Engana-se quem imagina ser fácil a vida de médico dentro de um ambiente hospitalar. E quando a unidade é pública, no Acre, a situação é ainda pior. Foi o que constatou a reportagem de ContilNet numa rápida “visita” ao que chamam de “sala de repouso”, destinada aos médicos, no subsolo do Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco (Huerb).
“Prefiro o banco do meu carro, meu travesseiro e lençol que trago de casa”, ironiza um médico sonolento, por volta de 3h da madrugada desta quarta-feira (29). Ele não é o único a preferir descansar no próprio carro e trazer roupas de cama preparadas pela esposa. “Não somos melhores do que ninguém, mas pra lá eu não vou”, acrescenta, pedindo anonimato, acenando um “boa noite” pouco entusiasmado.
A reportagem não viu nenhum médico repousando no recinto. Ao término do plantão, a vontade de tomar um banho supera o sono. “Chegar em casa é tudo que se quer. Pior para quem sai daqui e vai trabalhar em outro hospital”, conta um clínico geral, igualmente inconformado com a decisão da direção do Huerb de retirar o chuveiro elétrico da “sala de repouso”.
Na virada do plantão, por volta de 1h da madrugada, os atendentes são imediatamente procurados. “Eles chegam com o travesseiro debaixo do braço, o lençol e até edredon. Passam o celular deles pra gente e vão dormir no carro ou no próprio consultório, sobre a maca. A gente liga ou bate na porta para acordá-los quando os pacientes chegam”, conta uma funcionária.
No “sala de repouso” dos enfermeiros não há colchões e beliches suficientes. Muitos dormem no chão e ninguém ousa denunciar a situação abertamente alegando o medo de sofrer represálias.
O Sindicato dos Servidores em Saúde, o Conselho Regional de Medicina e o Ministério Público nunca se manifestaram, mas têm conhecimento da situação, de acordo com um médico que também pediu para não ser identificado.
Leitos e equipamentos
A reportagem não constatou filas nos corredores, mas identificou dois pacientes em risco de infarto aguardando por leitos. Os familiares pediram a intervenção de um deputado aliado ao governo. O parlamentar foi eleito prometendo fiscalizar e cobrar melhorias no atendimento.
A antessala do raio-x, monitorada por câmeras de segurança, tem movimento intenso. Por ali passam, inclusive, os técnicos em radiologia que trabalham sem Equipamento de Proteção Individual (EPI), obrigatório para evitar contaminação por radiação.
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Gambiarras
A mistura de água com eletricidade não apresenta risco de curto circuito apenas no repouso médico. Por toda a extensão do hospital, especialmente no subsolo, há um enorme emaranhado de fios soltos, energizados, ora pendurados nas paredes ou arriados pelo chão alagado, em locais fétidos por onde transitam pacientes e trabalhadores. A imagem lembra mais cortiço que hospital.
No ambiente onde os profissionais trabalham, não há calor. Mas o ar refrigerado é proveniente de instalações elétricas bastante precárias. O piso é escorregadio e coberto de lodo em algumas áreas externas do hospital.
Não há trégua para o pessoal da limpeza. Todo esforço é feito para que o interior do Huerb pareça limpo e bem cuidado.
As gotas que saem dos aparelhos de ar condicionado vão além de um pinga-pinga nas calçadas. Ao invés do desleixo, que causa infiltrações e torna o ambiente hospitalar insalubre, esses centenas de litros produzidos ao final de cada dia poderiam ser reutilizados.
Uma grande caixa de gordura coberta por telhas quebradas recebe parte da água suja produzida no hospital. O destino é o Canal da Maternidade e, por fim, o Rio Acre.
Outro lado
As irregularidades identificadas pela reportagem foram comunicadas à Secretaria Estadual de Saúde, que pediu algumas horas para se manifestar. O governo determinou uma inspeção no Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco.
“Nós esperamos cessar o período chuvoso para dar início aos reparos. Uma grande reforma será feita no hospital, como parte do programa de verticalização da saúde”, afirmou o secretário adjunto de Administração e Finanças da Sesacre, Kleybe Guimarães.
Toda a rede de média e alta tensão será reparada, segundo ele, após perícias que serão feitas por um engenheiro eletricista. Esta verificação está sendo agendada.
“As infiltrações são decorrentes de fissuras no telhado. Não podemos desmontar o teto enquanto houver chuvas. O mês de agosto nos permitirá fazer todos os reparos. A ala onde fica o repouso dos médicos será demolida.
Este ambiente vai funcionar em outro setor do hospital. Novos beliches e colchões serão adquiridos. A licitação está em andamento. Infelizmente, a burocracia no serviço público é assim. Precisamos seguir os ritos legais. Mas tenha certeza que nós nos preocupamos muito em oferecer um ambiente humano aos nossos servidores”, destacou ele.
Kleybe Guimarães disse que os Equipamentos de Proteção Individual (EPI´s) existem. “A recomendação é para que todos usem”, alertou, referindo-se aos técnicos em radiologia.
O secretário adjunto acrescentou que o governo está tratando com cautela o caso de alguns médicos que vão pra casa durante o plantão. É prudente que os profissionais escalados permaneçam no hospital, pois o atendimento emergencial é prioritário”.
