Rio Branco, Acre,





Mulher do interior do Acre garante sozinha formação superior dos filhos com a venda de pastéis


Para manter os filhos na Capital, não bastava custear as mensalidades da universidade, mas também pagar o aluguel e a alimentação de cada um

LAMLID NOBRE, DO CONTILNET

Filha de seringueiros, de uma família de nove irmãos, nascida no Seringal Nova Hora, no município de Sena Madureira, Pedra Ilma pereira de Araújo, mais conhecida como “Ilma do lanche”, aos 58 anos de idade, conseguiu um feito do qual se orgulha muito. Na verdade, para ela, é seu maior orgulho na vida. Com a venda de salgados pôde proporcionar a três, dos cinco filhos, formação em nível superior em uma universidade particular de Rio Branco.

Ilma com a filha Isis, na colação de grau/Foto: Cedida

“Sou fã de mim mesma porque enquanto pessoas me derrubavam, Jesus me levantava. Muita gente disse ‘ menina tu é louca, que formar os filhos’, mas, para mim, isso é uma honra. Ao invés de eu estar na rua fazendo o que não presta sempre trabalhei”, disse Ilma.

Para manter os filhos na Capital, não bastava custear as mensalidades da universidade, mas também pagar o aluguel e a alimentação de cada um. A caçula, Francisca Isis Araújo Miguel, de 24 anos, formou-se em Direito. Já obteve a OAB e passou em concurso federal.

“Estou divorciada há 25 anos e quando me separei, nem sabia, mas já estava gestante da minha advogada. Toda vida foi uma menina maravilhosa, criada na igreja”, ressaltou.

Dos três que estudaram na universidade particular, esta foi a única que se manteve na instituição de Ensino Superior por meio de bolsa. “Ela estava fazendo Engenharia na Ufac, mas também tinha passado para Direito nessa outra faculdade. Aí escolheu Engenharia e acabou perdendo a vaga para Direito. Eu preferia que ela tivesse feito Engenharia, mas não estava feliz. Quando eu vi a tristeza dela, fui lá, me humilhei, expliquei toda a situação e consegui a bolsa. Toda vida ela quis ser juíza. Fala isso desde pequena.”, relatou

Outra filha de Ilma, Francisca Iris Araújo Miguel, 36 anos, também estudou na Uninorte, onde se formou em enfermeira nefrologista e o terceiro filho, Francisco Antônio Araújo Miguel, de 26 anos, está concluindo Engenharia Elétrica, na mesma universidade. Todos com mensalidades e custos de moradia e alimentação, sendo pagos pela mãe.

Ilma com os filhos ainda pequenos/Foto: Cedida

Muito trabalho e força de vontade

“Eu sempre trabalhei. Comecei a fazer a salgado com 36 anos, mas trabalho desde os sete anos com a minha mãe no roçado, com a enxada ajudava a minha mãe a tratar verduras e vender na cidade. Pepino, maxixe, alface, tomate…a minha irmã que vendia e eu ajudava, mas quando ela completou 15 anos, começou a ficar com vergonha então eu , com 13 anos que vinha vender. Não existia feira, nem mercado. A gente vendia de casa em casa. Tinha que pegar o barco e vir cedo, para chegar na cidade às 3 horas da madrugada. Também vendia o que o meu pai fazia, que era rapadura e açaí”, conta ela.

Ilma do Lanche lembra também que já foi homenageada como o melhor salgado da cidade. “Não existe vitória sem luta. E eu lutei muito. Vinha da Colônia com fome e minha irmã me oferecia comida e eu tinha vergonha de aceitar, mas pedindo no meu pensamento que ela colocasse a comida no prato para eu comer. Já sofri um acidente que quase morri grudada num fio elétrico dentro do lanche. Na hora que eu ‘tava’ morrendo pedi ao meu Deus que me livrasse e Ele me livrou”, diz emocionada.

A mulher que já chegou a vender 4 mil pasteis em um único dia, relata que já teve que trabalhar até em cadeira de rodas, com um braço imobilizado. “Eu fazia a massa só com um braço, mas nunca parei de trabalhar”, destaca.

A produção de Ilma é exclusiva de pastéis: de carne, de queijo, misto com queijo, misto com carne, frango com catupiry, saltenha com vatapá e o sucesso de vendas, segundo ela, o bagunça, que é uma mistura de vários ingredientes no recheio.

Atualmente, ela tem sob sua responsabilidade duas lanchonetes. Uma na escola Dom Júlio Mattioli e outra no Ifac (Instituto Federal do Acre), mas já teve lanche em uma outra escola e um independente.

“Eu faço 100 kilos de massa por dia. O dia que menos vendi foi 700 salgados. Mas geralmente é de 1500 a 2 mil”, relata ela revelando ainda que já chegou a contabilizar R$ 45 mil de faturamento em um mês.

Além da faculdade dos filhos já mencionados, com a renda, Ilma adquiriu imóveis, construiu prédios e pôde presentear os demais filhos – Franciso César e Francisco Fábio – com carros e casas. “Graças a Deus, meus filhos estão todos ricos agora (risos)”, disse.

Com os filhos nos dias de hoje./Foto: Cedida

Nem por isso, Ilma deixou de ser uma mulher simples, humilde e com hábitos modestos. “Eu continuo plantando minha verdura, cuido da minha horta e ando na minha carroça pelas ruas da cidade, vendendo meus salgados.”, acrescentou.

Vaidades, não tem. Afirma que só foi ao salão de beleza duas vezes na vida e pelas ocasiões das formaturas das filhas. “Eu não gasto com salão porque sempre achei que se gastar com isso, pode faltar para outras coisas e a minha preocupação sempre foi nunca deixar faltar a comida para os meus filhos”, relata emocionada.

Força? Cristã, ela atribui todas as vitórias a Deus. “Foram as orações, foi meu Deus que trouxe até aqui”, concluiu.

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