O segredo da Islândia para fazer com que seus jovens deixassem de beber e fumar

Por BBC 15/02/2017 Ă s 11:29
O segredo da Islândia para fazer com que seus jovens deixassem de beber e fumar

Jovens da Islândia em uma partida de futebol. Foto: El Comercio

Na Islândia, não é moda entre adolescentes consumir bebidas alcóolicas. E encontrar um jovem que fume tabaco ou maconha é até difícil.

Os dados sobre o uso de substâncias que causam dependência expõem um cenário em que apenas 5% dos jovens entre 14 e 16 anos dizem ter consumido álcool no mês anterior. Além disso, apenas 3% dizem fumar tabaco diariamente e 7% consumiram maconha ao menos uma vez nos últimos 30 dias.

Enquanto isso, a média europeia é de 47%, 13% e 7%, respectivamente. Na América Latina, 35% dos jovens entre 13 e 15 anos dizem ter consumido álcool no último mês e 17% fumam diariamente, segundo dados da Unicef.

Mas a Islândia nem sempre foi um modelo a se seguir: no final dos anos 90, era um dos países europeus com maior incidência de consumo de álcool e tabaco entre jovens. Como foi possível transformar, em menos de duas décadas, os hábitos de adolescentes no território de pouco mais de 300 mil habitantes?

Pesquisa de comportamento
As razões do êxito islandês estão no programa Youth in Iceland (Juventude na Islândia), iniciado em 1998, cujo pilar está na pesquisa contínua dos hábitos e preocupações dos adolescentes.

“Se vocĂŞ fosse o diretor de uma empresa farmacĂŞutica, vocĂŞ nĂŁo lançaria um novo analgĂ©sico no mercado sem fazer uma pesquisa prĂ©via”, disse Ă  BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, JĂłn SĂ­gfusson, diretor do Centro IslandĂŞs para a Pesquisa e Análise Social, responsável pelo Youth in Iceland.

“É o mesmo com qualquer setor, desde a agricultura Ă  infraestrutura. Por que nĂŁo seria assim quando se trata de jovens?”, pergunta, retoricamente.

“Muitas vezes se atua em função apenas de impressões. E isso Ă© muito perigoso. É preciso ter informações que sejam confiáveis e, a partir disso, podem ser tomadas decisões”, explica SĂ­gfusson.

Ele explica que o programa mapeia, por meio de questionários aplicados a cada dois anos, adolescentes de todas as escolas do país.

Entre outras variáveis, são coletados dados sobre padrões de consumo, características das famílias, evasão escolar e problemas emocionais dos jovens.

Com esses elementos, sĂŁo elaborados informes especĂ­ficos para cada distrito e escola.

“Fazemos a coleta de dados e, dois meses depois, as escolas recebem os resultados novos”, destaca o responsável pelo programa.

Responsabilidade dos adultos
O passo seguinte é analisar esses dados num trabalho conjunto entre escolas, comunidades e municípios, que identificam os principais fatores de risco e proteção contra o consumo de álcool e drogas.

A partir daĂ­, pensa-se em como fortalecer os segundos e enfraquecer os primeiros.

“Nada aconteceu de um dia para o outro. Mas foi possĂ­vel atuar porque os dados nos ensinavam, por exemplo, a grande importância do fator parental”, indica SĂ­gfusson.

“Isso mostrou a necessidade de informar os pais e lhes explicar que eles sĂŁo o principal fator preventivo para seus filhos: passar tempo com eles, apoiá-los, controlá-los, vigiá-los”, explica.

Segundo o diretor do Youth in Iceland, antes de começar o programa, uma das principais medidas preventivas que era ensinar às crianças os efeitos negativos do uso de drogas.

Porém, essa ação sozinha não funcionava. Foi então que o enfoque sofreu uma drástica mudança.

“Os responsáveis nĂŁo sĂŁo as crianças, e sim nĂłs, adultos. Devemos criar um entorno onde eles fiquem bem e tenham a opção de preencher seu tempo com atividades positivas. Isso diminui a probabilidade de eles consumirem substâncias malĂ©ficas”, afirma.

Os estudos mostraram que a maior participação em atividades extracurriculares e o aumento do tempo passado com os pais diminuem o risco de se consumir álcool e outras substâncias.

Por isso, a Islândia aumentou os recursos destinados à oferta de atividades para adolescentes, como esportes, música, teatro e dança.

E desde 2002 foi proibido que, salvo exceções, as crianças menores de 12 anos e adolescentes de 13 a 16 anos andem sozinhos na rua depois das 20h e das 22h, respectivamente.

Projeto internacional
Os resultados obtidos pela Islândia levaram à criação, em 2006, do programa Youth in Europe (Juventude na Europa), cujo objetivo é expandir a metodologia do país nórdico a outras localidades do continente.

Em apenas dez anos, mais de 30 municĂ­pios europeus adotaram o projeto.
“Nunca trabalhamos com paĂ­ses inteiros porque, por um lado, Ă© muito difĂ­cil ter o apoio do governo nacional. E, sobretudo, porque este Ă© um trabalho que deve ser desenvolvido a nĂ­vel local”, afirma SĂ­gfussen, que tambĂ©m dirige o projeto europeu.

Todas as cidades participantes conduzem os mesmos questionários. Assim elas têm uma ideia dos hábitos dos adolescentes e dos fatores de risco e proteção em cada lugar.

“Essa metodologia Ă© participativa, comunitária e se faz de baixo para cima, baseada em evidĂŞncias cientĂ­ficas. É o que nĂłs tentamos imitar do modelo da Islândia”, aponta Patricia Ros, diretora do Serviço de Prevenção de VĂ­cio da
Prefeitura de Terragona, que participa desde 2015 do Youth in Europe.

Foram coletados dados de 2,5 mil jovens de escolas do municĂ­pio espanhol.

“SĂŁo coisas tĂŁo Ăłbvias que todo mundo”, diz Ros. “O esporte, por exemplo. Qualquer criança de 5 anos entende que quem pratica esporte se droga menos. Mas o que nĂŁo entendem Ă© que quando a criança passa para ensino secundário (entre 12 e 16 anos), pelo menos em Terragona, nĂŁo há mais atividades extracurriculares”, afirma.

“EntĂŁo, claro que Ă© o esporte. Mas temos que colocá-lo ao alcance da maioria desses adolescentes que, quando acabam as aulas, nĂŁo tĂŞm muitas alternativas ao Ăłcio”, acrescenta.

Como no caso islandês, as medidas tomadas após a análise dos dados dependerão de cada momento e de cada bairro.

A exemplo do que acontece na cidade espanhola, cada municĂ­pio participante adota a metodologia islandesa para buscar suas prĂłprias respostas.

“Claro que as culturas sĂŁo diferentes. NĂŁo podemos dizer que o que funciona na Islândia vai funcionar em outros lugares”, diz Sigfusson.

“Mas se estivermos num municĂ­pio, digamos, da AmĂ©rica Latina, e trabalharmos com gente de lá que conhece como funciona seu sistema, o primeiro passo seria a realização de uma mapeamento para ver como Ă© a situação. E partir daĂ­, localizarĂ­amos os fatores preventivos para se avançar”, explica.

“Alguns me dizem que Ă© um enfoque quase ingĂŞnuo, porque Ă© muito lĂłgico. Mas Ă© assim mesmo”, conclui.

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