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Dom Moacyr: o que o antigo bispo da província leva e o que deixa neste mundo

Por ANTÔNIO ALVES, PARA CONTILNET

O tempo do bispo

Senti uma tristeza dolorida ao saber da partida de D. Moacyr Grecchi. Como muitos acreanos, católicos ou não, tinha por ele grande respeito e até uma estima pessoal adquirida nos anos em que ele era Bispo da Prelazia, depois Diocese do Acre e Purus. No começo, não gostava dele. Eu era um jovem esquerdista radical, às turras com os “igrejeiros” que dominavam os movimentos sociais e o PT em formação (pra vocês terem uma idéia, as reuniões do partido começavam e se encerravam com um Pai-Nosso). O bispo e o delegado da Contag, João Maia, embora não participassem das reuniões, eram os únicos votos que contavam para aquele bando de pelegos que se sentavam à mesa e controlavam as decisões. Com o passar dos anos e os muitos embates que tivemos, embora minhas discordâncias e antipatias não tivessem diminuído, aprendi a reconhecer a sabedoria na ponderação e o cuidado que aqueles “líderes ocultos” tinham que ter.

Bispo Dom Moacyr/Foto: reprodução

Dom Moacyr, em especial, vivia cotidianamente uma situação delicada: era o dirigente de uma instituição milenar, conservadora no seu âmago, pastor de um rebanho com milhares de pessoas de todas as classes e extratos sociais e tinha que conciliar isso com o apoio aos seringueiros, índios, pobres e injustiçados em geral que procuravam na Igreja uma salvação imediata, sob o fogo de uma invasão violenta que sofriam em suas terras e suas vidas. Não escapou de ser atacado como “bispo comunista” e até ameaçado pelos novos donos da terra, mas acho que se manteve equilibrado e digno em seus compromissos tanto religiosos quanto sociais.

Lembro de uma vez que veio ao Acre uma equipe de algum órgão de assessoria do Presidente da República -na época, o terrível Sarney- para resolver um conflito no andamento das obras da estrada BR-364, em que seringueiros e índios reivindicavam demarcação e reconhecimento de suas terras. Vários persongens da política local foram chamados para conversar com os assessores presidenciais que, na verdade, eram meros agentes de segurança do militarismo ainda dominante. Calhou de estarmos juntos, eu e Dom Moacyr, numa reunião restrita em que tive de contestar a forma grosseira com que o bispo foi tratado pelos “arapongas” federais. Soube que depois, ao narrar o acontecido ao pessoal de Cimi e outras pastorais, ele disse: “pra vocês terem uma idéia da gravidade da situação, até o Toinho Alves ficou do meu lado”. Acho que foi aí que começamos a nos entender melhor.

Quando fui trabalhar na TV Aldeia, marquei uma entrevista com ele. Para aproveitar a luz do dia e o belo cenário, colocamos duas cadeiras no terraço do “Palácio do Bispo”, como é popularmente conhecida a sede da Diocese. O cinegrafista ligou a câmera e eu comecei com uma pergunta que precisaria ser explicada: “Dom Moacyr, o senhor é uma pessoa religiosa?”. Tal impertinência não significava uma concordância com a crítica óbvia da direita, de que a Teologia da Libertação -que vicejava na Igreja do Acre- voltava-se para a atuação política e se esquecia da espiritualidade. Meu interesse era de uma análise mais pessoal e mais profunda daquela conversa de “opção preferencial pelos pobres”, que me parecia tão superficial nos militantes da esquerda abrigados na proteção eclesiástica. Minha provocação era um convite para que o ser humano se revelasse, sem ocultar-se na batina ou no discurso social de defensor dos oprimidos.

Dom Moacyr não negou fogo. Após 3 segundos de silêncio com expressão pensativa, respondeu firme: “Não. Naturalmente, não”. E explicou que era muito racional, duvidava muito, analisava, ponderava, pesava prós e contras… enfim, uma atitude que não é comum em pessoas naturalmente religiosas, que são mais propensa a acreditar sem muitos questionamentos. Disse que até a decisão de ser padre só tomou no último ano do seminário, depois de pensar muito. Mas concluiu com uma profissão de caráter, mais que de fé: “agora, depois de resolver minhas dúvidas, quando já tenho certeza, aí me mantenho firme e vou até às últimas consequências”.

A entrevista foi longa e em todas as respostas às minhas perguntas ele manteve o tom de firmeza temperada com humildade e sinceridade. Para mim, revelou-se um líder espiritual necessário naqueles tempos conturbados que vivíamos -e que se estende até hoje-, onde o divórcio entre a religião e a ética transformou muitas igrejas em criadouros de políticos oportunistas e até corruptos.

Dom Moacyr faz falta. Muita gente deve estar agora pensativa, revendo sua trajetória e ruminando suas lembranças daquelas décadas finais do século passado. Claro, há um bando de gente tapada que não vai passar da velha e superficial acusação do “bispo de esquerda” e coisas afins. Mas há de existir ainda um punhado de gente sincera -de qualquer orientação política- que possa imaginar Moacyr Grecchi se apresentando diante de Deus e sendo julgado não pelas suas inclinações políticas, mas pelo serviço que prestou aos seus semelhantes no mundo Terra.

Sobretudo, haverá quem tenha a justificável saudade de um tempo em que -talvez por sermos jovens, ou porque a dureza da vida ainda permitisse sonhar- as mudanças do mundo fizessem mais sentido e algumas palavras, como liberdade e justiça, ainda tivessem conteúdo e significado.

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