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Mandante da morte de Chico Mendes afirma que líder seringueiro “morreu porque quis”

Por TIÃO MAIA, PARA A CONTILNET

Condenado pela Justiça por tramar o assassinato do líder sindical Chico Mendes, há 30 anos, em Xapuri, o fazendeiro Darli Alves da Silva nega que tenha sido o mandante do crime. Aos 80 anos de idade, Darli afirma que a vítima morreu “porque queria morrer”.

Darli e Darci no julgamento em Xapuri, em 1992/Foto: reprodução

De acordo com ele, “quem quer morrer entra na vida dos outros. Está lá na Bíblia. Então, perante a Justiça de Deus, eu não sou homicida”, disse, em referência ao fato de Chico Mendes ter sido assassinado por seu filho, Darci Alves Pereira, o “Aparecido”, então com 24 anos de idade. O homicídio foi motivado pela insistência do sindicalista em levar Darli à cadeia por crimes cometidos pelos Alves ainda em Minas Gerais e no Paraná, antes de fugirem para a Amazônia, segundo um mandado de prisão da justiça de Umuarama (PR).

Apesar de manter o mesmo discurso há 30 anos, segundo o qual Chico Mendes foi morto porque o perseguia e que o filho Darci o matou para poupar o pai das perseguições do sindicalista, Darli agora se diz um homem transformado e religioso. “Hoje, todos os meus ex-inimigos são meus amigos. Até ele [Chico Mendes] seria meu amigo. Eu pelejei para ele ser meu amigo. Ele não quis”, disse, sem citar o nome do sindicalista.

Darli Alves após cumprir a pena de 19,5 anos de prisão/Foto: reprodução

“Quem está com Deus, nova criatura é”, filosofou o velho fazendeiro ao reafirmar sua religiosidade e repudiar a pecha de assassino. “Homicida eu não sou. Não há provas”, reafirmou.

“Mas as minhas contas é com Deus que eu quero ajustar. Hoje, entro em toda igreja que estiver com a porta aberta”, disse, enquanto exibia ao repórter um exemplar da Bíblia Sagrada que acabara de adquirir em uma livraria da cidade. Além de religioso, Darli não se tornou celibatário, apesar de se declarar solteiro.

As quatro mulheres que ele mantinha na sede da Fazenda Paraná, na época do assassinato de Chico Mendes, e com as quais tinha pelo menos 30 filhos – só na sede da fazenda, na época do crime, a polícia encontrou pelo menos 16 filhos de Darli com seis mulheres que lhe serviam de esposas, morreram ou o deixaram.

Caso repercutiu na imprensa nacional e do exterior/Imagem: reprodução

De todas elas, foram revelados os nomes apenas de cinco – quatro delas morando na fazenda, as outras duas ficaram no Paraná quando os Alves, perseguidos pela polícia por crimes cometidos naquele estado e também em Minas Gerais, entre os anos 50 e 60, fugiram para a Amazônia. Ao ser preso, em janeiro de 1989, após o assassinato de Chico Mendes, em dezembro de 1988, no seu primeiro contato com jornalistas, com pouco mais de 50 anos de idade, Darli se apresentou como pai de 30 filhos. Quando os jornalistas o apontaram como marido de cinco mulheres, o fazendeiro fez questão de corrigir:

“São seis!”, disse. E eram.

Duas ainda residiam no estado do Paraná. As outras quatro, que viviam na fazenda dos Alves, em Xapuri, em casas separadas, atendiam pelos nomes de Margarete, Margarida, Francisca e Natalina – esta última, uma negra de olhos tristes, era a mais velha e o acompanhava desde os tempos da fuga do Paraná para o Acre.

Dono de tipo físico digno de um corredor etíope ou queniano, Darli está longe, muito longe mesmo, de ser o latim love com o qual se apresentou na época e que continua a se apresentar até hoje, frágil como um avô carente. No entanto, naquela conversa com os jornalistas, não se fez de rogado quando o assunto era, digamos assim, o seu desempenho nas alcovas.

“Macho igual a mim numa cama, estou por ver”, disse. “Meu único defeito é gostar de mulher. Eu vou com uma mulher para a cama e dou quatro vezes por noite com a maior normalidade. O que prende a mulher não é ter dinheiro, não é ser bonito, nem bom de cabeça, mas ser macho na cama. E isso eu sou”, se gabou quando quiseram taxá-lo de criminoso. Seu estresse, durante aquela entrevista de 1989, aumentou quando alguém quis saber da tal garrafada de Natalina,

“Eu sou bom de cama com ou sem garrafada”, disse, dando a entrevista por encerrada, na época.

Natalina era a mãe de Olocy, o segundo filho mais velho de Darli, um dos condenados pelos tiros desferidos contra trabalhadores acampados na sede do IBDF, em maio de 1988. A mãe de Darci, Elpídia Pereira da Rocha, era uma das que havia ficado para trás, no Paraná. Das quatro que viviam na fazenda, Natalina era a única com direito a morar na casa grande. Era apontada como a responsável pelo vigor sexual do marido, graças a uma beberagem que ela mesma produzia a partir de ervas retiradas da floresta e que ficou famosa como a ‘Garrafada do Darli’, cuja receita ela e ele jamais revelaram.

Darli Alves diz que Chico Mendes, se vivo fosse, seria seu amigo/Foto: Tião Maia

Das quatro mulheres que viviam no entorno da Fazenda Paraná, a eleita mesmo era Francisca – ou Chiquinha, uma morena de 23 anos de idade. Apesar de mãe de três dos muitos filhos de Darli, seu corpo ainda era cheio de curvas e reentrâncias. Mas se o corpo era belo, a cabeça não ia bem. Desde que o marido sumira em companhia de Alvarino, seu irmão e sócio, já falecido, nas matas ao redor da fazenda, e só reaparecendo para ser preso – logo após a prisão do filho Darci como o assassino de Chico Mendes, nos primeiros dias de 1989, Chiquinha dera para ver coisas.

“Os americanos vão tacar a bomba atômica em nós. Vão matar os bichos e a gente”, dizia, olhando para o céu, como se esperasse a bomba para aquele instante. E tropeçava no terreno ermo, caindo, sem se importar com as dores ou arranhões.

Num domingo, nove de janeiro de 1989, já não se importando nem mesmo com a própria vida ou com os filhos, aproveitou-se de um descuido dos policiais militares que montavam guarda na sede da fazenda, à espera de algum contato ou outra pista de Darli com a família ou empregados, Chiquinha entrou num paiol e, de posse de uma faca do tipo peixeira, secionou a jugular esquerda.

Seu corpo só foi encontrado horas depois pelos militares, com o buraco na garganta quase fechado por pedaços de pano rotos, numa clara demonstração de que, após abrir a própria garganta, ela tivesse se arrependido e tentado estancar a cachoeira de sangue que brotava do ferimento. Era tarde demais para uma mulher que amava em demasia.

Nesta segunda-feira, ao falar da mulher que se suicidou, Darli se permitiu um pouco de emoção.

Um vazio dentro do peito

“Isso tudo acabou com a minha vida… Só Deus para me manter de pé” disse o fazendeiro, ao falar da morte de Chico Mendes. Quando o repórter indaga se ainda namora, mesmo com a idade avançada, ele reincorpora o Darli de 30 anos atrás.

“Eu ainda garanto dar conta de duas mulheres, por noite’, disse, rindo.

O fazendeiro só volta a se emocionar quando o repórter o faz lembrar de sua condição de pistoleiro, acusado de crime de assassinatos no Paraná, Minas e no Acre. “Não importa o que falam de mim. O que importa é o que eu sou. O que eu tenho, todas as minhas coisas, não foi à custa de pistolagem. Eu sou trabalhador. Fui capinador, plantador de café, de cana e de outras coisas no Paraná, onde morei 14 anos, plantando de tudo que dava dinheiro, soja, mamona, amendoim”, concluiu.

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