Rio Branco, Acre,


“Depois da destruição, agora estão financeirizando a natureza”, diz Lindomar Padilha

O que estamos vendo no Acre é um desenvolvimentismo que traz, em seu rastro, destruições monumentais

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Estamos vendo no Acre um desenvolvimentismo que traz, em seu rastro, destruições monumentais, diz Padilha

Na próxima terça-feira (29), quando completa 40 anos de sindicalismo rural no Acre, um conjunto de entidades lançará uma “revista-relatório”, em Rio Branco, coordenado pela Missão de Investigação e Incidência da Relatoria Nacional de Direitos Humanos (RDHMA), da Plataforma Direitos Humanos Econômicos, Socais, Culturais e Ambientais (DHESCA). O documento revela graves violações dos direitos humanos no marco das políticas de “economia verde”, além denunciar o caráter internacionalista do modelo econômico em curso no Acre.

De acordo com o documento, as iniciativas relacionadas à chamada “florestania” tendem a relativizar as reais causas da degradação, penalizam as populações historicamente prejudicadas por injustiças socioambientais e defendem instrumentos de mercado como soluções para tais problemas.

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Além do gradativo extermínio dos povos nativos, o documento também denuncia cooptação de trabalhadores através de propinas, os projetos de captura de carbono (REDD ou serviços ambientais) e alerta sobre os riscos de destruição da cobertura vegetal no Acre com o Novo Código Florestal. O atual modelo só teria beneficiado madeireiros e agropecuaristas, enquanto quase 20% da população acreana vive abaixo da linha de pobreza.

À frente desta resistência está o indigenista Lindomar Padilha, uma espécie em extinção na atualidade. Em sua avaliação, o processo de destruição em larga escala da Amazônia foi acelerado a partir das hidrelétricas no Rio Madeira, em Rondônia, e da possibilidade de prospecção de petróleo e de gás de xisto no Vale do Juruá, o que pode mudar drasticamente o futuro da região.

“Depois da destruição e mercantilização, agora estão querendo financeirizar a natureza”, afirma o ativista, que foi coordenador regional do Conselho Missionário Indigenista (Cimi) por oito anos.

Formado em filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e especialista em desenvolvimento e relações sociais no campo, Padilha defende a autonomia dos movimentos sociais e propõe cooperação e parceira nas relações com os trabalhadores e demais segmentos sociais.

Ele também lamenta as vítimas do “desenvolvimentismo” e chama a atenção para outras perspectivas emancipatórias, sempre acreditando ser possível criar uma nova cultura política, legitimada no diálogo, cujos preceitos, utopicamente, ele chama de “filosofia do bem viver”. Leia os principais trechos da entrevista:

ContilNet  – Em sua opinião, o que está acontecendo no Acre, nas últimas décadas?

Lindomar Padilha – O que estamos vendo na América Latina, neste país, na Amazônia, e em particular, no Acre, é um desenvolvimentismo que traz, em seu rastro, destruições monumentais, seja dos bens naturais ou dos povos tradicionais. E os governos, a ciência e o movimento social ao longo dos anos, têm sido instrumentalizados para fazer valer os interesses dos capitais privados, que se apropriam dos bens naturais dessa região e ainda matam suas populações.

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Filosofia do Bem Viver é a harmonia homem-natureza/Foto: Arquivo Pessoal

 

Que expectativas o senhor tem com a realização deste evento, quando se denunciará a violação de direitos humanos no Acre?

Em especial, queremos chamar a atenção para a gravidade que a Amazônia vive hoje e, ao mesmo tempo, despertar corações e mentes para somar nessa luta com os povos indígenas, trabalhadores rurais e população pobre que mora nas cidades. Estes grupos têm sofrido com o processo de destruição acelerado e provocado pela famigerada economia verde, ou seja, a exploração madeireira e outros recursos naturais, além da mercantilização da natureza e os REDDs (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação florestal) da vida, que significam expropriação de territórios e uma nova forma de dominação na Amazônia.

O que é economia verde?

Economia verde derivou do desenvolvimento sustentável, que é a promessa de que as coisas mudariam se fosse adotado um conjunto de técnicas no modelo produtivo. O grande bordão era que podíamos suprimir as necessidades do pressente sem comprometer as gerações futuras. Tudo balela. Foram muitas propagandas e o mundo ficou mais destruído. O Acre é um engodo. A pecuária e a exploração irracional cresceram vertiginosamente nas últimas décadas. Esses setores ganharam muito dinheiro destruindo. E o que é ainda pior: sem gerar divisas para a nossa combalida economia. Trata-se de um desenvolvimento predatório. Todos os indicadores econômicos e sociais corroboram com isso.

E a distribuição de royalties através dos projetos de REDD?

Os países poluidores compram cotas de carbono nossas, impedindo que o extrativista sequer faça uma coivara. A lógica de tudo isso é ganhar destruindo. Os países ricos vão continuar poluindo e engessando qualquer possibilidade das populações tradicionais melhorarem de vida. Quem vai ganhar dinheiro são os que tiverem a propriedade das terras. Por que ainda não demarcaram as 21 terras indígenas do Acre? Estão vendendo tudo, inclusive, o ar. Chamo a isso de financeirização da natureza. É irrealista e enganadora a ideia de “repartição justa e equitativa dos benefícios”. Trata-se daquela velha ideia de que uma comunidade dependente da floresta poderia ser beneficiada, a longo prazo, por um projeto, um REDD, por exemplo. Esses projetos não resultam das demandas da comunidade, aliás, elas sequer são consultadas. São impostos de cima para baixo. Baseados nas ideias de comercialização e financeirização dos recursos biológicos, eles são incompatíveis com a relação que estas comunidades estabelecem com a natureza. No Brasil, a implementação de REDD faz parte de um amplo processo de transferência do controle sobre os recursos naturais, concentrando-o nas mãos de oligarquias locais e corporações multinacionais. Este processo apoia-se em antigas estruturas de poder, decorrentes do período colonial, reforçadas durante regime militar e, paradoxalmente, reiteradas no atual governo do PT.

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Atualmente, vemos crescer em todo o mundo a resistência contra o fracking, que foi proibido, inclusive, em países como EUA, Canadá, França, Itália, Noruega, Ucrânia, Tunísia e Espanha. O que é o fracking?

A Agência Nacional do Petróleo não fez um estudo de impacto ambiental, desrespeitando uma convenção da Organização Internacional do Trabalho, entidade da qual o Brasil é signatário. O governo criou uma cortina de fumaça e gera expectativas de desenvolvimento para região do Vale do Juruá. O problema são as técnicas utilizadas para a extração do gás, que é a fratura da rocha. Após explodi-la, é utilizada uma enorme quantidade de água com areia e milhares de produtos químicos para liberar o gás. É certo o risco trazido pela injeção dessa água misturada no subsolo, com a possibilidade de se contaminar os aquíferos. O Alto Juruá é nascente de rios e igarapés que alimentam simplesmente a maior bacia hidrográfica de água doce de superfície do mundo, a Bacia Amazônica. A água é a maior riqueza da região. Estudam afirmam que o Aquífero Juruá é o segundo maior da Região Norte, ficando atrás apenas do aquífero de Alter do Chão, no Estado do Pará. Estudos recentes confirmam que esse tipo de exploração prejudica, inclusive, o agronegócio, porque o gado, ao beber água contaminada, contamina a carne, que é o carro-chefe da economia brasileira. Como exemplo, temos a Argentina, um país que é grande produtor de maçãs, e que agora está proibida de exportar o produto para a Europa porque foi contaminado com metano. Na Europa, quando essa maçã chegou, demorava até dois meses para se deteriorar. Quando foram pesquisar, descobriram que estava contaminada com metano e proibiram sua importação.

Como senhor avalia a PEC 215, que quer tirar as atribuições da Funai e transferi-la para o Congresso Nacional?

A PEC 215, articulada pela bancada ruralista, alega que as terras indígenas e das comunidades quilombolas prejudicam o progresso que chamo de desenvolvimentismo. Essa proposta, infelizmente, conta com o apoio da grande imprensa, do agronegócio, dos evangélicos, das mineradoras e dos megaprojetos, que defendem um tipo de “desenvolvimento”, que será danoso não só aos povos indígenas e outras comunidades tradicionais, como também ao meio ambiente e, ao longo prazo, à população brasileira. O movimento indígena defende uma Funai estruturada, dotada de todas as condições para cumprir a sua missão, que é estar ao lado dos povos indígenas na luta pela demarcação de suas terras e ascensão político-cultural na sociedade brasileira

O que é a filosofia ou estilo de vida do “bem viver”?

Os povos indígenas acreditam que não é possível viver melhor sacrificando outros que vivem pior. O “bem viver” é o equilíbrio entre os seres humanos e destes com os elementos da vida. Trata-se de uma cosmo visão. A convivência de todos os seres humanos, com a mãe terra e todos os elementos do cosmos mais amplamente. Acredito que é possível e necessária a aproximação da filosofia indígena do “bem viver” e a abertura para o que é diverso na busca de uma sociedade mais justa. Somos capazes de convivermos com as diferenças. Tudo tem que ser pluri e para que tenha sentido deve ser inter, de inter-relação entre todos, para que as coisas avancem. O poder também precisa ser compartilhado para se chegar ao pluralismo e consequentemente ao bem viver.

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