Cleber Barros: uma história de amor com o Teatro acreano

Criado na década de 70 pelo teatrólogo brasileiro Augusto Boal, o “teatro do oprimido” é um método que reúne exercícios, jogos e técnicas. Essa manifestação teatral também propõe a democratização da produção, a criação coletiva, o acesso aos teatros pelas classes de baixa renda e a transformação da realidade através do diálogo são as suas principais características.

Teatrólogo Cleber Barros durante uma apresentação/Fotos cedidas pelo Sesc/Acre

Além da arte cênica propriamente dita, também existe a finalidade política da conscientização, na qual o teatro se torna o veículo para a organização, debatendo os problemas. Proporciona também, com suas técnicas, a formação de sujeitos sociais para que possam ser multiplicadores na defesa por direitos e cidadania para a comunidade onde o teatro estiver inserido.

Um dos principais expoentes dessa concepção de arte no Acre é Cleber Barros. “Quase todos os meus trabalhos têm um pouco dessa influência”, comenta o artista, que já correu o mundo e alcançou sucesso internacional como ator e diretor.

Sétimo filho de uma família de seringalistas, o artista nasceu no Seringal Campinas [hoje vila pertencente ao município de Plácido de Castro] há quase 70 anos. Cleber passou muitas dificuldades na infância, enfrentando tragédias pessoais, como se a sua vida fosse um teatro. São muitas histórias – umas até meio macabras.

Dotado de um vozeirão e verve poética, o artista conversou com a reportagem da ContilNet e contou um pouco da sua trajetória, que está sempre em mutação. Atualmente, por exemplo, está escrevendo três peças que deverão estrear nos próximos meses, ao mesmo tempo em que ministra cursos de encenação e cenografia na Usina de Artes.

Encontramo-nos em uma segunda-feira, que é apenas mais um dia para ele fazer o que sempre faz: refletir sobre o potencial das artes cênicas. São 55 anos de dedicação aos palcos de quem nunca se contentou em apenas realizar espetáculos. Para ele, teatro é para ser discutido, experimentado e redescoberto diariamente. Pensem em uma história de amor! Vejam os principais trechos desta lúdica entrevista:

ContilNet – Qual foi o primeiro espetáculo que o você estreou no Acre?

Cleber Barros – Foi em 1974, na Praça dos Tocos, que fica entre a Catedral e o Fórum Barão de Rio Branco. Era a peça “Agonia de Um Sonho”, que contava um pouco da vida e a prisão dos inconfidentes. Todos os que participavam do espetáculo colaboravam numa espécie de criação coletiva.

Era dirigido pela Márcia Cabral, que foi trazida Rio de Janeiro pelo Sesc. Eu era o Tiradentes, mas tinha o Maués Melo, que fazia o papel de um frei. O Naylor George era o carrasco que me açoitava, enforcava e degolava. Tinha ainda o Mário Sérgio Rodrigues, o Afonso e o César, que mora em Belém e era o nosso músico.

Ensaiávamos ali mesmo no Teatro de Arena do Sesc. Em uma parte do espetáculo, eu gritava apontando para o Palácio Rio Branco, numa analogia ao governante de Barbacena (MG), onde aconteceu verdadeiramente a Inconfidência. A ditadura militar estava no seu apogeu e éramos, digamos assim, vigiados.

Também nos apresentamos no Ginásio Coberto, que tinha uma acústica muito ruim e tínhamos que gritar. Era muito difícil fazer teatro naqueles tempos. Depois nos apresentamos em escolas, onde conhecemos o Danilo de S’acre (artista plástico), que assistiu o nosso espetáculo ainda aluno.

ContilNet – E em seguida, você fez o quê?

Cleber Barros – Eu escrevi uma peça intitulada “Ventos do Povo”, que era a história de um músico que teve os dedos decepados pela ditadura chilena. Era eu, o Maués, o Arlindo Meireles e a Silene Farias em cena.

Haviam editado o AI-5 e a Polícia Federal monitorava o espetáculo. Eu olhava para o agente e dizia: Açai cinco [risos]. Depois, um agente namorou uma prima minha e disse pra ela que eu era comunista declarado em praça pública. As nossas apresentações eram no Auditório da Ufac Centro. A peça ficou em cartaz por pouco tempo, mas foi muito prestigiada.

Em 1980, fizemos a “Grilagem do Cabeça”. A Vera Fross, você já ouviu falar? Ela veio do Rio de Janeiro pra ficar no meu lugar. Existia um grileiro da cabeça branca na estrada de Boca do Acre. Ele queria acabar com os índios e seringueiros para dizer que a terra era dele. A peça foi tão importante e um trabalho tão bom que tinha 23 atores em cena. Aí o Sesc de Manaus convidou a gente e fomos de ônibus até lá.

E como a gente montava o espetáculo? Com doações e éramos os figurinistas, cenógrafos, iluminadores, etc. Na volta, apresentamo-nos no Sesc de Porto Velho e continuamos em cartaz aqui em Rio Branco, principalmente nas escolas.

ContilNet – Depois disso, veio aquele que seria o espetáculo mais expressivo, que foi “Toda Noite Tem Pichação”?

Cleber Barros – Sim, sem dúvidas. Era o final da ditadura, existia um grupo de pichadores na cidade e um agente da Polícia Federal disse: essa vai ser a última noite de pichação, porque, a partir amanhã, quem fizer isso será preso. Passamos cinco ou seis meses ensaiando. Era muito difícil porque todo mundo trabalhava e era difícil encaixar os horários de cada um. Começamos em 1983 e estreamos no ano seguinte.

Mais uma vez o texto foi uma criação coletiva, que envolvia muita gente, inclusive o Altino Machado, o Toinho Alves e o Jorge de Nazaré [falecido]. A direção era do Marcos Antônio. As apresentações eram também nos bares, notadamente no Girau, que era um local muito prestigiado.

O sucesso foi tamanho que fomos convidados para nos apresentar num festival nacional, em Campina Grande (PB). Depois, como eu era da Fundação Cultural, trouxemos o Telmo Correia, de Manaus, para dar um curso de maquiagem. A oficina foi muito prestigiada, não apenas pela classe artística, mas pelo público em geral, pois era uma grande novidade. Eu era homossexual na peça e continuo até hoje [risos].

Tinha uma pessoa que era muito importante pra nós, que era o Lhé [Abrahim Farat]. Dos almoços a jantares, passando pelo transporte até o patrocínio era tudo com ele.

ContilNet – Mas o seu primeiro trabalho foi aos 13 anos, no Rio de Janeiro, não é isso?

Cleber Barros – Sim, aos 13 anos eu fiz o personagem do marinheiro perna-de-pau, da peça da Ana Clara Machado, Pluft, O Fantasminha, quando morava no Rio de Janeiro. Eu fui selecionado por uma professora porque era danado e vivia recitando poesias. Mas eu já fazia isso aqui em Rio Branco. Depois, fiz apresentações em São Paulo e todo o Nordeste como ator profissional.

ContilNet – Você entrou para o seminário para ser padre?

Cleber Barros – Eu terminei o Segundo Grau, fui morar em São Paulo e entrei no seminário pela ordem Servos de Maria. Fiz teatro na igreja e depois fui morar na Itália, onde também fiz teatro. Dom Moacyr me mandou pra lá. Eu morava num convento medieval. Depois de um ano, voltei para São Paulo como membro dos Servos de Maria. Fiz teatro na igreja Nossa Senhora das Dores, no Ipiranga. Dava catecismo para crianças e operários, bem como orientava casais. Estudei Filosofia Pura e me formei na FAI (Faculdades Associadas do Ipiranga).

ContilNet – Foi nessa época que acabou o conflito e você foi fazer exclusivamente teatro?

Cleber Barros – Sim. Eu saí da ordem e vim para o Acre em 1974. O Clodovis Boff era meu mentor intelectual. Fiz alguns trabalhos por aqui, mas voltei para a Itália e fiz sucesso como mímico, além de muitas peças como “Soca a Paçoca no Pilão”, o “Cangaceiro”, “Sonho”, entre outras. Depois voltei para o Acre e me tornei funcionário efetivo da Fundação dos Recursos Humanos da Cultura e do Desporto, que ficou conhecida como Fundação Cultural.

ContillNet – Tem a história de uma cobra grande de pano, confeccionada por você, que fez muito sucesso em Rio Branco e no interior. Conte essa história.

Cleber Barros – Eu conheci um cara, no seminário sobre Artes Cênicas, no Rio de Janeiro, que era de Pernambuco, mas tinha vivido em Belém. Ele tinha feito uma cobra, um boneco gigante de pano que cabia 12 pessoas no seu interior. Eu criei semelhante aqui.

Fui dar cursos pelos municípios, cheguei a Brasileia e depois Cobija, na Bolívia. O governador do Pando me hospedou e deu a alimentação. Passei três meses lá. E confeccionei uma cobra, que era política [risos]. A Bolívia sempre teve regimes autoritários. O governador do Pando era um coronel. Rapaz eu fiz tanta confusão que foi preciso sair rapidinho de lá.

ContillNet – No que a prática teatral pode ajudar o cotidiano das pessoas?

Cleber Barros – A pessoa que faz teatro deixar de ser tímido. Aprende a ser posicionar, a ter postura, respiração, pontualidade, criatividade. Todo mundo precisa fazer teatro. Pra mim, teatro é vida. Eu respiro teatro, bebo, sonho e transo teatro.

ContilNet – O que é ser feliz?

Cleber Barros – Eu sempre acredito que existem saídas para esse mundo. Sem a cultura não somos nada. Ela é mãe de todas as ciências. Precisamos nos amar e sermos amados. Eu acredito em Deus e me sinto amado por ele. Então sou feliz.

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