Bolsonaro é comparado a ditador comunista chinês em artigo que não vale o que o gato enterra


Texto subverte a história e desdenha a inteligência do leitor; e o pior é que tem comunicador no Acre a endossar a patuscada

Foto capa ARCHIBALDO ANTUNES, DA CONTILNET

Lados opostos

Ciro Gomes estava certo ao afirmar que a política divide. E não apenas as pessoas, como também costuma pôr em campos opostos o bom senso e a estupidez, a franqueza e a patifaria, o discernimento e a burrice.

Professor Nicolai

A afirmação de Ciro se deu num contexto de alerta à necessidade de reunificação do Brasil, atualmente apartado graças à pregação calhorda dos que chegaram ao poder pregando a desarmonia entre brancos e negros, ricos e pobres, patrões e empregados. Séculos atrás, o autor de O Príncipe ensinava que é preciso dividir para governar.

Juízo

Derrotado nas eleições presidenciais, Ciro Gomes, conhecido por ter pavio curto, deu lição de sensatez: desejou sucesso ao presidente eleito e criticou a disposição do PT em fazer uma oposição cega e inconsequente ao futuro governo.

Videntes

Com a posse de Bolsonaro marcada para o dia 1º de janeiro de 2019, causa espanto a quantidade de ‘análises’ (ou seriam premonições?) que a militância travestida de comunicadores nos brinda com dezenas de milhões de bytes de ‘notícias’ em sites e com toneladas de verborragia nas rádios e TVs.

Arremedo de jornalismo

Grande parte desse material tenta se passar por artigos sérios, com menções a estatísticas, referências históricas e personagens reais. Recém-publicado no site The Intercept Brasil, por exemplo, um deles faz uma esdrúxula comparação entre a Revolução Chinesa, que instituiu o regime comunista naquele país, e o governo por vir de Jair Bolsonaro.

Abismado

É inacreditável o malabarismo da autora para traçar similaridades entre personagens e períodos tão distintos da história. E o resultado não poderia ser outro. Minha dúvida é sobre o que vem a ser mais lastimável: se o engodo do texto escrito para parvos ou a disposição de jornalistas acreanos em percuti-lo nas redes sociais, como se fosse uma tese plausível.

Barrados no baile

No mesmo The Intercept Brasil somos brindados com outro texto especulativo sobre a relação a ser estabelecida entre o presidente eleito e a imprensa. Assinado por Mario Magalhães, o artigo lembra que dias atrás, na primeira entrevista coletiva pós-vitória para o governo federal, representantes do Estadão, Folha de S. Paulo, O Globo, Valor Econômico, rádio CBN e da Empresa Brasil de Comunicação foram barrados no evento.

Dois lados

Discordo da medida, claro. Bem como deploro o papel de alguns veículos de imprensa contra o candidato do PSL no decorrer da campanha eleitoral. Destaco a ‘barrigada’ (termo antigo para o moderno e antipático anglicismo ‘fake news’) da Folha, que inventou uma manifestação em massa contra o presidenciável num aeroporto. Desmentida a patacoada, o vídeo feito por Bolsonaro mostrou os arroubos de uma bêbada solitária, que nem conseguia se manter em pé e era sumariamente ignorada pelos demais passageiros no local.

Só os amestrados

De volta ao escriba do The Intercept Brasil, é preciso lembrar a ele que em 2014 o ex-presidente Lula repetiu um gesto de 2010, quando ainda ocupava o Planalto, ao conceder entrevista a um grupo de blogueiros escolhidos a dedo – todos de esquerda e vários dos quais beneficiários de verbas oriundas da publicidade estatal.

Memoriol

Em abril de 2014, a Gazeta do Povo tratou do assunto, registrando o seguinte: “Enfim, uma trupe responsável por fazer propaganda política travestida de ‘jornalismo’ ou ‘análise da grande imprensa’. Com uma plateia tão simpática, Lula deitou e rolou, sem a menor vergonha de deixar claro qual o seu projeto para o Brasil – e o que disse deveria deixar de cabelos em pé todo brasileiro comprometido com a democracia”.

Profissão de risco

Mas nem tudo são flores – ou engodo nessa seara. O relatório “Ciclo do silêncio: impunidade em homicídios de comunicadores”, recém-lançado pela entidade Artigo 19, elenca 22 jornalistas assassinados no País em decorrência do exercício profissional. Pelo menos é o que o estudo sugere.

Alvo

Os blogueiros formam o maior contingente entre as vítimas. Pelo menos oito deles foram mortos neste ano, a maioria nos estados de Minas Gerais (4), Mato Grosso do Sul e Maranhão (com três homicídios cada um).

Lista completa

Os demais estados são Ceará (2 casos), Piauí (1), Pernambuco (1), Bahia (2), Goiás (2), São Paulo (1) e Rio de Janeiro (2 mortos).

Estamos de fora

O Acre, felizmente, não compõe a relação em que os profissionais de imprensa acabam vítimas de políticos, policiais, agentes públicos e empresários – fora o crime organizado –, que nesses casos retaliaram o trabalho das vítimas lhes tirando as vidas.

Delito comum

Em compensação, o ‘crime’ por aqui é outro – e costuma ter como autores os próprios jornalistas. A maioria incorre no grave delito diário de surrar o idioma sempre que precisa escrever. E é claro que os ‘meliantes’ merecem todo o rigor condenatório dos leitores mais atentos e letrados.

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