“Memória e cultura precisam se conectar às novas gerações”, diz historiador sobre Revolução Acreana


"A história precisa ser contada da maneira mais efetiva, de maneiras fortes para despertar o interesse dos jovens", disse Marcos Vinícius Neves

ASTORIGE CARNEIRO, DO CONTILNET

A importância dos historiadores é imensurável, pois são eles que absorvem o elemento imaterial do tempo e o alinham, coordenam e transpõem em palavras os fatos e decisões que moldaram (e mudaram) o mundo. São detentores do conhecimento e, portanto, responsáveis pela passagem deste ao longo das próximas gerações.

Pensando nisso, a equipe da ContilNet, em entrevista com o historiador Marcos Vinícius Neves, traz aos leitores do site o processo histórico que resultou na entrada do Acre no território brasileiro, ao mesmo tempo em que reforça, ao explicar a simbologia do dia 6 de agosto, a importância de estimular o interesse dos jovens acreanos sobre suas próprias origens.

Historiador Marcos Vinícius Neves (Foto: Reprodução)

Formado em História há 30 anos, Marcos Vinícius começou a focar suas pesquisas para o Acre e sua origem a partir de 1994. Sobre a Revolução Acreana, que celebra 116 anos em 2018, o historiador afirma que foi um evento muito complexo dentro das Histórias brasileira e acreana.

TRATADO DE AYACUCHO

“Através deste tratado, assinado em 23 de março de 1867, a terra que seria posteriormente o Estado pertencia ao Peru e à Bolívia. Os rios, porém, que dão acesso à Amazônia são difíceis de serem acessados por peruanos e bolivianos. Na contramão, eram facilmente acessados por brasileiros que bastavam embarcar a vapor em Belém ou Manaus. Por conta disso, no Ciclo da Borracha, quando houve uma ‘avalanche humana’ subindo os rios da Amazônia – incluindo Purus e Juruá -, a maioria instalada aqui era de brasileiros. Os bolivianos só conseguiriam seringais nessa região depois de 10, 15 anos. Os peruanos também, com o agravante de que eles viam explorar o caucho (que é uma árvore de grande porte).”

BOLIVIAN SYNDICATE

“Mas a ausência de uma imposição mais forte não demorou muito, pois logo os governos da Bolívia e do Peru reivindicaram o que era deles, já que a renda da borracha acreana, por ser de alta qualidade, gerou uma fortuna. A partir de 1899, chega aqui no Vale do Rio Acre, vindo pelo Purus, uma tropa boliviana comandada por um ministro que inicia a ocupação boliviana do Acre. Esse ministro negocia posteriormente um tratado internacional com capitalistas ingleses e norte-americanos, que seria conhecido como Bolivian Syndicate.”

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PRIMEIRA INSURREIÇÃO ACREANA

“Essa ocupação boliviana gerou grande temor aos brasileiros porque impôs leis ‘estranhas’ e uma língua estrangeira, e ameaçava principalmente a fonte de toda a riqueza: os seringais. Por isso, no início da ocupação boliviana, que começou em 2 de janeiro de 1899, os brasileiros do Acre decidiram expulsar os bolivianos no que foi a primeira insurreição acreana, em 1º de maio de 1899. Mas não bastava expulsar, e com apoio do governo do Amazonas (principal beneficiado pela exploração da borracha), foi decidida a criação do estado independente do Acre, cuja presidência foi ocupada pelo espanhol Luis Gálvez Rodríguez de Arias, jornalista e diplomata que proclamou a República do Acre.”

Luis Gálvez Rodríguez de Arias (Foto: Reprodução)

EXPEDIÇÃO DOS POETAS

“Gálvez organizou o Estado, além de ter várias iniciativas interessantes que incluíram escolas em barcos e regulação de todo o comércio da região. Entretanto, foi deposto pelo governo brasileiro, então, em 15 de março de 1900, Gálvez é deportado para a Bolívia, um absurdo
para a opinião pública brasileira, aumentando o apoio do povo brasileiro à ação dos revolucionários acreanos. No final desse mesmo ano, organizou-se um terceiro movimento armado contra a ocupação boliviana, a Expedição dos Poetas, que foi um fracasso militar.”

“A GUERRA DO ACRE”

“Um ano depois, em 1901, a Bolívia começa efetivamente a administrar as terras acreanas e o conflito aumenta significativamente. Plácido de Castro foi então chamado para um quarto movimento revolucionário. Aquilo que chamamos de ‘Revolução Acreana’ é parte de um longo processo, que podemos chamar conjuntamente de ‘A Guerra do Acre’. Em sua última fase, teve o comando do Coronel Plácido de Castro, que possuía experiência militar. Como as armas não chegaram na primeira data, foi escolhida a segunda data estratégica: 6 de agosto, data da independência da Bolívia. Esse dia é o equivalente ao 7 de setembro para a Bolívia. Em 6 de agosto de 1902, é tomado o poder na superintendência boliviana em Xapuri, expulsando também os bolivianos da região.”

Túmulo de Plácido de Castro, em Porto Alegre (Foto: Reprodução)

CONQUISTA DO ACRE

“A importância do 6 de agosto é marcar uma tomada de posição efetiva, pois começou a luta entre o exército boliviano e o exército de seringueiros e seringalistas (liderado por Plácido de Castro), que em 24 de janeiro de 1903 – após seis meses de luta – conquista a vitória, obrigando, com isso, o governo brasileiro (presidido então por Rodrigues Alves) a negociar a anexação das terras do Acre ao Brasil. Por isso dizemos que o Acre foi conquistado a partir da decisão, da coragem e da determinação de seus moradores, que se autodenominaram como ‘acreanos históricos’: não nasceram no Acre, mas lutaram para que o Estado fosse brasileiro. Com a assinatura do Tratado de Petrópolis, em 17 de novembro de 1903, depois de longas negociações, as terras foram oficialmente anexadas ao território brasileiro. A Bolívia foi indenizada com alguns territórios e foi decidida a construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Os acordos com o Peru foram concluídos em 1909, com o Tratado do Rio de Janeiro.”

CRIAÇÃO DO BAIRRO

“A revolução, podemos dizer, foi um movimento armado que originou o Acre brasileiro, fazendo com que essa área fosse constituída parte do Brasil. O 6 de Agosto é uma data inaugural do quarto movimento, que, a partir da formação do bairro Seis de Agosto, deixou de ser apenas uma data histórica e se tornou uma data comemorada pelos moradores do bairro. É uma data muito bonita e representativa para a sociedade acreana.”

MEMÓRIA E CULTURA

“A história precisa ser contada da maneira mais efetiva, de maneiras fortes para despertar o interesse dos jovens. Para que a História do Acre possa ser melhor compreendida e absorvida pelas novas gerações, ela precisa ser contada em linguagens e formas que atraíam as futuras gerações. Só se aprende realmente quando existe o desejo, a curiosidade. Essa é a missão de nós, historiadores, e de tantos outros profissionais que trabalham diretamente com memória e cultura: traduzir os conteúdos para uma linguagem atual sem perder os significados históricos e sentimentais.”

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