Opinião: “Médicos: nem mais, nem menos”


A saída dos cubanos reabre as chagas das cidades sem médicos, mas é preciso racionalidade para de fato não desassistir ou maquiar a assistência

POR JOÃO BRAINER

A decisão unilateral de Cuba em encerrar as atividades dos médicos intercambistas não foi surpresa: os anúncios sucessivos do presidente eleito de que demandaria prova de revalidação e pagamento integral e direto aos médicos cubanos não agradou a ilha caribenha. A família Castro findou o programa sem período de transição.

O problema das cidades sem médicos volta à tona. O remédio, porém, deve ser outro. Desde 2014, quando o programa Mais Médicos passou a ter editais coincidentes com o período de formatura de turmas de Medicina, a ocupação das vagas por brasileiros cresce e chega a quase 100% nos últimos editais. A despeito da relação de emprego como “bolsista”, há ao menos garantia de pagamento e bonificação nos programas de residência médica.

Se há tamanha qualidade em medicina alardeada por Cuba, por que não realizar a revalidação?

Por isso, há mais brasileiros inscritos que vagas disponíveis, considerando que apenas a partir de 2016 ocorre a substituição progressiva de cubanos por brasileiros. A estratégia, que atinge a ilha por diminuir o aporte financeiro que recebe todos os meses, deveria ter sido adota desde o início – e as entidades médicas acusam o governo federal na era Dilma de boicotar o acesso de brasileiros ao programa. Gravações e o comportamento de ministros na época advogam nesse favor.

A saída dos cubanos reabre as chagas das cidades sem médicos, e o próximo governo sugere saná-las com carreira de Estado aos moldes do judiciário. No entanto, o método ainda é desconhecido e pode gerar pesado revés nas já apertadas contas públicas. Número suficiente de médicos formados por ano o Brasil tem: graças aos últimos governos, o Brasil carimba o primeiro lugar do mundo em número de escolas médicas. Assim, plano de carreira, mesmo que por tempo limitado, bonificação para a residência médica, programação de formação continuada e bônus aos beneficiários do Prouni ou do Fies entram no rol de remédios para a questão. Além disso, estrutura local e organização da rede podem criar um elo cooperação entre municípios pequenos e médios para superar os desafios.

Não está em questão deixar nenhum brasileiro desassistido; o problema, sim, que foi mal equacionado. Afinal, se há tamanha qualidade em medicina alardeada por Cuba, por que não realizar a revalidação? Se há preocupação com direitos humanos, por que não garantir liberdade e salário integral a esses trabalhadores? É sonoro e justo dizer que não podemos desassistir os brasileiros que mais precisam, mas é preciso racionalidade para de fato não desassistir ou maquiar a assistência. É preciso gerir melhor, investir mais, formar melhor, atrair mais; o que não dá é termos menos saúde em meio a tanta carência.

João Brainer Clares de Andrade é neurologista, doutorando pela Universidade Columbia, EUA.

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