Sim, jabutis sobem em árvores: nadando!


O estudo foi realizado pelos pesquisadores Thaís Morcatty e João Valsecchi, nas Reservas do Amazonas

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Apesar da ausência de adaptados para se locomover na água, o jabuti-amarelo (Chelonoidis denticulata), com seu casco arredondado e seus pés robustos, é um grande nadador, capaz de se adaptar muito bem aos ambientes alagados. Biólogos do Instituto Mamirauá monitoraram a espécie ao longo de três anos, em uma área de 7 mil quilômetros quadrados de florestas inundadas, e verificaram que esses animais terrestres podem viver em áreas alagadas durante cinco meses do ano.

O estudo foi realizado pelos pesquisadores Thaís Morcatty e João Valsecchi, nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, no interior do Amazonas, e publicado na edição de outubro da Oryx, revista científica internacional sobre conservação da biodiversidade e uso sustentável dos recursos naturais.

“Por incrível que pareça ele nada muito bem. Flutua com facilidade e até consegue mergulhar”, afirma Thaís Queiroz Morcatty. “Podemos ver que os demais animais do grupo, as tartarugas marinhas e os cágados, possuem adaptações para o ambiente aquático, como, por exemplo, o corpo mais achatado e membros em forma de nadadeiras ou com membranas entre os dedos”, explica.

Pode não parecer, mas o Jabuti-amarelo sabe se virar na água/Foto: Aline Fidelix

De acordo com a bióloga, o trabalho chama a atenção para a espécie, que apesar de ser carismática e apreciada como animal de estimação, não recebe a mesma atenção de pesquisadores e projetos e conservação como outros quelônios. E adiciona uma informação importante a futuros projetos de proteção da espécie: a importância das várzeas para a espécie, demonstrando a necessidade de estratégias de preservação que incluam essas áreas. As florestas alagáveis, chamadas de várzea, ocupam uma área de 400 mil km² na Amazônia, extensão equivalente ao território da Alemanha.

Os pesquisadores percorreram a floresta alagada em canoas. Os jabutis-amarelos foram encontrados flutuando, nadando ou em cima de galhos. No período da cheia, estavam em locais com mais de 2 metros de profundidade. Cinco meses são muito tempo para um animal considerado estritamente terrestre viver num ambiente alagado. Nós capturamos muitos animais nessa região, o que nos leva a acreditar que a quantidade de jabutis na várzea pode ser superior à quantidade em terra firme”, destaca a pesquisadora.

O jabuti-amarelo é um animal oportunista, que se alimenta tanto de vegetais quanto de animais. Mas na Amazônia, prefere frutos, o que faz da espécie uma importante dispersora de sementes. Ele utiliza abrigos, principalmente em árvores caídas na floresta e quando o clima está seco e muito quente permanece em regiões encharcadas. Apresenta em média 12 kg, podendo chegar a cerca de 30 kg.

É um bicho que sabe se esconder, segundo os pesquisadores, o que dificulta a captura e estudos sobre ele. Pouco se sabe sobre a reprodução da espécie, mas ocorre durante o período de seca. Locais de postura ainda são um mistério para cientistas e também para ribeirinhos.

Na cheia, segundo informações ainda preliminares dos pesquisadores, a alimentação do jabuti-amarelo muda, devido à dificuldade de encontrar seus frutos preferidos. Ele passa então a comer folhas e partes menos nutritivas da planta. Os biólogos do Instituto Mamirauá acreditam também que a cheia prolongada da Amazônia altere o ciclo natural reprodutivo, para que a espécie possa sobreviver na várzea.

“Os ovos necessitam de locais secos para incubação, não podendo ser submersos”, diz Thaís Morcatty. “Acreditamos então que tenha regulado seu ciclo reprodutivo, possivelmente diminuindo o tempo de incubação dos ovos, concentrando a postura e nascimento dos filhotes apenas durante a época da seca, quando tem terra seca disponível na Várzea”, completa.

O jabuti-amarelo, também conhecido em outras partes do país como jabuti-tinga, é classificado como vulnerável à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês). Está também na da lista da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas da Fauna e Flora Selvagens (CITES). Estudos indicam que o declínio da população da espécie em várias regiões da Amazônia está associado à grande exploração para consumo e comércio, assim como o hábito de criação como animal de estimação.

Thaís Mocatty explica que no Brasil são encontradas duas espécies de jabuti. A outra é o jabuti-vermelho, também conhecido como jabuti-piranga (Chelonoidis carbonaria), que além da coloração diferente nas manchas está mais restrito a ambientes de campo, como Cerrado e Caatinga.

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