Se o assunto for plano de governo, tanto faz ouvir Marcus Alexandre ou Gladson Cameli


A menos de seis meses das eleições, pré-candidatos passam a impressão de não saber o que farão caso sejam eleitos

Foto capa ARCHIBALDO ANTUNES, DA CONTILNET

Miolo de pote

A andança pelos municípios do interior feita pelos pré-candidatos mais cotados para vencer a disputa ao governo do estado revela algumas singularidades. A mais pungente entre elas, creio, vem ser a vacuidade dos discursos proferidos por ambos.

Relatos de viagem

Começo pelo postulante a sucessor do governador Tião Viana, o ex-prefeito Marcus Alexandre (PT), cujos relatos de viagem, em forma de releases enviados à imprensa, forneceu alguns detalhes de sua passagem pelo Juruá. Li todos eles, por sinal.

Malícias

Uma das coisas que me saltaram aos olhos, nos referidos textos, foi a repetição das menções à hospitalidade do povo da região. Mais do que um reconhecimento à amabilidade que reina por lá, interpretei essa insistência como subliminar referência à aceitação do nome de Marcus Alexandre por parte dos eleitores.

Magnânimo

Não me passou despercebido, ainda, o indisfarçável esforço do petista em propalar sua disposição de ouvir os reclames do povo, em geral mal assistido pelo poder público.

Incógnita

Não obstante tanta retórica descritiva, não deixei de notar a falta de uma única referência, por parte do pré-candidato, sobre o que fazer, uma vez eleito, para resolver os problemas ou, no mínimo, minorar o sofrimento daqueles que ele tanto exaltou após lhes ter dedicado especial atenção.

Ele não sabia de nada

Muito ao contrário, a alegação propalada foi a de que as visitas deram ao petista a oportunidade de conhecer os problemas da população.

Impropriedade  

Ora, que me perdoem os mais pacientes, os tolerantes e aqueles menos casmurros do que eu, mas ouvir de alguém que já exerceu cargo de chefia em órgão da importância do Deracre, e por duas vezes foi eleito para a prefeitura da maior cidade do estado, a afirmação de que até a semana passada ignorava o drama dos moradores do interior soa como uma admissão da própria inépcia.

Sinais trocados

Se a intenção de Marcus Alexandre era se passar por ouvinte atento e humilde, saiba ele, porém, que sua pantomima, na verdade, soou patética. Mas nem tanto, considerando que o petista nasceu pelas bandas de São Paulo, onde o PT sempre foi saco de pancadas dos tucanos.

Fardo

No mais, as caminhadas de Marcus Alexandre serão sempre árduas devido ao fardo que ele é obrigado a carregar nas costas. Impossibilitado de exaltar a famigerada florestania do governo de Jorge Viana, e acuado pelo fracasso do plano de industrialização do atual governo, fica patente o desafio de propor um futuro de prosperidade a partir de um passado de infortúnios.

Impasse

O dilema do pré-candidato petista, portanto, consiste em não desancar a política dos antecessores, como também não se arriscar a exaltá-las, sob o risco de estilhaçar sua votação.

Piegas

Daí, concluo, que os discursos feitos por Marcus Alexandre, e retratados por sua assessoria, tenham se limitado às trivialidades de narrativas que, de tão vagas e banais, acabam por se erigir sobre a pieguice.

Lado de lá

Quanto ao senador Gladson Cameli (Progressistas), principal adversário de Marcus Alexandre, pouco se pode dizer de diferente – com o agravante de que tem dado a impressão de que se move menos que aquele, mas também com o atenuante de não ser herdeiro político do petismo deletério.

Indefinível

Gladson, como Marcos Alexandre, parece não ter claro um plano capaz de reverter as mazelas que se agravaram sob os governos do PT, em especial neste último mandato de Tião Viana.

Não me entendam mal

É claro que, à essa altura, dadas, inclusive, as limitações impostas pela lei eleitoral, não estou a exigir a explanação detalhada de um plano de governo. Não obstante, os problemas mais graves já teriam de ter passado pelo escrutínio dos postulantes, a fim de que pudessem tratar sobre eles com propriedade.

Me antecipo

E aos que haverão de argumentar que a campanha será o período adequado a esse tipo de debate, há de se acrescentar que, em verdade, já estamos muito atrasados quanto à solução de nossos problemas.

Lembrete

Tão importante quanto isso é lembrar que a antecipação minimiza a necessidade dos improvisos, sempre tão pródigos em gerar propostas mirabolantes e quase sempre inexequíveis.

Decepção

Termino a coluna de hoje com uma breve referência ao coronel Ulysses Araújo (PSL), outro pré-candidato ao governo estadual. Nas duas ocasiões em que o ouvi discorrer sobre a segurança pública, tema no qual é especialista, decepcionou-me que tenha recorrido a um discurso de esquerda ao falar sobre a violência. Segundo ele, criminalidade se combate com ‘educação, empregos e políticas sociais’. O deputado Jean Wyllys haveria de saltitar de felicidade se tivesse ouvido as palavras do coronel.

Errata

Após a publicação da coluna, o leitor Maurício Santana fez a pertinente observação de que a lei eleitoral permite, sim, a explanação de planos de governo, ao contrário do que foi sustentado por mim em nota aí acima. De fato, o artigo 36-A da Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) diz ser “permitida a participação de filiados a partidos ou de pré-candidatos em entrevistas, programas, encontros ou debates no rádio, na televisão e na internet, inclusive com a exposição de plataformas e projetos políticos”.  Aos leitores em geral, apresento minhas desculpas pelo erro. Ao Sr. Maurício, o meu agradecimento pela necessária correção.

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