Chega a ser um consenso universal que a adoção é um ato de amor , é por meio desta escolha que muitas famílias realizam o sonho de ter filhos, que por decisão ou mesmo algum problema de saúde não podem vir de forma biológica. A servidora pública Narjara Saab é uma das milhares de mães que viu na adoção a melhor forma de realizar o sonho da maternidade.
A servidora já havia perdido uma filha e sofrido um aborto espontâneo, traumas que ela afirma que foram difíceis de superar e por isso descartou a possibilidade de engravidar novamente, daí então decidiu que adotar seria o melhor caminho. Quando já havia passado por todas as fases ela recebeu a ligação de uma amiga.
Luna e Ravi são o orgulho do papai e da mamãe /Foto: Arquivo pessoal da família
“Ela me procurou relatando que uma moça que trabalhava com ela estava grávida, mas não queria o bebê e lembrou de mim, perguntou se eu queria a criança, na época a moça estava apenas com 2 meses de gestação, fiquei estática. Eu queria, mas naquele momento minha vida estava bem conturbada, eu viajava muito a trabalho, conversei com minha mãe, ela me aconselhou que aquele não era o melhor momento e eu sabia disso também. Entretanto, eu não sei o que me deu, sabendo de tudo isso, peguei o telefone e liguei dizendo que queria sim ficar com o bebê eu sabia que aquilo mudaria completamente minha vida”, declarou Narjara.
Os próximos seis meses foram de expectativa e preparação para a chegada de Luna: “Eu tive medo o tempo inteiro, medo de a mãe desistir, medo de algo dar errado, mas fiz todo o enxoval e me preparei para a chegada dela, quando a mãe biológica começou a sentir as dores me ligou e eu a levei para a maternidade, fiquei ao lado dela o tempo inteiro, fui a acompanhante dela, brinco que primeiro fui o pai para depois ser a mãe”.
A chegada da Luna
Quando Luna nasceu, Narjara estava ao lado e diz que a emoção de pegá-la no colo foi indescritível, mas ainda na maternidade teve medo de a mãe biológica desistir de entregar a filha para a adoção. “Na maternidade ela teve que amamentar a Luna, e ela chorou, naquele momento eu disse que se ela quisesse levar a filha para casa ela poderia e eu daria todo o enxoval que havia comprado e lhe daria assistência, já que ela não tinha condições de criar”.
Foi quando a mãe biológica disse algo que emocionou muito Narjara: “Desde que eu engravidei eu senti que essa criança era sua e não minha, eu quero que você fique com ela, pois sei que vai cuidar bem dela’. Ela só me pediu que eu nunca deixasse a Luna ter raiva ou mágoa dela, que eu explicasse porque ela havia feito aquilo. Foi naquele momento que eu tive certeza que eu seria a mãe dela”, conta.
Depois da alta, após o nascimento, a bebê foi levada para casa por Narjara. Hoje, aos três anos de idade, Luna sabe sua história e já teve encontros com a mãe biológica “Ela já encontrou com a mãe biológica, mas sem a referência de que ela era a mãe, preferimos não dizer que era ela para não confundir pois ela é muito pequena, mas eu as deixei à vontade para conversarem sozinhas , eu nunca escondi dela a sua história, ela sabe desde sempre como se tornou minha filha”, diz.
Luna esperou ansiosamente a chegada de Ravi /Foto: JoãoPereiraFotografia
O segundo filho
Além de ser mãe de Luna, há menos de um mês Narjara teve outro filho, fruto de sua gestção, o pequeno Ravi. E é com estas duas experiências que a mãe garante que o amor é o mesmo: “A emoção que eu tive ao pegar o Ravi no colo foi a mesma que tive com a Luna, eu sempre achei que fosse mesmo um amor igual, mas hoje eu posso falar com toda certeza que não há diferença de amor entre estas duas formas de se tornar mãe, a gravidez biológica e a adoção”, afirmou.
Processo de adoção
Quando a criança tinha três dias de vida, a servidora foi ao juizado para entrar com o processo de adoção, mas foi aí que um banho de água fria foi jogado, lá ela descobriu que, mesmo estando no cadastro de adoção, Luna teria que ir para adoção de outra pessoa por não ser a próxima da fila.
“Quando ela nasceu eu decidi não registrá-la no meu nome, mas sim fazer pelos meios legais. Foi uma semana difícil, chorei todos os dias, passei uma semana indo à Defensoria Pública para tentar resolver, até que um dia a mãe biológica interviu e pediu que ela ficasse comigo, pois ela já tinha cinco filhos e não tinha condições de cuidar de mais uma,depois contou toda sua história de vida, que é muito sofrida, e conseguiu sensibilizar o defensor público e assim conseguimos resolver a situação e a guarda dela veio para mim”, conta.
Entre os dois, o amor é a melhor linguagem /Foto: Arquivo pessoal da família
Preconceitos
Quando se fala em adoção encontramos ainda muita resistência e principalmente dúvidas sobre o assunto, essa curiosidade muitas vezes leva a indelicadezas, como perguntas indiscretas e indevidas que, mesmo sem querer, podem magoar os pais e a própria criança.
“Adoção é apenas mais uma forma de um filho chegar até você. Eu queria que as pessoas tirassem esses estigmas de filho do coração. As pessoas fazem sempre uma comparação entre filho adotivo e biológico, mas se você entrar em uma família onde existem os dois, você vai ver que isso não existe para a gente. Eu não tenho uma filha adotiva e um filho biológico, eu tenho dois filhos e ponto. Ninguém diz que tem três filhos biológicos, por exemplo, então porque eu teria que dizer que tenho dois filhos, um biológico e outro adotivo? Não tem necessidade, querendo ou não, esta é uma forma de preconceito que está enraizado na sociedade”, lamenta Narjara.
Como Adotar
No Brasil existe o Cadastro Nacional de Adoção (CNA), uma ferramenta criada para auxiliar os juízes das Varas da Infância e da Juventude na condução dos procedimentos de adoção. Lançado em 2008, o CNA tem por objetivo agilizar os processos de adoção por meio do mapeamento de informações unificadas. O cadastro possibilita ainda a implantação de políticas públicas na área.
O pretendente a adoção deve primeiro habilitar-se na Vara da Infância e da Juventude de sua Comarca ou, inexistindo nela Vara especializada, na Vara competente para o processo de adoção. Após o trâmite do processo e prolatada a sentença de habilitação, o próprio juiz que habilitou o pretendente realizará o seu cadastro no sistema. Assim, todos os juízes competentes para a adoção terão acesso às informações deste cadastro, bem como de todos os demais cadastros de pretendentes habilitados no país e de todas as crianças aptas a serem adotadas.
Para mais informações, basta acessa o site do CNA.
Em 2016 foram adotadas 1.226 crianças e adolescentes em todo o país por meio do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), coordenado pela Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Os Estados com maior número de adoções foram Paraná, São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Minas Gerais. De acordo com o CNA, há 7.158 crianças aptas à adoção e 38 mil interessadas em adotar.
