Há três anos Sena Madureira perdia o defensor dos mais pobres, Padre Paolino Maria Baldassari


Baldassari foi um dos padres com mais tempo de sacerdócio no Brasil. Antes de morrer, ao lado da comunidade senamadureirense, completou 63 anos de vida ministerial

EVERTON DAMASCENO, DO CONTILNET

Há exatamente três anos, o município de Sena Madureira perdia o sacerdote, médico da floresta e conselheiro espiritual do Iaco, Padre Paolino Maria Baldassari, que faleceu com 90 anos.

Aproximadamente às 15h do dia 8 de abril de 2016, os fieis católicos receberam a notícia do falecimento, confirmada pela Diocese de Rio Branco.

Padre Paolino morreu com 90 anos e 63 de vida sacerdotal/Foto: Reprodução

Padre Paolino passou semanas internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco (Huerb) e foi a óbito após o diagnóstico de falência múltipla dos órgãos.

Reconhecido nacionalmente pela entrega aos ribeirinhos, nas desobrigas que demoravam meses e na entrega de fitoterápicos (de sua produção, com auxílio de plantas e ervas medicinais típicas da Amazônia) aos moradores da zona rural, o religioso recebeu vários títulos e homenagens ao longo de sua vida. Em 2004, o “pai espiritual” de milhares de pessoas foi intitulado, pela Universidade Federal do Acre (Ufac), Doutor Honoris Causa, considerando sua luta ambiental, os serviços prestados em localidades distantes, sua firmeza de caráter na defesa dos mais humildes e seu histórico de vida aprovado na Câmara de Recursos e Títulos Honoríficos da instituição. Em novembro de 2006, também foi escolhido em primeiro lugar como liderança individual do Prêmio Chico Mendes, concedido pelo Ministério do Meio Ambiente.

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O vigário recebeu vários títulos e reconhecimentos ao longo de sua vida/Foto: MPAC

Além dos reconhecimentos, Baldassari foi um dos padres com mais tempo de ministério no Brasil. Antes de morrer, completou 63 anos de sacerdócio ao lado da comunidade senamadureirense. A festa de 60 anos contou com uma programação especial, no ano de 2013.

O velório do “bom velhinho”, como muitos preferiam chama-lo, durou três dias e fez ficar lotada a igreja matriz do município, até mesmo nas madrugadas. Várias autoridades participaram do momento de despedida.

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O velório fez ficar lotada a igreja matriz do município/Foto: Reprodução

Paolino foi responsável pela criação e animação do tradicional arraial do mês de maio em Sena. A “linda galinha” nunca será tão bem oferecida…

A pobreza, a castidade e o amor pela educação fizeram com construísse ao longo de sua trajetória, mais de 40 escolas nas áreas mais distantes do centro urbano, com o apoio de moradores.

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O padre em uma de suas desobrigas, no interior do Acre/Foto: Arquivo da Diocese de Rio Branco

Nos Estados Unidos (EUA), o historiador e jornalista Fabiano Maisonnave resumiu em poucas palavras a vida do vigário, em um publicação feita na Folha de São Paulo:

“Embrenhar-se na floresta amazônica era o que o padre Paolino Baldassari mais gostava de fazer. Por décadas, em viagens de barco que duravam até seis meses, visitava seringais, aldeias e comunidades ribeirinhas. Nas incursões, chamadas de desobrigas, celebrava suas missas aos fiéis em áreas isoladas. Deixa um baú recheado de cadernos onde registrou, hora a hora, cada uma de suas aventuras”.

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Os atendimentos gratuitos à comunidade eram realizados ao lado da igreja /Foto: Reprodução

Em decorrência da quantidade de viagens que fez ao interior, realizando consultas, batizados, missas e casamentos, Paolino desenvolveu malária 84 vezes, em 56 anos. Mesmo assim, a resistência venceu a adversidade.

Um vídeo, divulgado nos principais veículos da imprensa acreana e nacional, mostra em poucos minutos a sua história. Confira!

Em entrevista concedida à jornalista Silvânia Pinheiro, em 2016, quando foi questionado sobre a procura das pessoas por seus serviços, respondeu: “quando eu era criança, entre 7 e 8 anos, admirava os médicos e os padres pela disposição deles em atender um chamado de emergência do seu próximo. Na minha mente lembro que uma vez minha irmã estava com pneumonia e eu vi meu pai desesperado a espera do médico. Ele chegou na neve, encapuzado, montado num cavalo, e disse: Arthur, só vim atendê-lo porque escolhi ser médico e fiz um juramento de nunca negar assistência a ninguém, pois hoje estou mais doente do que sua filha. Então, eles eram meus heróis, pois naquela época não havia TV, rádio ou internet. Eu gosto de cuidar dos doentes. Uma vez uma mulher me procurou e gritava de dor de cabeça, e eu disse: espera aí, que vou te botar boa em cinco minutos, e coloquei”. 

PAOLINO E SILVA

Paolino mostra marcas das agulhadas que levou em hospital, durante entrevista com a jornalista Silvania Pinheiro/Foto: Wania Pinheiro/ContilNet

Ao final, o padre foi perguntado sobre o seu maior sonho para o Acre e para a Amazônia, e disse: “meu maior desejo era que os seringueiros soubessem ler. Hoje, quero continuar servindo as pessoas através do Evangelho e da medicina”.

Uma breve biografia

Nascido na Itália, era filho de um pedreiro com uma agricultora. Ainda jovem tornou-se ajudante de pedreiro e não gostava de estudar. Era tão ruim em matemática, segundo ele mesmo afirmava, que, certa vez, numa única aula levou 70 tabefes do professor por não responder corretamente a tabuada. Após a guerra, tendo migrado para o Brasil, passou a ser aluno aplicado, formando-se em Teologia e aprendendo vários idiomas.

Ainda na Itália fez amizade com outro religioso, o frei Heitor Turrini, que virou seu principal parceiro na prática religiosa. Vieram juntos para o Brasil num avião da Alitália, por iniciativa de Turrini, que conseguiu passagens de graça. A proeza se repetiu na viagem para a Amazônia e custou a Heitor dois dias de carona num caminhão até o Rio de Janeiro, para pedir as passagens ao dono da empresa Cruzeiro do Sul (depois Varig).

Baldassari era integrante da Ordem Servos de Maria (OSM).

Programação

Os católicos deverão participar nesta segunda-feira (8) da missa de três anos de falecimento, celebrada na Paróquia Nossa Senhora da Conceição, às 19h, pelo pároco e amigo de Paolino, Moisés Oliveira.

Ao final, os fieis deverão participar de um arraial, em homenagem ao querido e amado Frei Paolino.

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