Rio Branco, Acre,


O morrer sem o ritual da despedida; confira na atualizada coluna da Samarah Motta

"A pandemia, se não elimina totalmente, mitiga, em muito, rituais de despedida, e a morte fica ainda mais difícil, para quem vai e para quem fica."

O psiquiatra inglês, Colin Murray Parkes, um dos maiores especialistas em luto no mundo, escreveu que “o luto é o preço do amor”. Particularmente, acredito nisso. Trata-se de uma experiência dolorosa, diretamente proporcional ao amor vivido, ou seja, quanto maior é o amor, maior é a dor.

Quem experimenta uma queda livre sabe que é possível uma mão se estender no abismo. Rituais, com a presença de amigos e familiares trazem sensação de paz e quietude. Aliás, rituais ajudam no cuidado das feridas. Mas, como viver o luto em tempos de pandemia, quando não se pode preparar os corpos ou velar os mortos como a cultura determina?

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Os rituais nos ajudam a “domesticar a morte”. Ao escrever sobre o tema, Mary Del Priore noticia que a cabeça de iniciados no candomblé precisa de ritos específicos depois da morte. Afirma que, pela cultura yanomami, se os mortos não passarem por determinados rituais, seu espírito vai e volta, sem descanso. Diz que, para muitas comunidades quilombolas, é essencial que as pessoas sejam enterradas naquele chão. Também segundo Del Priore, rituais fúnebres são cerimônias importantes na África, tanto assim que o enterro dura três dias e, três meses mais tarde, há nova cerimônia de mais três dias e, seis meses depois, outra cerimônia.

Há pouco tempo, os meios de comunicação noticiaram que, em Gana, os funerais são eventos culturais importantes. A profissão do carregador de caixão é comum no país. Homens de terno preto, dançando animadamente, balançam o caixão que carregam sobre os ombros. Essas festas são comuns quando se trata da morte de uma pessoa mais idosa, já que a expectativa de vida lá é inferior a sessenta e três anos.

Quantas tradições apareceram na tentativa de superar o luto, mas também no intuito de manter a memória… Certa vez li que tribos antigas costumavam enterrar flores com seus mortos… A solução vem da dor. Caminhamos, contando nossas histórias, na tentativa de manter conosco as pessoas que tanto amamos e que se foram de perto de nós.

A pandemia, se não elimina totalmente, mitiga, em muito, rituais de despedida, e a morte fica ainda mais difícil, para quem vai e para quem fica. Ficou marcado na minha memória o depoimento de uma médica italiana aos meios de comunicação: uma senhora internada com Covid-19 pediu para ver a neta pela última vez. A dra. Francesca Cortellaro, então, pegou o telefone e conectou avó e neta, em uma chamada de vídeo. Foi assim que nasceu, na Itália, a campanha para que pacientes infectados pelo vírus, em fase de terminalidade, pudessem se despedir dos seus entes queridos.

Despedidas e rituais fúnebres são um direito, não há dúvida. Nesse ponto, não posso deixar de mencionar Antígona, obra clássica de Sófocles, que traz o embate entre direito natural e direito positivo. Antígona, filha incestuosa de Édipo e Jocasta, enfrenta a tirania, opondo-se às razões do Estado, ao cuidar dos despojos do irmão, apesar da determinação do rei Creonte, que proibiu que lhe fosse dado sepultura. Ela diz: “(…) Além disso, eu não acreditava que os éditos humanos tivessem força suficiente para conferirem a um mortal a faculdade de violar as leis divinas, que nunca foram escritas, mas são imutáveis. Não é de hoje nem de ontem que elas vivem: são eternas e ninguém sabe determinar o tempo que foram promulgadas.”

Em tempo de pandemia, a saúde pública tem prioridade e limitações são legítimas. No entanto, dói saber que o corpo morto daquele que tanto amamos é envolto em um plástico e o seu caixão lacrado. No nosso imaginário, o corpo limpo e maquiado volta à vida e, assim, nos despedimos, deixando que a travessia aconteça.

Sem a solenidade da despedida, resta-nos trazer aqui uma expressão muito trabalhada pelos estoicos: Memento mori. Lembremos de que somos mortais, lembremos de que vamos morrer, lembremo-nos da morte. Nesse novo tempo tão exigente, o desafio é ressignificar a morte, repensá-la e elaborá-la, na busca de maneiras de nos conectarmos com os nossos mortos, honrando-os, ainda que sem os ritos da despedida.

Esse excelente texto foi escrito por Maria de Fátima Freire de Sá, Professora de Direito da PUC Minas e Advogada, especialmente para nossa coluna. Para conhecer outras reflexões e dicas de leitura da autora, acesse o instagram: @mariadefatimafreiredesa. Aproveitem a reflexão.

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