Um levantamento do Instituto Beleza Natural, especializado em cabelos ondulados e crespos, realizado em parceria com pesquisadores da Universidade Nacional de Brasília (UnB), revelou que 70% das brasileiras têm cabelos cacheados.
para quem decide assumir os fios naturais é necessário enfrentar o período de transição capilar/Arte:ContilNet
No fim da década de 90 as químicas para alisamento, como as escovas progressivas, definitivas e outros tratamentos alisantes surgiram como um ‘boom’ no meio da moda, mas nos dias atuais parece estar perdendo espaços.
Muitas vezes, o processo de alisamento, seja ele chapinha, relaxamento, progressiva, definitiva ou outras técnicas desenvolvidas para alteração dos fios, está associado a casos de racismo. Atualmente muitas mulheres estão reassumindo o cabelo natural, como a estudante Ana Luiza Lima, que começou a alisar os cabelos quando tinha 12 anos de idade: “Por volta de seis anos alisando os cabelos, comecei aos 12 com a intenção de apenas soltar meus cachos, mas a cada processo ele alisava mais e mais, então aos 18 anos eu decidi que iria voltar ao meu cabelo natural”.
Ana Luiza Lima em 2012 com cabelos alisados e atualmente depois de assumir os cachos/Foto:ArquivoPessoal
Transição Capilar
Nesse sentido, para quem decide assumir os fios naturais é necessário enfrentar o período de transição capilar, um processo difícil, que significa interromper o uso de químicas no cabelo e muita paciência para não desistir e não perder a autoestima: “Eu já estava afim de parar o alisamento, mas não sabia muito bem como cuidar do meu cabelo, nesse processo de transição. Então na última vez que alisei e a química não pegou muito bem, foi ai que eu aproveitei para parar de vez, mas é um processo difícil, afinal temos que lidar com um cabelo que tem duas texturas diferentes”, conta Ana Luiza.
Big Chop: o Grande corte
Após o processo de transição, a maioria das meninas realizam Big chop, uma expressão que significa “grande corte” em inglês e tem esse nome porque, ao fazê-lo, retira-se toda a parte com química do cabelo. Ele é necessário, tendo em vista que depois de anos utilizando química no cabelo ele não volta a enrolar. De acordo com especialistas o cabelo cresce aproximadamente 1,25 centímetros por mês, o que resulta em 15 centímetros por ano e, quanto mais velho, mais lento fica o ritmo deste crescimento, por isso o momento certo de fazer o big chop pode variar de acordo com a vontade e desprendimento da pessoa.
“Eu tinha medo de cortar, pois eu achava que meu cabelo não ia ficar legal curtinho, acredito que isso é o mais complicado, achamos que nos outros fica legal, mas na gente não, então criei coragem e fui fazer o corte. Contudo, no meu foi preciso fazer em duas vezes, cortei e ele ficou muito curto, mas ainda com vestígios de alisamento nas pontinhas, por isso quando cresceu mais um pouco voltei a cortar”, afirma Ana.
Cuidados Profissionais
Cuidados profissionais na hora de cortar o cabelo é fundamental, afinal, após tanto tempo em transição não seria nada interessante estragar o cabelo que demorou tanto para chegar àquele tamanho (provavelmente ainda tão pequeno). Em Rio Branco, a cabelereira Jennyfer Rodrigues inaugurou o Studio de beleza “Sendo Diva”, um lugar especializado em cuidados de cabelos cacheados e crespos. Há quase dois anos atuando na área a profissional, ela explica que a especialização nestes tipos de fios surgiu após a própria transição capilar.
“Eu passei pela transição capilar e durante o processo eu senti muita dificuldade em encontrar salões que soubessem cuidar da forma ideal de cabelos cacheados aqui em Rio Branco, pois este tipo de fio necessita de corte específico. Nesta época eu já trabalhava na área de beleza, mas não era cabelereira, então fiz um curso e me especializei”, explica Jennyfer.
A dificuldade nos cuidados é natural no processo e, segundo Jennyfer, com muita paciência e cuidados é possível conseguir os cachos de volta: “Fiz cursos e me especializei nos cuidados dos cabelos cacheados para poder ajudar quem está no processo de transição, que não é fácil, eu sei, já passei por ele e se não houver o devido cuidado as pessoas chegam até a desistir e voltam a alisar. Pode parecer difícil, mas não é um bicho de sete cabeças ter os cachos divos”.
Dificuldades
Engana-se quem pensa que ao cortar o cabelo os problemas acabaram, neste momento a boa parte das meninas encontra outra dificuldade: como cuidar do cabelo agora? A maioria que decide voltar aos cachos após anos de alisamento e os cuidados para cabelos lisos e com químicas são diferentes dos cuidados com um cabelo cacheado ou crespo. “O mais complicado da transição para mim é reaprender a cuidar do cabelo, temos que esquecer tudo que sabíamos, é como começar do zero, afinal, é outro cabelo com textura diferente que exigem produtos diferentes”, afirma Ana Luiza.
Para Ana Luiza, é importante lembrar que nenhuma mulher é obrigada á passar pela transição e deixar o cabelo natural, é uma decisão que cabe á cada uma da forma que se sente bem: “O importante deste momento em que tantas mulheres resolveram se autoaceitar é que criou-se uma realidade na qual é possível decidir sentir-se bem com o cabelo liso ou também com ele cacheado. Diferente de décadas atrás, quando a ditadura da beleza imposta não abria espaço para 70% das brasileiras sentirem-se bem com o cabelo que têm. Independente da decisão que tomar, a mulher não estará sozinha, já que hoje tem muitas maneiras de encontrar apoio nesse processo de aceitação e auto conhecimento”, finalizou a estudante.

