Rio Branco, Acre,


Domingos Oliveira entrevista Fernanda Montenegro, estrela do seu novo longa, ‘Infância’

Atriz conta histórias de seu passado enquanto reflete sobre o futuro

Fernanda Montenegro - Fabio Seixo
Fernanda Montenegro – Fabio Seixo

Tudo para quando a dama atravessa o salão. Tudo cala ouvindo a sua voz. Sedução e inteligência, maturidade e juventude, tudo é o mesmo. A dama é imensa. A dama ri. E todos riem com ela. Fernanda Montenegro é uma das pessoas de que mais gosto na vida, o que não é dizer pouco, posto que na vida amei muito.

Nos conhecemos há 50 anos. Eu era aquele jovem fã que às segundas-feiras, por nenhuma namorada ou pela mais animada festa, não saía de casa porque era dia de ver Fernanda naquela tela mínima, preto e branco, do (programa de teleteatro) “Grande Teatro Tupi”. Não a conhecia pessoalmente, mas pensava nela todos os dias e sentia saudades durante a semana. Agora, na hora de contar esta entrevista, reconheço que não tenho talento à altura. Então apenas reproduzo aqui algumas frases que me ficaram no ar. Não as melhores, porque melhores são todas.

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O que eu sempre quis da maneira mais direta foi comunicar o sabor da minha vida.” (Simone de Beauvoir)

— Adoro Renoir, mas gostaria de ser pintada por Gauguin — diz Fernanda. — Somos Libra os dois, Domingos! Libra escolhe na hora. A gente vive assim: por onde vai, por onde vai hoje, eu vou por aqui.

“GRANDE TEATRO TUPI”

“Domingos, você é uma criança! Sete anos de diferença entre nós dois! Quando a gente nasce é muito, de um bebê para um menino de 7 anos é muito. Mas atualmente nós somos quase da mesma idade, quase. No tempo do pega pra capar mesmo, dos militares, tinha sempre alguém pra gritar “vamos entrar em greve”. O Fernando (Torres) dizia: “Não vamos entrar em greve coisa nenhuma. Porque ninguém vai perceber que a gente fechou!” Não somos necessários, não vai fazer falta. Eles não vão ao teatro porque gostam do teatro. Eles vão para nos ver! Ver quem é aquela gente esquisita e encantadora que gosta tanto do teatro!

“O ‘Grande Teatro…’ começou em 1959. A gente vinha de São Paulo no Corujão (o avião da madrugada), saía de lá à 1h da manhã e chegava aqui às 4h; às 8h a estava no estúdio do ‘Grande Teatro…’. Durante a semana, nove sessões no palco. Duas na quinta. Duas na sexta. Duas no sábado. Três no domingo. Fizemos Pirandello todo, Tchekov todo. A gente enfrentou autores de todos os quilates, só não pegamos os gregos e Shakespeare. Quatrocentas peças em 16 anos, coisa de maluco. O Sergio (Britto) tinha um fôlego infindável. Entusiasmo inabalável. Era pior do que eu. Existia uma padaria em São Paulo na esquina perto do ensaio. Um café com leite, um pão quentinho, aquela era nossa comida, a gente vivia na miséria. Seu Britto, pai do Sergio, foi lá para ajudar o filho. A conta na padaria era uma baba! Sergio alimentava todo mundo, seu Britto pagou a conta.”

“TEATRO DE CATACUMBA”

“Para a gente que viveu o apogeu das grandes produções, teatro hoje, um monólogo ou diálogo que fica um mês em cartaz e depois sai, é triste! É teatro de catacumba.

“Ítalo (Rossi) me telefonava sempre, todos os dias. Somos crianças, os atores. Graças a Deus. Nossos ataques de riso em cena ficaram famosos. Eu abria a porta do cenário e dizia para o Ítalo: ‘Meu querido!’ Um olhava para o outro e ria, ria. Ninguém sabia por quê. Houve uma peça em que o Ítalo ficava no meio de dois atores que discutiam, ele olhava para um, depois olhava para o outro, e a plateia ria, ria. Sergio, que era o diretor, mandou o Ítalo ficar quieto, caso contrário não seria possível ouvir a discussão. Então, o Ítalo ficou. Mas a plateia ria muito mais.

“Ator é muito bobo. De cada peça ficam frases que o elenco não esquece nunca, ninguém tem a menor ideia do porquê, mas não esquece: ‘É demais, mamãe, é demais!’ (de ‘A moratória’ de Jorge de Andrade); ‘Perdidos nos veremos para toda nossa vida. O que será de mim?’ ‘A vida é dura, galera, e nela tenho remado muito’ (Ambas de Jacinto Benavente, em ‘Os interesses criados’). Minha avó italiana usava muito essa palavra, ‘galera’. Que se usa até hoje em outro sentido. Minha avó explicou que era o lugar onde ficavam os escravos remadores antes do navio a vapor.”

SOBRE “INFÂNCIA”

“Sobrevivemos, Domingos, sobrevivemos. O filme veio numa hora difícil para mim. Tinha (o remake da novela) ‘Saramandaia’, aí fui pro Sul, passei um mês lá fazendo (a série) ‘Doce de mãe’, passei um mês aqui fazendo estúdio, voltei pra Porto Alegre, teve o ‘Rio eu te amo’ (longa de episódios em que Fernanda foi dirigida pelo genro, Andrucha Waddington), teve nosso filme. Aí, veio o prêmio Emmy Internacional (de melhor atriz por ‘Doce de mãe’), que eu não esperava, e vamos nós para Nova York, de longo.

“Fizemos ‘Infância’ (adaptação da peça ‘Do fundo do lago escuro’, com estreia marcada para a próxima quinta-feira) enquanto eu decorava ‘Doce de mãe’. Então, voltamos, e logo para começar o processo da novela ‘Babilônia’. Fora o que esqueci.

“No entanto, estamos vivos. Não tem como explicar essa minha resistência. É genética. Mas valeu a pena, Domingos, nosso filme é uma beleza, tem crítica, mas sem panfleto. Dona Mocinha (personagem de Fernanda no longa) ama o (ex-governador) Carlos Lacerda. É reacionária porque respira. O julgamento fica por conta de quem vê. Nosso filme está só esperando aqueles que vão reconhecer o quanto é audacioso e até revolucionário fazer um filme clássico nos dias de hoje. É só esperar.”

PERSONALIDADE

“Eu tenho ainda uma menina dentro de mim, e uma velhinha a vida inteira dentro de mim. Acho que já nasci velhinha e tenho uma alegria de criança dentro de mim, ou melhor, de menina, de menininha. Desde cedo fui muito observadora. Eu sempre olhava mais do que estrebuchava.”

“Se você não se mexer para ajudar o outro, você fica mal, porque a gente, para ter paz, o outro precisa ter paz, senão a gente fica desassossegado. Não é para ganhar o céu, não se trata de colocar uma auréola sobre nossas cabeças. Então, não é por amor ao próximo, é por amor a si mesmo. O negócio é o seguinte: se quem está do lado está mal, então deixa eu ajudar o cara. Se eu puder ajudar, vou ficar ótima. Vocação não é para fugir dela. Nós fazemos aquilo de que gostamos! O trabalho é duro. Mas não é com o suor do nosso rosto que ganhamos nosso pão. Não há condenação bíblica! O artista não está desvirtuado do seu chamado. Acho que a gente foge disso. Escapa. Porque o cara ter que ganhar a vida com o suor do seu rosto é uma condenação. O artista sofre, é desassossegado, é desconfortado, mas não é um condenado.”

A FAMÍLIA

“No subúrbio, onde a gente morava, a gente ia três vezes por semana ao cinema. Eu cheguei a pegar na minha extrema infância um tempo em que não existia nem rádio. Ia-se ao cinema ou se visitava pessoas! E se levava as crianças. A parte de minha mãe é italiana; a do meu pai, portuguesa. Sou a segunda geração. Porque minha mãe veio da Sardenha, o que não é brincadeira. Eu me lembro também muito do meu bisavô italiano, gostava muito dele.”

O CINEMA

“Meus filmes prediletos ainda são ‘Jules e Jim — Uma mulher para dois’ (1962, de François Truffaut) e ‘E o vento levou’ (dirigido por Victor Fleming). O cinema americano foi criado para fazer “E o vento levou”. O filme estreou em 1939, eu tinha 9 anos. Você, Domingos, tinha 2. Na década de 1910, 20, 30, era muito romance! Eu tive um irmão que morreu com 10 meses. Veio logo depois de mim. E minha avó, que era italiana, dizia chorando que ele era tão bonito quanto o Rodolfo Valentino.”

O MEDO

“Quem não tem medo? Você gostaria de parar tudo e ficar espiando seu fim? Ninguém tem uma vida flanada, sem tormentos. A gente já nasce berrando. De medo. E, com medo ou sem medo, a gente vai! Porque a gente, Domingos, ama a vida, não adianta negar. Você está mais vivo do que nunca. A gente se conhece há 50 anos, e você não mudou nada. O segredo é que a gente tem muita vida ainda dentro! E dane-se! A gente paga um preço? Paga. Perde pai, perde mãe, perde irmã, perde marido. Perdi meu homem, 60 anos de convivência. Não tem reposição de peça, nem quero. Agora, o coabitar é revolucionário. Você pensa que vai mudar o outro, mas não vai. No entanto, parece que há um arco por cima. Uma mão. Que une os dois e que vai nos levando.

“Vovó, que era analfabeta, dizia que tinha lido na ‘Divina Comédia’: ‘Na porta do inferno tem uma bigorna onde o diabo bate e diz: Eterno! Eterno! Eterno!!’ Já pensou isso na cabeça de uma criança? São essas memórias que enlouquecem a gente de saudade!!! Eu procurei na ‘Divina Comédia’, mas não achei esse pedaço. Eu tenho muita saudade dos meus amigos que se foram. Domingos, você diz que cismei que sou feliz. Pode ser. Há uma oração do João XXIII que é bonitinha. Você acorda e agradece a Deus porque acordou. Aí você vive o seu dia e, na hora de dormir, agradece a Deus por aquele dia, porque acordou. Pode ser que no outro dia você não amanheça. É simples e comovente: acordou, não morreu, agradece a Deus. Você perde uma pessoa da sua vida, tem que ficar triste por muito tempo.”

“MORRER, NÃO VAMOS”

“Mas a gente acorda e canta. Com a idade, você vai vendo os amigos indo embora, você fica sem uma memória sua. A memória une muito a gente. No enterro do filho de um amigo meu, uma coisa horrorosa, porque só existe uma tragédia no mundo, que é morrer jovem, o padre disse, lenta e gravemente, quase palavra por palavra: ‘Ele agora não sofre mais’. Isso me impressionou muito!!! Pode não ser um consolo absoluto, mas é verdade.

Mas é duro! Aos 50, 60, 70, ainda dá para discutir. Os de 70 ainda há muitos aí. Mas, Domingos, te prepara por via das dúvidas. Dos 80 pros 90 na minha vida foi uma ceifada violenta. Sem nenhuma morbidez. Somos muitos ainda, graças a Deus, mas não somos tantos! Nos 80, estamos em estado de alerta! Eu não me canso. Acho que isso é uma doença ainda não diagnosticada. Morrer, não vamos.”

Fernanda Montenegro não vai precisar passar pelos incômodos do juízo final. Sua arte fez isso com ela por antecedência. Antes de a porta do elevador fechar, ela ainda diz sorrindo: “Domingos, nós não temos mais idade para sofrer.”

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