Rio Branco, Acre,


Confraria dos Últimos Românticos: A história que me cabe

Naquela manhã preguiçosa de segunda-feira eu mergulhei no oceano que era Mariana

Eu teria que te contar toda a minha história com Mariana, para você entender como as coisas chegaram a este ponto. Mas agora eu não tenho tempo para contar sobre o dia que a encontrei chorando no estoque do nosso trabalho, em uma quarta-feira de jogo. Ou sobre a complicada relação entre ela e Otávio. Para que você pudesse entender, mas realmente entender, eu teria que contar como ganhei a cicatriz que carrego na minha testa. Mas eu não posso te contar sobre isso. Porque não é minha história para contar.

Apesar de ter feito parte de alguns momentos, eu era apenas uma testemunha. Ou, no máximo, uma cúmplice. Nunca poderia ser a protagonista desta história. O que posso contar é sobre o nosso primeiro beijo. Essa é a parte que me cabe.

Era uma segunda-feira preguiçosa de agosto e eu não tinha aula ou trabalho. Nessa época Mariana já morava comigo. Após terminar com o namorado com quem dividia sua vida, ela acabou ficando na minha kitnet. Há três semanas eu não sabia exatamente onde terminava a minha bagunça e onde começava a dela.

Me virei na cama e esbarrei em seu corpo. Tremi um pouco, porque ainda não conseguia me acostumar com o fato de dividirmos a mesma cama. Ela virou-se na minha direção e sorriu, acho que já estava acordada.

Lembrei da noite passada. De Otávio na porta do bar. Do segurança tendo que arrastá-lo porta a fora. Das lágrimas que eu passei a noite secando no rosto de Mariana. Ela tocou a cicatriz na minha testa, sentindo-se culpada.

Mas ela não parecia triste. Apesar de tudo, ela sorria com sinceridade.

       “Bom dia”, disse.

       “Bom dia”, eu respondi.

        Mariana puxou o meu braço, arrastando o dedo pela minha pele.

        “Quantas pintinhas você tem…”, comentou baixinho.

Fiquei ouvindo ela contar as marcas no meu braço. 1, 2, 3… Ela sussurrava…15, 16, 17… Ela pegou meu outro braço e senti meu rosto corar… 23, 24, 25… O que ela estava fazendo?

         “32”, ela sorriu vitoriosa.

         “O que?” perguntei confusa. Estava tão constrangida com Mariana me tocando que não conseguia pensar.

         “Você tem 32 pintinhas”.

Olhei para a minha própria pele e sorri. Ninguém tinha prestado atenção nas minhas pintinhas antes. Meu coração se encheu de emoção e quando percebi, meus lábios encontraram com os dela. Fechei os olhos, sem entender muito bem quem tinha iniciado o beijo, e me deixei mergulhar no oceano que era Mariana. Quando retornei a superfície, nua, cansada e em busca de ar, ela não estava mais na cama comigo.

          Senti o cheiro de café vindo da cozinha.

Afinal, o que estava acontecendo ali?

Admito que na época, eu não me importava muito em entender. E esse foi o meu erro, porque se tivesse prestado atenção, teria entendido as entrelinhas da nossas história. Teria percebido os sinais. E saberia que aquela manhã preguiçosa não era o começo de nossa história, como ingenuamente pensei, mas o fim.

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