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Do seringal aos palcos: a força da mulher, mãe e artista Sandra Buh

Por NANY DAMASCENO, DA CONTILNET

Sandra Buh é atriz, cantora, figurinista, quadrilheira junina, professora, esposa, mãe e dona de casa. Tantos adjetivos assim transformam a mulher forte que é uma das principais referências do teatro acreano

Buh conta que teve sorte. Nasceu e se criou no Seringal Sacada da Samaúma, em Brasileia, e foi lá que ainda muito pequena teve seu primeiro contato com a arte: “Sempre falo da minha sorte de ter nascido em um meio onde as pessoas não eram artistas no sentido profissional, mas viviam a arte. Meus pais se reuniam aos fins de semana para fazer farinha, e ao fim do dia as pessoas se reuniam no quintal, pois não tinham como voltar para suas casas, e ali ficavam aquelas rodas no quintal, cantando musicas e contando histórias, este foi meu primeiro envolvimento com a arte”.

Profissionalmente a carreira teve início em 1988, quando tinha apenas 18 anos: “No Ensino Médio eu fazia peças para ganhar dinheiro com os colegas, isso para poder custear as festas de dia dos professores etc., até que em março de 88 um professor escreveu um texto e me chamou para fazer. Eu nunca tinha tido contato com a casa de espetáculo e na época chamaram Ivan de Castela e Antônio de Alcântara para nos ajudar, e eu fui. Foi a primeira vez que entrei em um teatro para me apresentar, foi no Cine Teatro Recreio e a partir daí eu me envolvi completamente e comecei á me apresentar nos teatros”.

Desafios

Hoje com 46 anos, Buh se descreve uma mulher realizada, nos quase 30 anos de profissão como atriz diz que já fez muito do que gostaria de ter feito. Casada com o artista plástico Darci Seles, mãe de dois filhos e com tantos trabalhos, conciliar a vida profissional com a vida pessoal pode ser uma tarefa difícil, mas para a atriz é algo prazeroso. Ela explica que seu envolvimento com a arte reflete em todas as áreas da sua vida de forma positiva.

“Eu não tenho dúvidas que a arte me ajudou na criação dos meus filhos, pois ela tem esse poder de nos fazer enxergar a vida com outro olhar de uma maneira que outras pessoas não veem. Lá em casa é uma casa de artistas, o Darci é artista plástico, já fez cinema, faz cenário, não é fácil conciliar a vida, pois às vezes sobra pouco tempo pra mim, é uma batalha, mas a gente consegue, emenda horário aqui e acolá e no fim da certo. A arte é tudo, ela amplia nossa visão e ela me ajudou muito na forma como conduzo as coisas aqui em casa”.

Sandra Buh é atriz, cantora, instrumentista e muito mais /Foto: Reprodução

Preconceito

Nem tudo são flores. Nem mesmo no mundo das artes. Sandra conta que se tem uma visão de que este meio é livre de preconceitos, mas já passou por situações que exigiram bastante jogo de cintura: “Por ser mulher, para conquistar espaço, mesmo na área da arte é uma luta diária, no Acre isso é menor do que em grandes centros, mas acaba que temos mais facilidades. Eu sempre fui gordinha, esse é meu estereótipo desde que me entendo por gente e isso nunca foi problema para mim, mas certa vez um produtor me olhou e disse que se eu fosse mais magrinha e mais sensual eu poderia fazer determinado papel em uma peça. Depois de um tempo eu encontrei o produtor e ele veio me parabenizar pela grande atriz que me tornei e eu só lembrando daquele dia que ele não me deu aquela personagem porque eu não atendia ao padrão que a mídia estabelece, para conseguir espaço tem que ser na luta, não importa se somos estudiosas, profissionais, tem que batalhar muito para conseguir os mesmos espaços que os homens conseguem facilmente”.

Além dos preconceitos de gênero enfrentados no teatro, coisa que a atriz considera “galho fraco”, Buh conta que o maior desafio que teve que enfrentar para mostrar sua capacidade foi na música. Quando resolveu que iria tocar Samba, fez aula para isso, como para tudo que se propõe á fazer, teve que enfrentar piadinhas e olhares atravessados : “O Samba é um ambiente genuinamente masculino aqui no Acre, não temos muitas mulheres no samba e há certa rejeição dos homens, pois para eles as mulheres servem para quê? Para limpar mesa, rebolar, vender ingresso, quando quisemos aprender a tocar instrumentos foi quando percebemos o preconceito mesmo, a exigência conosco era visivelmente muito maior do que com os homens que também estavam começando”.

Além de tudo, Buh é mãe, e das boas /Foto: Reprodução

Quando decidiu montar o grupo “Moças do Samba” o preconceito velado ficou exposto: “Nós não tivemos muito crédito, enquanto tentávamos nos firmar, eles nos tratavam como aventureiras e deixavam claro que ali não era nosso lugar, às vezes íamos ensaiar e tínhamos que ouvir piadinhas como ‘porque essas mulheres querem tocar tantã, se mulher já é tantã’” nos chamando de louca, perguntavam quem ia fazer o almoço, pois se estavam ensaiando com um monte de mulher era nossa obrigação servir-lhes. Nós tivemos alguns amigos que nos apoiaram, mas a maioria foi contra, quando chegávamos para tocar, muitos viravam a cara, mas conseguimos conquistar nosso espaço, pequeno, mas conseguimos, e eles tiveram que nos engolir”.

Bem humorada, dona de um riso sincero e gargalhada inconfundível, Sandra Buh não tem muitas ambições, vive cada dia como pode e da melhor maneira que lhe é permitido. Mãe orgulhosa, esposa dedicada, é artista para ninguém botar defeito, uma alma infantil acompanhada da maturidade de quem sofreu, mas viu na arte a saída para uma vida mais feliz.

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