Tragédia na Boate Kiss completa seis anos: julgamento dos réus não tem data marcada

Por G1 26/01/2019 Ă s 12:20 Atualizado: hĂĄ 7 anos

ApĂłs seis anos da tragĂ©dia da boate Kiss, o processo abrangendo os envolvidos ainda corre na Justiça, sem data para o julgamento. O incĂȘndio que atingiu a casa noturna de Santa Maria, na RegiĂŁo Central do Rio Grande do Sul, em 27 de janeiro de 2013, deixou 242 pessoas mortas. O total de feridos chegou a 636.

Em 2018, houve desdobramentos nos tribunais. Em março, o 1Âș Grupo Criminal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) negou o recurso do MinistĂ©rio PĂșblico, que tentava reverter a decisĂŁo que suspendeu o julgamento popular para os quatro rĂ©us do caso.

Tragédia na Boate Kiss completa seis anos: julgamento dos réus não tem data marcada

Como estĂĄ a boate Kiss atualmente. HĂĄ seis anos, incĂȘndio no local, deixou mais de 240 mortos — Foto: Reprodução/RBS TV

Isso ocorreu apĂłs o TJ ter acolhido, em dezembro de 2017, um pedido dos rĂ©us, afastando o dolo eventual – quando o rĂ©u assume o risco de matar –, determinando, assim, que eles seriam julgados por um juiz, por homicĂ­dio simples, e nĂŁo por voto popular.

Diante do pedido negado, o MinistĂ©rio PĂșblico e a Associação dos Parentes das VĂ­timas e Sobreviventes da TragĂ©dia de Santa Maria (AVTSM) interpuseram Recursos Especiais e ExtraordinĂĄrios junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao Supremo Tribunal Federal (STF), para tentar reverter a decisĂŁo do TJ.

Respondem por homicĂ­dio por dolo eventual Elisandro Spohr e Mauro Hoffmann, sĂłcios da boate, e Marcelo Santos e Luciano Bonilha, integrantes da banda que tocava durante a festa.

Recurso especial ao STJ
O recurso especial estĂĄ em andamento no Superior Tribunal de Justiça. Foi distribuĂ­do ao ministro RogĂ©rio Schietti Cruz, que, no dia 10 de janeiro, encaminhou para o MinistĂ©rio PĂșblico Federal (MPF), que deve emitir um parecer.

“No trĂąmite do STJ quem atua Ă© o MinistĂ©rio PĂșblico Federal. EntĂŁo, nĂłs estamos em contato com eles, colocando nossas preocupaçÔes. ApĂłs o parecer deles, jĂĄ pode voltar ao relator e ser colocado em julgamento em um prazo exĂ­guo possĂ­vel”, afirma o subprocurador-geral de Justiça para Assuntos Institucionais, Marcelo Dornelles.

O subprocurador explica porque o MinistĂ©rio PĂșblico considera que o caso deve ir a julgamento popular. “Eles nĂŁo se preocuparam com o resultado morte. EntĂŁo, nĂłs entendemos que houve muito mais que imprudĂȘncia. O somatĂłrio de erros, de problemas, de mĂĄs intençÔes que aconteceram levam que aquele resultado pode ser entendido como doloso”.

ApĂłs o resultado, o processo volta para o juĂ­zo de primeira instĂąncia, em Santa Maria, que deve marcar a data, seja do Tribunal do JĂșri – quando pessoas da comunidade participam da sentença – ou do julgamento por um juiz, conforme a decisĂŁo.

“Sendo procedente nosso recurso [que tramita no STJ], vai a julgamento popular em Santa Maria. NĂŁo sendo, vai voltar para nĂłs acusarmos do outro crime que nĂŁo seja contra vida, provavelmente o crime de incĂȘndio seguido de morte”, acrescenta Dornelles.

O advogado de defesa das famĂ­lias, Ricardo Breier, adianta que, caso nĂŁo ganhe o recurso reformando a decisĂŁo do TJ-RS, ingressarĂĄ com novo pedido, dessa vez no Supremo Tribunal Federal (STF).

“NĂŁo se pode inibir a responsabilidade [dos rĂ©us]. Por isso que lutamos para preservar o prĂ©dio da boate. Se for a jĂșri, os jurados vĂŁo visitar o local”, detalha Breier. Ele rejeita a tese de que os rĂ©us nĂŁo tenham culpa pela tragĂ©dia, e acredita na condenação de Elissandro, Mauro, Marcelo e Luciano.

“Superlotação, ausĂȘncia de iluminação, de saĂ­das [na boate Kiss]. Eles visavam o lucro e pagaram com vidas”, diz. “Aquele local era um arapuca. VocĂȘ entrava e nĂŁo sabia se iria sair”, conclui Breier.

‘Sensação de impunidade’
O professor Nestor Raschen, de 59 anos, perdeu o filho Matheus Rafael Raschen no incĂȘndio. Na Ă©poca, o jovem tinha 20 anos, era estudante da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e jogador de basquete da seleção gaĂșcha e brasileira.

“O nosso filho Matheus era um menino fantĂĄstico que ajudou a salvar vidas naquela noite e acabou perdendo a sua. Em nome dele e dos demais filhos e filhas, nĂłs exigimos que se faça justiça”, afirma Nestor.

Tragédia na Boate Kiss completa seis anos: julgamento dos réus não tem data marcada

Pai conta que Matheus ajudou a salvar vidas na noite do incĂȘndio da Kiss — Foto: Arquivo pessoal

Para ele, a demora do julgamento passa a “sensação de impunidade”. “NĂłs precisamos responsabilizar as pessoas, sĂłcios da boate e integrantes da banda, e tambĂ©m o poder pĂșblico pela tragĂ©dia, para que tais eventos nĂŁo se repitam mais”.

“Nossa maior riqueza, nossos filhos, jĂĄ nĂŁo estĂŁo mais conosco. O que queremos Ă© que nĂŁo se repita com outras famĂ­lias. A justiça serve para que todos tenhamos cuidado com a vida do outro. Quem Ă© negligente precisa responder severamente pelo erro cometido para que sirva de exemplo para toda a sociedade”.
O presidente da AVTSM, Sergio da Silva, que também perdeu o filho na tragédia, conta que a espera causa uma sensação de abandono pela Justiça.

“Como associação, nĂłs temos que entender que Ă© uma luta constante, vai seguir em frente. Mas como pai, como vĂ­tima, Ă© [sentimento de] indignação, falta de respeito, tristeza, decepção”.

O subprocurador Marcelo Dornelles explica que desde o primeiro momento o MinistĂ©rio PĂșblico tomou providĂȘncias para que o caso tivesse prioridade total dentro da instituição.

“NĂłs designamos promotores para atuarem exclusivamente dentro desses processos, em todos eles. EntĂŁo, claro que a complexidade Ă© grande, o volume Ă© grande, mas nĂłs vemos sempre com preocupação a questĂŁo do tempo”, afirma.

“A cada ano que passa, nĂłs tambĂ©m sofremos juntos em nĂŁo ver o deslinde desse caso. NĂłs temos essa preocupação, esse interesse, em que isso seja julgado o mais breve possĂ­vel”.

Defesa dos réus
O advogado de Elissandro Callegaro Spohr, Jader da Silveira Marques, afirmou ao G1 que “a expectativa da defesa em relação ao julgamento do MP Ă© no sentido de ser respeitada a jurisprudĂȘncia do prĂłprio STJ, que nĂŁo admite a avaliação de provas em recurso especial”.

Ele acrescentou que “em relação a tese de inexistĂȘncia de dolo no incĂȘndio e nas mortes nĂŁo Ă© apenas a defesa que sustenta essa situação. A partir de agora, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul afirmou no acĂłrdĂŁo vencedor que nĂŁo hĂĄ no processo elementos que indiquem que tenham os acusados aceitado o resultado morte ou lesĂ”es corporais das vĂ­timas da boate Kiss”.

Tragédia na Boate Kiss completa seis anos: julgamento dos réus não tem data marcada

Imagem da noite do incĂȘndio na boate Kiss — Foto: Germano Roratto/AgĂȘncia RBS

“Eles nĂŁo aceitaram esse risco diante da previsibilidade do resultado. […] Por qualquer Ăąngulo que se olha essa situação, o proprietĂĄrio da boate e os demais acusados podem responder por delitos tipificados no CĂłdigo Penal, mas que nĂŁo estejam voltados para o dolo de matar ou de causar lesĂ”es nas pessoas. Esse Ă© o resultado do julgamento no Tribunal de Justiça, que se espera que seja mantido”, acrescenta o advogado.

A defesa de Luciano Augusto Bonilha LeĂŁo, o advogado Gilberto Carlos Weber, afirmou que neste momento Ă© aguardada a decisĂŁo do recurso para que se tenha conhecimento de como serĂĄ julgado o processo.

“No nosso entendimento se trata de homicĂ­dio culposo [quando nĂŁo se tem a intenção de matar]. EntĂŁo, o julgamento deve ser efetivado por um juiz regular, mantendo a decisĂŁo do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul”, explica.

Os advogados dos demais réus foram procurados, mas não foram encontrados ou não responderam aos pedidos.

IndenizaçÔes
Além da decisão final da Justiça, boa parte das famílias ainda aguardam outra definição: a do pagamento das indenizaçÔes. O advogado Ricardo Jobim, que representa 206 famílias de vítimas em açÔes cíveis, explica que os processos se encontram paralisados, à espera de uma perícia contåbil para avaliar a extensão patrimonial da família de Elissandro Spohr, à qual às contas da Kiss estavam ligadas.

“Eles [famĂ­lia Spohr] tinham muitas empresas de contabilidade misturadas”, explica Jobim. A perĂ­cia tĂ©cnica nĂŁo tem data para ser concluĂ­da.

Somente após a definição do valor total do patrimÎnio da família serå possível encaminhar os pedidos de indenizaçÔes.

O advogado toma como base a negociação realizada no caso do acidente com o aviĂŁo da TAM, em 2007. “Perder familiar nĂŁo tem precificação, mas tambĂ©m nĂŁo pode ser algo [valor] ofensivo Ă  famĂ­lia. Eles nĂŁo fazem por causa do dinheiro, fazem para nĂŁo deixar sem resposta. O dinheiro nĂŁo vai fazer os familiares voltarem”, diz.

Os valores que serão pedidos como indenização ainda não estão definidos, mas devem girar em torno de R$ 300 mil, de acordo com o que foi pago no caso da TAM.

AlĂ©m do grupo de proprietĂĄrios da Kiss, constam como rĂ©us nesses processos os governos do estado e municipal, pelos problemas de fiscalização e liberação do espaço, e o Grupo K1, a que pertence a empresa fabricante das espumas usadas para isolamento acĂșstico.

“Um dos fatores que causou a tragĂ©dia Ă© que a venda do produto nĂŁo vinha com alerta de nĂŁo ser adequado ao isolamento acĂșstico e nĂŁo explicava que liberava o gĂĄs tĂłxico”, explica.

DenĂșncia contra pais de vĂ­timas rejeitada
Em julho do ano passado, a denĂșncia contra dois pais de vĂ­timas da boate Kiss foi rejeitada pelo juiz Leandro Augusto Sassi, da 4ÂȘ Vara Criminal de Santa Maria. Eram alvo o presidente da AVTSM, Sergio da Silva, e o vice-presidente da entidade, FlĂĄvio JosĂ© da Silva. Outros dois pais de vĂ­timas tambĂ©m foram processados, e inocentados.

FlĂĄvio e Sergio foram denunciados por calĂșnia pelo promotor Ricardo Lozza. Na representação, Lozza afirma ter se sentido ofendido por cartazes que foram colados nas ruas de Santa Maria com sua foto, o apontando como um dos culpados da tragĂ©dia. Os cartazes foram recolhidos.

ApĂłs decisĂŁo favorĂĄvel ao promotor, um recurso da defesa de Sergio foi apresentado junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), e negado pelo ministro Luiz Fux. O processo, entĂŁo, voltou para Santa Maria, e foi rejeitado pelo juiz.

Além de Sergio e Flåvio, outros dois pais de vítimas também foram processados: Paulo Carvalho, por dois promotores, e Irå Mourão Beuren, por um promotor aposentado e um advogado. Ambos foram inocentados.

Memorial
Uma das expectativas na cidade é em relação à construção de um memorial, no local onde funcionava o prédio da boate. O terreno jå foi desapropriado pela prefeitura, mas o prédio só serå demolido depois do julgamento, que ainda não tem data marcada. O projeto do memorial foi escolhido em um concurso nacional de arquitetura.

O concurso foi financiado em uma campanha coletiva pela internet.

“NĂłs aprovamos o projeto na prefeitura no final do ano passado. Essa etapa jĂĄ foi concluĂ­da. E agora a gente precisa ir atrĂĄs do recurso para a execução do projeto”, afirma a vice-diretora do Instituto de Arquitetos do Brasil em Santa Maria, Anneliese de Almeida.

ComissĂŁo Interamericana dos Direitos Humanos
Em 2017, o caso foi encaminhado à Comissão Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA), por meio de petição que denunciava a violação do direito das famílias à Justiça.

Segundo a advogada TĂąmara Biolo, responsĂĄvel pela petição, nĂŁo houve nenhuma novidade quanto Ă  denĂșncia que foi encaminhada.

“Eles receberam a petição em 2017 quando enviamos, mas ainda nĂŁo abriram o procedimento”, explica a advogada.

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