A dona de casa Edileuza Gomes teve que chegar à meia-noite ao posto de saúde para buscar atendimento de um pediatra para o filho. “Eu preciso apenas mostrar o resultado dos exames (retorno) ao médico, que ainda não chegou. Isso é um absurdo”, reclamou a mãe do bebê por volta das 8 horas da manhã.
Além do bebê de colo, a mãe estava acompanhada da filha de três anos, também doente. Quando o dia começou a amanhecer, as crianças começaram a sentir fome. A mãe deixou alguém cuidando da vaga na filha e foi em casa para alimentar a filha.
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O governo do Acre e a prefeitura de Rio Branco têm anunciado em peças publicitárias que “as filas não existem mais” e que “não há necessidade de pacientes chegar pela madrugada para o agendamento de consultas”. Na verdade as filas começam a se formar, em todas as URAP´s de Rio Branco, a partir das 3 horas da madrugada.
“Minha mãe veio às 3 horas. Agora, ela está dormindo. Eu vim pra garantir que meu filho seja atendido”, conta o desempregado Leonarque Andrade, pai de uma criança de 8 meses, nos corredores lotados da URAP do bairro Vila Ivonete. “Na UPA do Tucumã também não tem pediatra. Tive que consultar meu filho de um ano e quatro meses com clínico geral, depois de uma longa espera”, afirmou o mototaxista Sandro Silva.
A situação crítica da saúde municipal em Rio Branco não poupa sequer mulheres grávidas em busca de exames do pré-natal. Cansadas, muitas dormem sobre bancos enquanto esperam médicos, que iniciam o expediente geralmente com atraso que varia de uma a duas horas.
“A saúde de primeiro mundo é essa que você está vendo”, protesta Gerliane Paiva, sonolenta, encostada numa pilastra da URAP do bairro Placas.
Idosos e crianças, após a humilhante espera, passando frio, aguardam pela coleta de sangue, sem que possam sequer se servirem de um copo com água. “Estamos com sede, com fome, não podemos ir trabalhar e o atendimento não começa. Gente, isso é desumano. Por que o prefeito não aparece aqui?”, indaga a dona de casa Marlene Feitosa Silva.
Consultada, a coordenadora da unidade do conjunto Adalberto Sena disse que “o problema é cultural”, referindo-se às imensas filas. Ela admite o quadro insuficiente de pediatras e sugere que todo mundo chegue, ao mesmo tempo, às 6 da manhã.
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Os pacientes insistem que não conseguem atendimento caso não passem a madrugada na fila por causa da distribuição limitada de fichas e da falta de médicos.
A assessoria de imprensa da prefeitura de Rio Branco foi procurada para prestar esclarecimento sobre a situação precária do atendimento municipal de saúde, mas disse que preferia se manifestar após a publicação da reportagem.
