Mundo vai enfrentar até seis desastres climáticos simultâneos até 2100


Pesquisa mostra cenários futuros com ondas de calor, incêndios florestais, secas e escassez de água

UOL

O aquecimento global cria riscos tão diversificados para a humanidade, envolvendo tantos tipos de fenômenos, que pela metade deste século certas áreas do planeta poderão estar enfrentando até seis crises relacionadas ao clima ao mesmo tempo, dizem pesquisadores.

Essa perspectiva apavorante foi descrita em um estudo publicado na segunda-feira (19) pela revista Nature Climate Change. O artigo mostra os efeitos da mudança no clima sobre uma ampla gama de problemas, entre os quais ondas de calor, incêndios florestais, alta do nível do mar, inundações, secas e escassez de água potável.

Esses problemas já estão surgindo de forma combinada, disse o principal autor do estudo, Camilo Mora, da Universidade do Havaí em Manoa. Ele apontou que a Flórida recentemente registrou seca extrema, alta recorde de temperatura e incêndios florestais —e também o furacão Michael, uma poderosa tempestade de categoria 4 que varreu a região do Panhandle, naquele estado, em outubro.

A Califórnia, da mesma maneira, está sofrendo os piores incêndios florestais que o estado já viu, bem como uma seca, ondas de calor extremas e uma degradação da qualidade do ar que ameaça a saúde dos residentes.

Casa danificada após passagem do furacão Michael/Foto: Reprodução

As coisas vão piorar, escreveram os autores do estudo, que projeta tendências futuras e aponta que, em 2100, a menos que a humanidade tome medidas vigorosas para conter as emissões de gases causadores do efeito estufa, que são a causa da mudança no clima, algumas áreas tropicais do planeta, como a costa atlântica da América do Sul e da América Central, podem ser atingidas por até seis crises de uma vez.

Essa perspectiva é como “um filme de terror que se torne real”, disse Mora.

Os autores incluem uma lista de ressalvas sobre sua pesquisa. Como ela consiste de uma revisão de outros estudos, refletirá alguns dos possíveis vieses da ciência nas áreas estudadas, o que inclui a possibilidade de que os cientistas se concentrem mais nos efeitos negativos do que nos positivos. Também existe uma margem de incerteza envolvida em distinguir os traços da mudança do clima em meio à variabilidade da natureza.

Em 2100, Nova York pode ser atingida por quatro crises relacionadas ao clima de uma só vez, se as emissões de carbono continuarem no ritmo atual, diz o estudo, mas se as emissões forem reduzidas significativamente, o número de crises seria reduzido a uma. As regiões costeiras tropicais sob ameaça poderiam ver seu número de crises simultâneas reduzido de seis para três.

O estudo explora as maneiras pelas quais a mudança no clima intensifica riscos, e descreve a natureza interconectada das crises desse tipo. As emissões de gases causadores do efeito estufa, ao aquecer a atmosfera, podem agravar as secas em lugares que são normalmente secos, “criando condições para incêndios florestais e ondas de calor”, afirmam os pesquisadores. Em áreas mais úmidas, uma atmosfera mais quente retém mais umidade e reforça as chuvas fortes, enquanto a alta no nível do mar torna mais forte o efeito das tempestades, e as águas oceânicas mais quentes podem contribuir para o grau de destruição causado por tempestades.

Em um mundo científico marcado pela especialização e por pesquisas compartimentadas, esse esforço multidisciplinar envolvendo 23 autores revisou mais de três mil estudos sobre diversos efeitos da mudança no clima. Os autores determinaram 467 maneiras pelas quais as mudanças no clima afetam a saúde física e mental humana, a segurança alimentar, a disponibilidade de água, a infraestrutura e outras facetas da vida na Terra.

O estudo conclui que pesquisas tradicionais sobre um dado elemento da mudança do clima e seus efeitos podem desconsiderar o quadro mais amplo de interrelações e riscos.

A mudança do clima também tem diferentes ramificações para as pessoas ricas e para as pessoas pobres do planeta, constataram os autores. “As maiores perdas de vidas humanas em eventos climáticos extremos ocorreram em países em desenvolvimento, enquanto as nações desenvolvidas usualmente enfrentam um alto peso econômico em termos de danos e necessidades de adaptação.”

As pessoas não estão preparadas, de modo geral, para lidar com problemas como a mudança do clima, disse Mora. “Nós, como seres humanos, não sentimos a dor de pessoas muito distantes de nós, no espaço ou no tempo”, ele disse. “Normalmente nos preocupamos com pessoas próximas de nós ou com coisas que nos afetem, ou que vão acontecer amanhã.”

E assim, ele disse, as pessoas tendem a considerar eventos que terão lugar no futuro distante e dizer a si mesmas que “podemos lidar com essas coisas mais tarde, há problemas mais prementes agora”. Mas, acrescentou o cientista, a pesquisa que ele dirigiu “documentou o quanto as coisas já estão ruins”.

O estudo inclui um mapa interativo de diversos riscos, sob diferentes cenários quanto a emissões para qualquer local do planeta, produzido pela Esri, que desenvolve sistemas de informação geográfica. “Vemos que a mudança do clima está literalmente redesenhando as linhas dos mapas, e revelando as ameaças que o nosso planeta enfrenta em todos os níveis”, disse Dawn Wright, a diretora de ciência da Esri.

Michael Mann, cientista do clima na Universidade Estadual da Pensilvânia, não participou do estudo, e disse que ele sublinha a urgência de ações para combater a mudança no clima, e demonstra que “o custo da inação supera em muito o custo de agir”.

Mann publicou um estudo recentemente no qual aponta que os efeitos da mudança do clima sobre a jet stream estão contribuindo para diversos eventos climáticos extremos nos verões, tais como ondas de calor na América do Norte, Europa e Ásia, incêndios florestais na Califórnia e inundações no Japão. Ele diz que o novo estudo se enquadra bem a essa pesquisa e que ele é “até mesmo conservador demais” —ou seja, pode estar subestimando as ameaças e custos associados à mudança do clima causada pela atividade humana.

Um dos coautores do novo estudo, Kerry Emanuel, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), elogiou essa abordagem interdisciplinar. “Há mais de um tipo de risco, hoje”, ele disse, mas os cientistas tendem a se concentrar em suas áreas de pesquisa. “Nações, sociedades em geral, precisam lidar com múltiplos riscos, e é importante enquadrar o panorama completo.”

Bombeiro puxa mangueira para apagar em fogo na Califórnia/Foto: Reprodução

Como líderes militares que desenvolvem a capacidade de travar guerras em mais de uma frente de batalha, os governos precisam estar preparados para lidar com mais de uma crise climática por vez, disse Emanuel.

Mora disse estar pensando em escrever um livro ou filme para refletir os resultados apavorantes da pesquisa. Seu título provisório, que descreve o quanto a situação da humanidade é grave, é impublicável aqui. A alternativa, diz o cientista seria “Ei, Nós Avisamos”.

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