Rio Branco, Acre,


Confraria dos Últimos Românticos: Um texto sincerista* sobre o não-dito

*diz-se daquele em que ao leitor é entregue um vislumbre do meu coração

“Repara bem no que não digo”
(Leminski)

Aos costumes.

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Começo explicando que essa coluna nasce velha. Era agosto, o mês do desgosto, quando me deparei com um alumbramento novo, depois de um domingo de cerveja e calor e música. Não percebi de início, confesso, só me deixei levar pela sugestão que me surgiu nos dias seguintes. Sabe aquela cena de filme adolescente em que duas pessoas viram amigas improváveis e um dia, numa tarde qualquer, uma amiga diz “hein, e aquele seu amigo fulano de tal? Quando vocês vão começar a namorar etc etc etc” e a outra diz “hahaha que besteira, somos só amigos etc. etc. etc.”; daí no dia seguinte ela acorda pensando “nossa, será? Nah, besteira”; dali dois dias “como seria se fosse?” até o fatídico “nossa, realmente, que casalzão da porra a gente seria”. Como se depois de todo aquele tempo você só tivesse parado pra olhar atentamente quando alguém segurou o seu rosto e te disse pra onde olhar. Pois. Foi o que me ocorreu.

Nada muito intenso assim, só um borbulhar. Paulatino. A cada dia novo eu percebia uma fagulha nascer. Talvez um pouco mais urgente do que eu queria. Afinal era uma situação nova – não por nunca ter me alumbrado, mas por não me alumbrar há tempos. Mas tinha essa fagulha e era urgente. Urgente porque tinha prazo. Um dia explico.

Foram umas duas semanas nutrindo esse alumbramento quando de repente senti na garganta a necessidade de dizer. De olhar pra ele e dizer “ei, moço, e se a gente se beijasse qualquer noite quente dessas?”. Sabe como? O mês corria e junto com ele o prazo pra gente acontecer.

Era uma sexta quente e seca quando eu decidi que não ia dizer. Porque sei lá (na verdade sei), mas eu sentia que a necessidade de dizer não era assim tão necessária de dizer não era assim tão necessária, sabe como? Como se aquilo fosse milagrosamente desaparecer no momento em que decidi fingir que aquilo não existia.

Qual o quê.

Então me peguei pensando: se o que eu silencio não vira esquecimento, o que vira então? E pra onde vai?

Tomei umas cervejas e criei coragem pra…perguntar pras pessoas pra onde elas acham vão as coisas que não são ditas.

A Amanda, confrade e parceira desta coluna, respondeu que vão “pro fundo da alma. Lá pra debaixo do tapete. Não é um bom lugar, mas pelo menos não fica no meio do caminho (aparentemente, mas não concordo).”.

A Ana, roommate e parceira de sofá, respondeu que “ficam dentro da gente, e vão corroendo a gente por dentro, feito radioatividade.”.

O Rodrigo, meu irmão e futuro psicólogo, acha que “qualquer coisa que a gente reprima – seja ideia, pensamento, desejo – vai pro nosso inconsciente, e o processo que acontece a partir disso vai depender de cada pessoa e da relação que ela tem com aquilo que ela está tentando esconder. Não é bem esconder – é não falar sobre. Pode se manifestar por meio de sonhos, de pesadelos, de processos de depressão. Sei lá, tô pensando pelo lado da psicologia. Daí a pessoa resolve isso com o tempo ou pode virar uma obsessão também, né. Só conseguir pensar na pessoa, ou no fato que ocorreu, ou no que ela não disse. Tipo assim, não adianta a gente enganar a mente. Porque isso da gente fingir que não tá rolando nada, o seu inconsciente vai guardar aquela informação, e mesmo que você não queira ela vai se manifestar. Fisicamente ou não. Depende da intensidade da coisa.”.

Eita.

E a Isis, minha melhor amiga e parceira de banquinho das lamentações, acredita que “essas coisas vão corroendo a gente, junto com o medo. No fundo é melhor dizer, pra daí já saber, mas o medo não deixa e aquilo vai se alimentando da gente.”.

Eu? Eu acho que depende.

Depende do que a gente sente, da intensidade do que se sente e das razões que temos pra não dizer o que sentimos. Mas talvez, na maior parte do tempo, a gente não diga por medo. Seja o medo de ser mal interpretado, seja o medo de não ouvir de volta o que se espera – como se só houvesse uma resposta óbvia pra todas as perguntas. Seja o medo de sentir dor no processo. E ninguém quer sentir dor em agosto, nem o poeta. Então a gente paralisa, e silencia, porque talvez seja melhor guardar pra si que jogar pro mundo e ver aquilo virando poeira cósmica sem virar constelação.

A coragem de fazer as perguntas quando não se sabe as respostas é a coragem mais boba que tem, mas ainda é coragem.

No fundo, eu acho que o não-dito acaba é na corrente sanguínea. E circula por todo o nosso corpo, e contamina tudo, feito vírus. Feito amor. Intoxicação de palavras que nunca aconteceram. Como se a gente gestasse sem nunca parir. Quase sempre o fígado resolve, junto com o tempo, mas precisa ter saúde. Não tem detox com suco verde que dê jeito. Só o tempo e o fígado.

Ou então a gente bebe tequila e abre a boca – e o coração, e sai correndo sem defesa nenhuma pelo campo inimigo que é o coração da outra pessoa.

Mas isso é história pra outro dia.

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