A ressocialização de pessoas que cumpriram pena em estabelecimentos prisionais é um tema que assusta a maior parte das pessoas por conta do estigma. Mas quem passou por algum problema e deseja voltar ao convívio da sociedade precisa de apoio para a reintegração.
Silenciosamente a Cooperativa de Trabalho Autônomo em Serviços Gerais (Coopserge) vem ajudando estas pessoas há 16 anos e no anonimato, já tendo apoiado mais de 40 ex-detentos. Atualmente a Coopserge têm 1.746 mulheres e 954 homens associados. A falta de apoio oficial é o empecilho para atender a um número maior de pessoas.
Conforme revelou o ex-Diretor executivo da Coopserge, José Roberto de Araújo, a decisão de contratar ex-detentos foi uma forma de apoiar e incentivar, fazendo a sua parte em um trabalho que deveria ser de toda a sociedade, mas na maioria das vezes fica só na teoria enquanto a cooperativa faz na prática. “Nós acreditamos nessas pessoas, e oferecemos a oportunidade para a mudança real na vida”, revelou.
José Roberto ex-diretor da Cooperge /Foto: Assessoria
José Roberto afirmou que os ex-detentos são indicados pelos próprios sócios, pais, família e amigos e que hoje tem exemplos de profissionais fantásticos, excelentes. “O fato de apoiá-los e recepciona-los na sociedade revelou o potencial presente neles e hoje estão entre os melhores profissionais”, destacou.
Para José Roberto ao ver uma pessoa que errou e deseja mudar se tiver oportunidade, a cooperativa entra em ação para resgatar a família e a auto estima, onde a pessoa tem prazer em ser vista como um cidadão de bem. “Eles ficam felizes em trabalhar e ao ver que a cooperativa os apoia de coração aberto. O resultado é positivo, pois a cooperativa não quer e nunca quis nada em troca”, salientou.
Um dos fatores que dificultam a ressocialização é o medo de uma recaída além do estigma. Mas José Roberto afirma nunca ter tido problemas, mas percebeu uma certa demora para eles se sentirem aceitos novamente na sociedade. “A própria sociedade os repudia, pois ao vê-los com uma tornozeleira eletrônica já olham com discriminação. Mas com o tempo ocorre a reintegração e aceitação. Por isso todos precisamos mudar conceitos e abrir o coração para podermos trazer estas pessoas de volta a vida harmônica”.
José Roberto revelou que mesmo com as dificuldades de adaptação e os preconceitos, os ex-detentos vão se tornando excelentes profissionais, pois aprenderam com seus erros e usam isso como motivação. “São pessoas dedicadas, compromissadas e a Coopserge tem muito prazer em dizer que os tem como sócios”.
A decisão de contratar ex-detentos foi coletiva, da diretoria da cooperativa, revela José Roberto. “Cooperativa deve ser uma entidade de portas abertas, sem preconceito, onde todos devem ter oportunidade. Essas pessoas merecem uma segunda chance. Se praticou algum delito e pagou, então é vida que segue. Nada é mais significativo a um homem que o trabalho. Assim a cooperativa confia que estas pessoas realmente irão mudar de vida com o trabalho. Temos dezenas de exemplos neste sentido, apesar de enfrentarem dificuldades causadas pelos próprios órgãos públicos”, comentou.
Atuando sem uma estrutura especializada, apenas com amor e boa vontade, a Coopserge se ressente da falta de apoio oficial. “Tem órgãos que deveriam ser os primeiros a acolher mostram preconceito ao ver funcionários monitorados com tornozeleira”, destacou.
José Roberto disse ter ouvido falar de um programa da Vara das Execuções Penais, mas não tem maiores informações neste sentido. Ele revelou que a falta de apoio oficial é um fato, pois até onde sabe não há um projeto especifico de incentivo, tanto para cooperativa como para outras empresas estarem integrando essas.
O ex-dirigente cooperativo disse que a maior parte das pessoas não quer resolver o problema, mas sim encarcerar alguém e esconder, mas isso não resolve, pois é dando oportunidade que se reintegra. “Muitos dos casos é apenas falta de oportunidade, amor, carinho, reconhecimento, mas somente os querem como mão de obra barata. Mas na cooperativa são pessoas, seres humanos. E desta forma a sociedade precisa enxerga-los”, salientou.
“Os colegas de trabalho são os que dão mais forças, apoio, pois não existe preconceito, os cooperados têm para com eles a frase ‘quem nunca errou que atire a primeira pedra’. Já basta termos de viver em uma sociedade hostil, onde cumpre sua pena se depara com a falta de oportunidade e o preconceito”, finalizou.
