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Jornalismo em duas rodas: veja a 2ª parte das aventuras de Leandro Altheman pela Amazônia

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Jornalismo em Duas Rodas

Parte II – Um Brinde à Roda de Sansara

Mamão com açúcar

Dia de sol, pouco trânsito, estrada boa. Os 88 km que me separavam de meu destino, Porto Velho foram um passeio.

Vini, Vidi, Vince. Esta poderia ser a frase do dia. Mas não aplicada a mim que tinha percorrido apenas 1.200 km entre Cruzeiro do Sul e Porto Velho.

Caminho muito mais longo fizera a cruzeirense Sandra Braz ao sair de sua cidade natal e se estabelecer, sozinha na capital de Rondônia.

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Pouca gente sabe, mas meu primeiro emprego em Cruzeiro do Sul foi em um posto de gasolina. Nada se parecia mais com o fim da linha do que aquele posto. A BR pela qual chegara desmanchava-se em lama agora que o inverno amazônico mostrava quem manda.

Contudo, aquela sensação de que ruíam as pontes por onde andei para chegar até aquele “fim de linha”, causavam-me uma excitação inexplicável. À minha frente havia apenas um terreno fértil e a mata virgem, uma página em branco de uma história ainda a ser escrita. Era setembro de 2000.

Foi quando conheci Sandra que também trabalhava no mesmo posto. Sua percepção naquele momento era exatamente a oposta da minha: estava tomada de uma inquietação tremenda de quem está mas quer ir.

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Se para mim Cruzeiro do Sul era um terreno virgem, para Sandra aquelas ladeiras levariam apenas aos mesmos lugares da qual já estava cansada de saber aonde iam. Se hoje, Cruzeiro do Sul ainda tem poucas oportunidades para os jovens, em 2000 esta realidade era ainda mais evidente. E muito mais cruel para as mulheres, que na maioria das vezes, tinham como única opção arrumar quem sabe talvez um bom, ou até mesmo um mau, partido.

Mulher, jovem e recém-separada, Sandra enfrentou com galhardia a cidade de Porto Velho.  
É certo, que não lhe faltou o atributo normalmente associado aos homens da coragem, mas além disso, teve também o charme de quem se reinventou para ser dona do próprio nariz.

Formada e concursada pôde sustentar um padrão de vida bom, com as comodidades de uma cidade grande e uma liberdade que jamais teria conquistado em Cruzeiro do Sul.

Mas ora, vejam só, esta vitoriosa também sente aquele vazio costumeiro, companheiro conhecido de quem se realiza perante a sociedade e a si mesmo, mas que de repente sente que falta algo.

Sandra não tem o perfil de quem iria buscar consolo na porta de uma igreja, ou no altar. Chega de dogmas por esta encarnação!  

E de repente, nas margens do rio madeira, brilha a luz de Sidarta, e o budismo, passa a ser referência de uma possível reconexão espiritual, sem a necessidade de ter que se moldar a padrões sociais da qual tão custosamente, se desfez. Sim, na terra do minério e da soja, também verdeja lá uma “sanga”, nome que é dado às comunidades budistas.

É essa Sandra, desfeita e refeita que me leva a conhecer por Porto Velho.

Noto que não há nada digno de nota. A região que poderia ser chamada de histórica é pouco frequentada e não faz parte do roteiro da cidade. Não vi praças ou memoriais significativos e o monumento mais chamativo é uma réplica brega da Estátua da Liberdade.

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Tomada como símbolo de uma rede de multi-lojas, vou descobrir ao longo da viagem que são dezenas, ou talvez centenas destas réplicas espalhadas pelo Brasil. Talvez esta estátua imponente esteja dizendo que em Porto Velho quem manda mesmo é o mercado e que o poder público tem mais é que se curvar perante a esta divindade.

Para um viajante que passa simplesmente, não há melhor ou pior e o certo a se fazer é se adaptar às circunstâncias. A vida é curta, a estrada é longa e não há tempo para discursos. E nesse caso, em Porto Velho, nada melhor que aproveitar aquilo que a divina iniciativa privada proporciona como cinemas, restaurantes e é claro, cafeterias.

São os templos de consumo frequentados por quem gosta de ler e escrever. Para quem gosta de boa música e bom papo. E assim, entre uma xícara de café e outra, Sandra me põe a par dos fundamentos do budismo.

– Não fazer o mal ao próximo e praticar o desapego das coisas já é um bom começo, explica-me. A única constante deste mundo é a impermanência, então, desapegar-se é a única maneira de ser realmente feliz.

Nesse momento, lembro-me da prática dos monges tibetanos de passar horas e até dias desenhando intermináveis e intrincadas mandalas. A partir de grãos de areia coloridos eles fazem verdadeiras obras de arte, e quando prontas, apenas as olham por segundos e as desmancham novamente. Este é o real sentido de sua arte: provar que a vida é feita de beleza e impermanência.

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– O objetivo maior, contudo, vai mais além, continua. É despertar da ilusão deste mundo, libertar-se desta aparente realidade, esta roda continua de vida, morte e renascimento. Todos estamos presos a este ciclo, à roda de Sansara. Alcançar o vazio absoluto é atingir o Nirvana, a iluminação.

– Sandra, eu não quero sair da Roda de Sansara. Como é bela esta impermanente mandala em que vivemos: sol e chuva, serras e mares, tantos caminhos e eu com o tanque cheio da minha moto para percorrê-los.

-Sim, é uma bela mandala.

-Então eu proponho um brinde: brindemos à Roda de Sansara

-Um Brinde à Roda de Sansara!

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