Mesmo que a heterogeneidade de que se compõe o grupo esteja longe do consenso sobre se o ato que buscou a contraposição a posicionamentos religiosos fundamentalistas intolerantes (a diferentes modos de se pensar, de se amar, de se ser, de se comportar) tenha adotado a forma de crítica mais adequada para atingir seu objetivo, consideramos que devemos esclarecer ao grande público que o objetivo da performance enquanto linguagem artística é o de incentivar a reflexão, o que muitas vezes ocorre através do impacto que causa nos espectadores, assim como que nada justifica os atos completamente desproporcionais de que o autor da performance tem sido vítima.

A despeito do vocalista da banda ter se retratado e pedido desculpas públicas, não somente ele tem sido vítima de um linchamento virtual nas redes sociais como tem sido ofendido e ameaçado por todos os locais públicos por onde passa, recebendo desde ameaças de violência física a ameaças de morte. Foi demitido da lanchonete onde trabalhava como garçom para custear o curso de filosofia na UFAC e para ajudar nas despesas da casa num bairro periférico onde mora com sua tia que o acolheu após Roberto ter ficado órfão. As ameaças tem se estendido aos seus familiares que andam agora amedrontados pelas ruas, chegando ao ponto de sua prima/irmã ter que excluir seu perfil nas redes sociais devido às agressões constantes.

Temos a convicção de que apesar da disposição para a prática de atos de barbárie como os que presenciamos não seja mais característica da maioria da população como foi no passado, isso lamentavelmente não impede tais atitudes hoje minoritárias de destruir a vida não somente de uma pessoa como uma família, ou mesmo o perigo de se transformar em uma onda incontrolável de intolerância com consequências incalculáveis que causem danos irreversíveis à própria sociedade, assim como consideramos que intervir para que práticas bárbaras mais comuns ao séc. XI não se reeditem em pleno séc. XXI seja nosso dever enquanto cidadãos apegados aos princípios da vida civilizada.  

Queremos deixar bem claro que nossa atitude de lançar um manifesto em defesa do direito à diversidade não quer dizer nem que sejamos nem que queiramos ser iguais aos grupos que querem impor suas particularidades/singularidades à totalidade de uma sociedade heterogênea/plural, mas que, pelo contrário, defendendo o princípio de que somente a garantia do direito à diversidade pode conduzir a uma sociedade onde os direitos iguais para todos sejam não somente uma mera formalidade da letra morta do direito abstrato mas a vivência concreta e substancial de uma igualdade que possa ser realmente compartilhada por todos.

Ao invés do sentimento revanchista de propor retaliação aos retaliadores, propomos com a nossa própria prática uma mudança de concepção que conduza a uma superação da mentalidade maniqueísta que divide os diferentes, pela concepção de que a melhor forma de se contrapor ao fundamentalismo é demonstrar através de nossos próprios atos, através da nossa própria existência enquanto grupo formado pela unidade da diversidade, cuja própria existência já se constitui na vivência concreta de uma experiência potencialmente transformadora da realidade que possa se expandir contínua e indefinidamente, como mais um dentre outros importantes passos na caminhada em direção à construção da concepção de uma nova etapa de aprofundamento da convivência democrática.

Desta forma, nós heterossexuais e homossexuais; agnósticos, ateus, religiosos não praticantes e praticantes; umbandistas, candomblecistas, daimistas, espíritas, protestantes e católicos; brancos, negros, pardos e índios; brasileiros e estrangeiros; altos, baixos, gordos e magros; nós enquanto pluralidade orgânica estamos todos unidos em meio às nossas diferenças para manifestar nossa convicção de que o mundo é grande o suficiente para que todos possamos viver em paz através da garantia do direito à diversidade.

Rio Branco, Acre, 15 de maio de 2015

Entidades

•    Defensoria Pública Geral do Estado do Acre
•    Grupo Experimental de Teatro de Rua e Floresta Vivarte
•    Festcine Amazonia, RO
•    Coletivo de Ativismo Feminista Odara
•    Diversidade Coletiva
•    Festival Internacional Pachamama – Cinema de Fronteira
•    Rede Banzeiros
•    Saci Produções, AC
•    Lente Viva Filmes, SP
•    Cia. Garatuja de Artes Cênicas
•    Grupo Capim Limão
•    Facção Urbana – Grupo de RAP de Rio Branco
•    Arame Farpado – Banda de Punk Rock
•    Psicofloral – Banda de Rock Alternativo
•    Resistência HC – Banda de punk/hardcore

Pessoas

1.    Fernando Morais, Defensor Público-Geral do Estado do Acre
2.    Arquilau Melo, Desembargador
3.    Raimunda Bezerra da Silva – Coordenadora do CDDHEP
4.    Padre Massimo Lombardi
5.    Karla Kristina Martins, contadora de história e atriz
6.    Jose de lima kaxinawa (Zezinho Yube), cineasta indígena
7.    Francis Mary Alves de Lima, advogada
8.    Flavia Nascimento Oliveira, Defensora Pública
9.    Cassiano Marques de Oliveira, empresário
10.    Sérgio Areal Souto – Músico/compositor
11.    Altino Machado, Jornalista
12.    Gomercindo Rodrigues, Advogado
13.    Odilardo José Brito Marques, Advogado.
14.    Leandro Chaves, Jornalista
15.    Moises Ferreira Alencastro, Advogado e Ativista social
16.    Laísse Barbosa, psicóloga
17.    Cristina Messias – Assistente Social
18.    Márcia Aurélia Santos Pinto – Psicóloga
19.    Joelma Silva – Psicóloga
20.    Kariny Costa Gonçalves – Psicóloga
21.    Kleber Frota – Psicólogo
22.    Armando Cezar da Silva Pompermaier – Professor
23.    Gabriela Antonia da Costa Souza – Bióloga
24.    Solene Oliveira da Costa – Comerciante
25.    Ukla Vieira de Souza – Estudante
26.    João Jair Ruiz – Professor e Acadêmico de Direito
27.    Adão Araújo Galo Júnior – Professor
28.    Marcelo Cordero Quiroga – Cineasta
29.    Clemilson Farias, Produtor Cultural
30.    Laélia Maria Rodrigues da Silva, Professora e Artista Plástica
31.    Eduardo Di Deus, Doutorando em antropologia – UnB
32.    Diego Lourenço Gurgel, Fotógrafo
33.    Sebastian Morales, Crítico de Cinema, Bolívia.
34.    Sergio Zapata, Critico de Cinema, Bolvia
35.    Itala Batista, Estudante de Jornalismo UFAC
36.    Flávio Lôfego Encarnação, Diretor teatral e empresário
37.    Eurilinda Maria Gomes Figueiredo, professora
38.    Maria Luiza P. Ochoa, arqueóloga e indigenista
39.    Sérgio de Carvalho, Cineasta
40.    José Carrillo, crítico de cinema, Peru
41.    Dedê Maia (Djacira Maia de Oliveira), Técnica Indigenista Especializada
42.    Jaycelene Maria da Silva Brasil, professora e socióloga
43.    Camila Cabeça, produtora cultural
44.    Regina Maciel, atriz
45.    Hélio Moreira da Costa Júnior, Professor UFAC
46.    Valéria Santana da Silva, professora e jornalista
47.    Jaidesson Peres, jornalista
48.    Cicero César de Farias Franca, Cantor, ativista cultural
49.    Fernanda Kopanakis, Produtora Cultural
50.    Jurandir Costa, Cineasta
51.    Saskia Sá, Cineclubista e produtora cultural, Vitória ES
52.    Juliana de Paula Machado, produtora cultural
53.    Mariana Braga, produtora cultural
54.    Vera Olinda Sena de Paiva, educadora e indigenista
55.    Kevin Tomé de Souza e Silva – Produtor Cultural/Fotógrafo
56.    Kelen Mendes, cantora
57.    Vanessa Oliveira de Souza,(Vanessa Napiame), cantora. Diretora do Grupo Capim Limão.
58.    Felipe Gomes Zanon – Presidente da Associação de Ateus e Agnóstico do Acre, Licenciado em história e acadêmico de direito da Ufac
59.    Priscila Viudes, Jornalista .
60.    Clarice Viudes de Abreu, Estudante
61.    Leonardo Lani de Abreu, Professor/Funcionário público
62.    Dercy Teles – Sindicalista
63.    Jorge Neto de Andrade Nobre – Professor e rapper
64.    Clodoaldo Cristiano Ferreira Custódio (Dodô) – Motorista e rapper
65.    José Rodrigues da Silva Filho (Déda) – Técnico em saúde e vocalista
66.    Leandro Altheman Lopes – Jornalista
67.    Dalcimara Santos Silva – Estudante de Artes Cênicas
68.    Tassio de Assis Ramos Lopes – Técnico em informática, estudante
69.    André Luiz Gomes de Lima – Tec. Redes de computadores, estudante
70.    Ada Cristina Nunes Azevedo – Professora
71.    Fabricio Monteiro da Silva – Analista de redes
72.    Karine Diógenes Portela da Costa – Professora
73.    Irene Garcia Roces – Estudante
74.    Italva Miranda da Silva – Professora
75.    Maurício Mesquita Cunha – Professor/vocalista
76.    José Janes Gomes da Silva – Sindicalista
77.    Nângela Maria Luna Pereira – Bombeiro Militar
78.    Francisca Janaína Araújo de Oliveira – Professora
79.    Gregório Dantas Mendes – Professor
80.    Kelen Gleysse Maia Andrade Dantas – Técnica em assuntos educacionais
81.    Jaidesson Peres – Jornalista
82.    Denise Moreira Carneiro – Bióloga
83.    Ramon Arruda Braz – Agente administrativo
84.    Israel Pereira Dias de Souza, Cientista político, professor e pesquisador
85.    Sérgio Roberto Gomes de Souza, Professor, pesquisador
86.    Francisco Marnilson Neris da Silva, Administrador/músico
87.    Dyonnatan Silva Costa, Estudante/músico
88.    Lucas Prando da Silva, Professor
89.    Maria José Bezerra, Professora
90.    Blenda Cunha Moura, Professora
91.    Samyr Alexssander Farias Leite, Funcionário Público
92.    Hosana Piccardi, Bióloga
93.    Hérica Araújo do Nascimento, Funcionária Pública
94.    Anne Jamille Araújo Liesenfeld, Funcionária Pública
95.    Kétila Araújo da Silva, Estudante
96.    Joey Sampaio, Estudante
97.    Mirna Amoêdo Lima,Professora
98.    Antonio da cruz da Rocha Alves
99.    Servidor público e militantes dos movimentos sociais.
100.    Marine Ide da Silva Maia,Atriz e produtora
101.    Oneide Andrade Araújo, Bancária
102.    Elane Cristina Almeida da Silva,Socióloga
103.    Maria do Perpétuo S. P. Gonçalves,Professora
104.    Kennedy de Albuquerque Batista, Professor
105.    Salon Ismael Cabral Feitosa, Monitor educacional
106.    Maíra Menezes Bezerra Araújo – Estudante e Servidora Pública
107.    Magno Wesley Alves Sales – Técnico em Gravação Musical
108.    Gildson Góes Alencar de Oliveira – Gestor de Políticas Públicas
109.    Wesley Diógenes Matos – Funcionário Público
110.    Ana Luiza de Lima Silva – Estudante
111.    Lidianne Lima Cabral – Produtora Cultural e Gestora
112.    Remilson Queiroz Júlio  – Estudante

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