Medalhista olĂ­mpico brasileiro diz que temeu morte ‘lenta, silenciosa e solitĂĄria’ por covid-19

Por TERRA 15/06/2020

“Chegamos a jogar com 50ÂșC em Acapulco, 48ÂșC na OlimpĂ­ada de Atenas ao meio-dia, com a areia a 60ÂșC, peguei 2ÂșC em Moscou. Peguei as maiores e menores temperaturas que o ser humano pode suportar, de camiseta e shorts. Isso nĂŁo me tornou melhor do que ninguĂ©m para combater o vĂ­rus”, relata MĂĄrcio AraĂșjo, em entrevista ao EstadĂŁo.

Vivendo em Fortaleza, o ex-jogador de vĂŽlei de praia nĂŁo conseguiu ser internado de imediato quando ficou doente. Assim, se isolou em uma casa de praia, onde teve medo de morrer, depois passando quatro dias internado em um hospital, mesmo que jĂĄ estivesse sendo medicado. Quando recebeu alta, sua esposa Juliana, grĂĄvida de oito meses, estava infectada e precisou ficar hospitalizada por quase uma semana.

Ele, entĂŁo, teve de retornar ao ambiente hospitalar. Assim, mesmo estando fragilizado, com pneumonia, passava o perĂ­odo diurno com Juliana, que era acompanhada, para dormir, por sua irmĂŁ. MĂĄrcio AraĂșjo relembra que o drama foi triplo, pois a doença na esposa tambĂ©m trouxe complicaçÔes para o bebĂȘ, que chegou a estar com apenas 1,95kg com 34 semanas de gestação. Agora, porĂ©m, o peso estĂĄ sendo recuperado. “A nenĂȘ emagreceu um pouco, porque nĂŁo havia transporte de alimentos e nutrientes”, explicou.

Hoje recuperado, ele garante ter ficado em isolamento desde o inĂ­cio da crise do coronavĂ­rus, optando por seguir sua rotina em duas residĂȘncias. MĂĄrcio AraĂșjo e sua famĂ­lia passavam os finais de semana em Fortaleza. JĂĄ durante a semana, ficavam em uma casa de praia, em TaĂ­ba, nas proximidades da capital cearense.

“Ia para lĂĄ durante a semana e ficava no apartamento de Fortaleza no sĂĄbado e domingo, para nĂŁo pirar durante o confinamento. Acredito que me contaminei lĂĄ, porque ia no supermercado, posto, depĂłsito, na farmĂĄcia, e nĂŁo tinha ĂĄlcool gel no carro, embora sempre usasse mĂĄscara”, relata.

Foi lĂĄ, tambĂ©m, onde MĂĄrcio AraĂșjo viveu os momentos mais angustiantes com a covid-19. Com dor de cabeça e febre, nĂŁo fez a viagem rotineira para a casa de praia, indo a um hospital, onde foi detectado que ele estava com coronavĂ­rus. Medicado, ficou em isolamento no quarto de uma de suas filhas em Fortaleza.

Mas depois, por estar com a esposa grĂĄvida e ainda tendo uma filha com asma e outra com rinite alĂ©rgica, optou por se isolar em TaĂ­ba. Para ele, um erro grave. “Comecei a sĂł piorar. Sustentei, na sexta, trĂȘs desmaios. Se eu desmaiasse, teria uma morte lenta, solitĂĄria e silenciosa. Com a falta do oxigĂȘnio, fechei a casa e fui para o hospital na sexta Ă  noite. Nem sei como cheguei, como nĂŁo capotei o carro”, relata.

MĂĄrcio AraĂșjo, porĂ©m, teve dificuldades para conseguir ser internado. “No domingo, eu estava sofrendo muito, jĂĄ estava agonizando e aĂ­ consegui um leito. Me internaram direto, tomando corticoide na veia. Fiquei no soro e isolado no quarto”, explica o ex-jogador de vĂŽlei de praia, revelando que nĂŁo esperava passar por sofrimento tĂŁo grande. “Eu nunca bebi, nunca fumei, fui atleta a vida toda, ainda jogo, faço musculação, tenho alimentação Ăłtima, atĂ© por ser casado com uma nutricionista. Foi uma surpresa muito grande”, acrescenta. “Se nĂŁo fosse internado, ia morrer em casa”, continua.

Hoje jĂĄ recuperado do coronavĂ­rus, o ex-atleta compara a sensação vivida para lidar com a doença com momentos extremos. “Sofri muito com a falta de oxigĂȘnio. Parecia o final de um treino em que ataquei 20 bolas”, afirma MĂĄrcio AraĂșjo, apontando que o pavor e o efeito psicolĂłgico o fizeram sofrer ainda mais nos perĂ­odos mais complicados da doença. “VocĂȘ estĂĄ sofrendo com a falta de oxigĂȘnio e sabe que Ă© uma pessoa saudĂĄvel, estĂĄ puxando o ar e nĂŁo vem. Isso te deixa mais nervoso, o medo vai crescendo. VocĂȘ nĂŁo vĂȘ melhora”, relata o ex-atleta, fazendo nova comparação sobre a sensação do momento de falta de ar.

“É como vocĂȘ estar no mar e tomar um caldo. Quando sobe, aĂ­ vem outra onda e vocĂȘ afunda. VocĂȘ sobe ofegante e vem a terceira onda. DĂĄ uma sensação de que vai morrer. Eu respirava pelo canto da boca”, acrescenta, apontando o isolamento social como a Ășnica forma de se vencer o coronavĂ­rus.

“Eu contaminei minha esposa e alguĂ©m me contaminou. Ela passou trĂȘs dias no oxigĂȘnio, com cateter e tomando injeção na barriga, podia ter morrido. As pessoas nĂŁo estĂŁo levando a sĂ©rio a pandemia. A falta de consciĂȘncia e o comportamento das pessoas tornam o vĂ­rus mais perigoso”, avalia.

Livre do coronavĂ­rus, MĂĄrcio AraĂșjo agora espera pelo nascimento da sua quarta filha, Mariana – a previsĂŁo Ă© de que o parto seja em 22 de junho – enquanto busca dar sequĂȘncia aos seus projetos pĂłs-aposentadoria – ele havia deixado as quadras em 2016, tendo realizado um breve retorno antes de parar definitivamente, apĂłs uma etapa do Circuito Brasileiro de VĂŽlei de Praia em JoĂŁo Pessoa (PB), em abril de 2019.

AlĂ©m de dar aulas em uma escola particular de Fortaleza, MĂĄrcio AraĂșjo preside hoje o Instituto Cuca, uma rede de proteção social e oportunidades formada por trĂȘs Centros Urbanos de cultura, arte, ciĂȘncia e esporte, mantidos pela Prefeitura de Fortaleza, atendendo jovens de 15 a 29 anos, principalmente de ĂĄreas de vulnerabilidade, com oferta de cursos, prĂĄticas esportivas, difusĂŁo cultural e produçÔes na ĂĄrea de comunicação.

Sem se afastar do esporte mesmo apĂłs a segunda aposentadoria, sonha em levar uma dupla de vĂŽlei de praia aos Jogos de Paris, em 2024. LĂĄ, espera reviver as emoçÔes de 2008, quando foi ao pĂłdio ao lado de FĂĄbio, para receber a sua medalha de prata. “Passei 14 anos para chegar naquele pĂłdio. Me recuperei da derrota em Atenas, foram muitos obstĂĄculos para chegar lĂĄ. Tudo que vocĂȘ viveu sobe com vocĂȘ no pĂłdio, quem trabalhou ao seu lado, os amigos, a famĂ­lia, os patrocinadores e o estafe”, recorda.

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