Em uma visita à ContilNet na manhã desta terça-feira (29), o vice-presidente do Senado Federal, Jorge Viana (PT), falou de diversos temas do cenário nacional e dos novos desafios para enfrentar a crise política e econômica atual.
Senador Jorge Viana com as jornalistas Wania Pinheiro e Gina Menezes/Foto: Ton Lindoso/ContilNet
Aos 55 anos de idade e bem conservado, Jorge Viana continua sendo uma das maiores expressões na política do Acre e do Brasil. Atualmente ocupa, pela segunda vez, o cargo de vice-presidente do Senado, sendo um dos políticos que mais se destaca na imprensa nacional e no exterior. Em uma publicação da revista Time, o senador acreano foi citado como uma das lideranças promissoras da América Latina para o Terceiro Milênio.
Em conversa com a equipe da ContilNet, o senador enfatizou a importância de se utilizar os mecanismos políticos transparentes para diminuir os gastos e vencer a atual crise financeira, que tende a se estender no próximo ano. Para ele, é necessário diminuir cargos, despesas e tornar-se útil, de alguma forma, para vencer a crise e fortalecer os estados e municípios.
Como vice-presidente do senado federal, Viana diz que trabalha de forma rígida, junto com o presidente Renan Calheiros, para deixar o senado preparado para o enfrentamento das dificuldades.
“É necessário que todos os órgãos reduzam as despesas para enfrentar a crise. O senado está fazendo isso. Estamos investindo no que é necessário. Esse é o trabalho que todos devem fazer” disse o senador.
Em meio a atual crise, Jorge disse que a sua prioridade é se sentir útil em meio à falta de fé das pessoas no cenário político estadual e nacional. “Digo aos meus aliados: ficar de braços cruzados não vai resolver”, enfatizou o vice-presidente.
O senador disse ainda que, ser político nos dias atuais requer compromisso e muita coragem, disponibilidade e garantia de serviços. “Para mim é muito complicado viver nessa fase. O momento é muito ruim para ser governador ou prefeito aqui no Brasil”, finalizou o parlamentar.
Veja a entrevista:
ContilNet: Senador, como foi, ao seu ponto de vista, esse ano de 2015? Qual o panorama, no que diz respeito a política, que o senhor faz do país neste ano?
Jorge Viana: A política está piorando e vai piorar; a economia, em consequência da crise política, também. O jeito é a gente fazer um bom trabalho. Se vocês observarem, eu também resolvi trabalhar nos direitos das pessoas, dos consumidores, quis arrumar um jeito de ser produtivo em meio à crise, por que em um período de crise o consumidor acaba perdendo os seus direitos. Eu não vou ficar preso a uma crise, eu preciso fazer alguma coisa produtiva também. Esse lado foi bacana, trabalhar diretamente com a população, na luta por seus direitos. O outro lado foi apoiar grandes projetos, da ciência, tecnologia, inovação, biodiversidade. Para mim é uma honra. Esse ano eu me paguei, eu paguei o meu salário. Senti-me produzindo, e esse desafio é que temos que colocar: pensar no que podemos fazer para enfrentar a crise. Onde posso ser útil? Essa é a pergunta que fiz. Graças a Deus, conseguimos bons resultados, apesar do ano difícil.
Jorge: “Quando o mar não está pra peixe, não adianta querer pescar. Estamos vivendo uma fase ruim”/Foto: Ton Lindoso/ContilNet
Senador, como é ter uma cargo de destaque no senado e ver que a política passa por um período de falta de credibilidade? Como foi lidar com isso?
Não podemos ser ansiosos em momentos como esse, tentar resolver as coisas de mal humor. Quando o mar não está pra peixe, não adianta querer pescar. Estamos vivendo uma fase ruim. Fala-se na baixa popularidade da presidente Dilma, pior é no congresso e nas assembleias. É muito pior! E vai piorando. Vi que a Erundina [Luiza Erundina, deputada], por exemplo, está criando um partido, o Raiz. Ela tem autoridade para isso. Só que, dia desses, criaram o Partido da Mulher. Para o partido, entraram 25 deputados homens e 1 senador. Isso no Partido da Mulher! Tem coisas que o povo do Brasil está conseguindo piorar, o que era impossível tornar ruim ou pior.
O senhor é contra a crianção de novos partidos?
Essa coisa de estar criando partido fale o sistema político. O reflexo disso pode ser visto nesta descredibilidade que você [a repórter Gina Menezes] citou. Para mim, é muito complicado viver nessa fase. Hoje eu ajudo o Renan a administrar o senado. Eu muito me orgulho de estar ali. No primeiro ano de senado, nós devolvemos, para os cofres da União, R$ 132 milhões. No segundo ano, 300 milhões, no terceiro 600 e agora, no último ano, são 820 milhões. O Senado tinha um orçamento do tamanho do da Câmara, reduzimos esse orçamento em 40%. O Senado é a instituição mais transparente do Brasil, qualquer despesa que nós, senadores, fazemos, está no portal da transparência. É necessário que todos os poderes, incluindo as assembleias, as câmaras e etc. reduzam as despesas, para enfrentar a crise. O senado está fazendo isso. Eu não sou o primeiro secretário, mas, todos nós – da mesa diretora – trabalhamos radicalmente nesse sentido. Reduzimos os contratos em 20% e todas as despesas. Alguns outros serviços também foram diminuídos. Estamos investindo no que é necessário. Agora, temos mais dinheiro pra investir; para se ter uma ideia, no auge da ‘gastança’ antes os investimentos beiravam os 12 mi, hoje são 60. Podemos investir porque economizamos no supérfluo. Esse é o trabalho que todos devem fazer.
As previsões, então, são ruins para o próximo ano?
O que eu lamento é que, quando chega a crise, os governantes ficam na base do “o que deixaremos de pagar?” ou invés do “onde podemos deixar de gastar”. Devemos preparar os estados, os municípios para os anos que estão por vir, preparar a economia, é o que tenho dito. Temos casos de prefeitos, como o Marcus [Alexandre, PT], que estão conseguindo sobreviver. Mas eu acho que, três próximos meses, as coisas vão piorar. Porque a crise é assim: vai ganhando feição. Vai vindo aos poucos e chegando meses depois. Acredito que resultados negativos ainda vão ser refletidos nos próximos meses. Acredito que quem gasta com o que é supérfluo e faz muitas despesas, não administra da forma correta, vai ter dificuldade de ajustar a folha. Esse governo ainda tem 3 anos pela frente e medidas devem ser tomadas.
O momento é muito ruim para ser governador e prefeito no Brasil”, diz Jorge/Foto: Ton Lindoso/ContilNet
O governo do Acre criou, nesse último ano, cerca de 1100 cargos comissionados. O que você pode dizer a respeito disso?
Pelo que estou informado, não foi bem uma criação de cargos. Foi um ajuste feito, se não me engano foram apenas 150 cargos. Não tenho informações precisas, por isso não posso opinar. Só posso dizer que, em uma conversa com o Tião, ainda neste ano, avisamos a ele que as coisas iriam piorar.
Como o senhor avalia o governo de Tião Viana?
Eu acho que ele tomou algumas medidas para chegar ao fim do ano e está na lista dos governadores que conseguiram efetuar pagamentos da forma correta. Nossas despesas com os órgãos públicos aumentaram muito. Acho que devemos adotar medidas restritivas, como a questão de concursos. Não são coisas boas mas, pra que se enfrente a crise, são atitudes que devem ser tomadas. Conseguimos enfrentar outras crises, como o caso dos haitianos, e o Tião mergulhou de cabeça e, agora, tem dado as respostas necessárias para o enfrentamento da atual. Se fosse em outros tempos, com outros governadores, não sei se teríamos a mesma sorte. Quando temos uma crise, temos que mostrar para a população a magnitude dos fatos. As pessoas vão compreender. O momento é muito ruim para ser governador e prefeito no Brasil.
No primeiro ano de mandato dos atuais prefeitos o senhor advertiu para a crise que iria chegar. Na oportunidade o senhor aconselhou a todos a reduzir gastos, acha que eles ouviram o conselhor?
É um momento muito difícil. Nós estamos mal acostumados com os momentos de bonança e crescimento, dos mandatos do Lula e os da presidente Dilma, de muitas conquistas e investimentos. Há anos, não temos uma crise como essa. Foi um governo de mais crescimentos que no mandato do FHC, só que não lembramos. Não só prefeituras, mas eu gostaria de ver as câmaras municipais devolvendo dinheiro ao executivo, por que eles são os principais responsáveis pelo crescimento. Tem que ter esforço de ‘todo mundo’. Não quero ser fatalista, mas acredito que 2016 vai iniciar carregando nas costas os pesos de 2015. Isso é muito ruim.
Como acha que vai ser o ano de 2016 para as prefeituras?
Na primeira reunião com os prefeitos, o que eu disse foi o seguinte: “se eu pudesse fazer uma radiografia de todos os meus gastos, eu faria”. Faria porque sabia que íamos passar por um momento como esse. Tomaria medidas restritivas, mas teria dinheiro pra fazer o que a população quer que um prefeito faça! Essencialmente, manter uma cidade limpinha, funcionando, e sem buracos. Questões de transporte, infraestrutura, isso é essencial, é necessário. O fato é que, quem não adotou medidas restritivas no primeiro momento, terá que adotar medidas drásticas agora.
Pleno do Tribunal de Justiça do Acre aprovou, recentemente, um pagamento de auxílio moradia e auxilio saúde retroativo a juízes. O que o senhor acha disto?
Olha, não quero opinar sobre outro poder, mas posso dizer que, quando eu me elegi governador, um juiz ganhava R$ 3.200 reais, quando eu sai, eles estavam ganhando 11.600 e logo depois chegaram ao teto. Eu prefiro que haja um salário melhor, mais elevado, do que esses auxílios que eu considero supérfluos. Isso é um subterfugio perigoso [evasiva alegação e pretexto usado por quem procura esquivar-se de dificuldades]. Nesse momento, o país precisa conter gastos.
Sobre as eleições de 2016, como o senhor acha que será? De que forma a Frente Popular deve encarar os adversários?
JV: Será um pleito difícil. Imagino que será bem mais difícil para a Frente Popular do que para a oposição, pois a Frente enfrenta o desgaste natural e o reflexo da crise política, mas iremos optar por uma conversa honesta com a população e levar até eles nossas propostas. Iremos falar ao eleitor do que já fizemos e do que ainda poderemos fazer.
