Revolução Acreana completa 115 anos, saiba mais sobre essa história


Breves considerações a respeito da Guerra do Acre e de sobre “fazer História”

RICARDO BISPO, DA CONTILNET

Em 6 de agosto de 2017 foi comemorado o aniversário de 115 anos da Revolução Acreana, evento histórico regional que marca a luta armada para que este território hoje pertença ao Brasil. Em 1902 o grupo de homens chefiados por Plácido de Castro tomaram de assalto a cidade de Xapuri, ou Mariscal Sucre, como denominavam os bolivianos.

Assim como é o nosso 7 de setembro no Brasil, o 6 de agosto para a Bolívia representa o Dia da Independência, quando deixaram de ser uma colônia da Espanha. Por ser feriado nacional e os vizinhos terem suspostamente bebido muito na noite anterior, essa teria sido a data ideal para começar um ataque, é desta situação que surgiu a famosa frase atribuída a Plácido de Castro: “Não é festa, é Revolução!”

Mas quem foi Plácido de Castro e o que ele representa para essa história? De acordo com livro “Acre: Uma História em Construção”, do saudoso professor Josué Fernandes e das “lendas vivas” do Curso de História na Universidade Federal do Acre (Ufac), Valdir Calixto e José Dourado: o gaúcho José Plácido de Castro (1873-1908) era natural do município de São Gabriel, membro de uma família de militares, que ingressou no colégio militar de Porto Alegre com intenção de fazer carreira.

Estátua de Plácido de Castro na Praça da Revolução, em Rio Branco/Foto: reprodução

No entanto, com a Proclamação de República em 1889, o jovem militar se negou a combater revoltosos insurgidos contra o governo de Marechal Floriano Peixoto, primeiro vice-presidente do Brasil durante o governo de Marechal Deodoro que depois da renúncia deste assumiu a presidência. Não só negou defender, mas, ao evadir-se, colocou-se ao lado dos que combatiam Floriano, em um episódio que ficou conhecido como Revolução Federalista. Por conta disso ele foi expulso do Exército.

Do Rio Grande do Sul foi para os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, onde trabalhou e estudou por um tempo. De lá veio para o Amazonas no início do século, possivelmente contratado por seringalistas para fazer medição de seringais ou, quem sabe, servir como líder militar de exércitos insurgentes. Pois bem, a historiografia diverge sobre a imagem de Plácido de Castro, se ele foi herói, mercenário ou aventureiro, mas uma coisa é certa: ele foi fundamental na Revolução Acreana.

Depois do acontecimento em Xapuri, os ânimos se acirraram ainda mais nesta região. Os bolivianos reagiram e, ajudados pela classe empresarial, cuidaram de se preparar para a guerra. Do lado de cá, o militar gaúcho contava com apoio irrestrito de seringalistas influentes que colocavam à sua disposição homens, armas, mantimentos, animais e barcos para o transporte.

Ao contrário de outros chefes anteriores, Plácido de Castro centralizou na sua pessoa todos os poderes, não admitindo nenhuma outra autoridade paralela à sua. Com esses poderes, o gaúcho se tornou comandante supremo do movimento, com patente de coronel. Isso o fez manter uma posição bastante favorável e temida, inclusive pelos seringalistas.

Durante as batalhas, Plácido de Castro utilizou-se de táticas de guerrilha, atuando em várias localidades e em curto espaço de tempo. Assim, dava fogo no Alto e Baixo Acre, confundindo o Exército boliviano, que desconhecia a topografia da região. Os chefes das forças bolivianas eram familiarizados com o altiplano, por isso suas manobras se davam com dificuldade e devagar.

O conflito durou cinco meses e dezoito dias, findando-se em 24 de janeiro de 1903. Para resolver a questão territorial entre Brasil e Bolívia foi assinado o Tratado de Petrópolis, em 17 de novembro do mesmo ano em que acabou a “Revolução”. No acordo a Bolívia aceitava abrir mão do território do Acre em troca de uma pesada indenização e de uma estrada de ferro que passasse dentro do Brasil para que o país pudesse ter acesso ao oceano Atlântico, a famosa Madeira-Mamoré. Se nós ganhamos a guerra ou não, isso é questionável, principalmente pelos bolivianos.

O outro lado

A historiografia oficial boliviana tem outra versão para a “Guerra do Acre”, forma como é chamada esse evento histórico para eles. Afinal, além de ter que pagar uma indenização pelo território do Acre, o Brasil cedeu terras ao país vizinho, cláusula que nunca tinha aceito em outros tratados na América do Sul. Apesar disso, a Bolívia perdeu quase 80% de sua área original em disputa também com os outros vizinhos Peru e Chile, sendo que só o Brasil teria “tomado” dois Paraguais dos “Patrícios”.

Estátua de Bruno Racua no centro de Cobija/Foto: reprodução

Não é só isso, os bolivianos também têm o seu herói na Guerra do Acre. Segundo as tradições do Departamento de Pando, onde fica a cidade de Cobija, toda essa região era dominada por brasileiros, mas os bravos guerreiros bolivianos resistiram e a ocupação dos acreanos foi consideravelmente reduzida. Não por acaso, a cidade vizinha de Brasileia e Epitaciolândia ostenta em sua praça central uma estátua de Bruno Racua, um soldado indígena que com uma flecha incendiária teria destruído o paiol de armamentos do exército acreano.

Concluindo, não vou me arriscar em dizer quem tem razão, o julgamento seria parcial demais e viciado. Meu objetivo, além de celebrar a data, é dizer que essas e muitas histórias são apenas algumas amostras de como um fato pode ter várias versões e de que, assim como no livro citado no início, a História está sempre em construção.

Representação dos soldados bolivianos derrotando os brasileiros/Foto: reprodução

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