O enredo da filiação do vice-governador Major Rocha ao PSL teve final feliz para quase todo o elenco, inclusive para o presidente estadual da sigla, Pedro Valério, que, em razão do posto que ocupa, acabou ganhando um dos papeis de destaque na trama.
Interesses alheios ao PSL local vieram de todos os lados e perturbaram a calmaria vivida pela legenda atĂ© duas semanas atrĂĄs. Partiram, basicamente, de Rocha, do prĂ©-candidato a prefeito de Rio Branco Minoru Kinpara, do PSDB e da presidĂȘncia nacional do partido de ValĂ©rio.
Coube ao dirigente administrar esses interesses, sem deixar de lado o seu papel na trama: o de porta-voz da militĂąncia pesselista. Se ValĂ©rio for o mocinho dessa histĂłria, o enredo concluĂdo nesta quinta-feira (2), com a filiação do ex-tucano Rocha, ganha ares de “Duro de Matar”.

Valério e o deputado federal pesselista Junior Bozzella, de São Paulo / Foto: Cedida
Isso porque o dirigente continua firme e forte no partido e manteve o respeito da militĂąncia que ajudou a formar desde que assumiu a direção da legenda, em março de 2018, no auge da onda bolsonarista. “Antes, o PSL era um partido de aluguel e mal existia”, lembra.
Para apimentar ainda mais a trama, os momentos finais do embate que travou coincidiu com o fim de sua direção Ă frente do partido por questĂ”es estatutĂĄrias. PorĂ©m, ValĂ©rio, que no começo nĂŁo descartou a possibilidade de deixar o PSL diante da filiação de Rocha, nĂŁo sĂł continuou na agremiação como teve sua presidĂȘncia renovada para o sexto mandato consecutivo.
Enredo
Mesmo apĂłs o final feliz, ele mantĂ©m a posição de que foi Major Rocha quem procurou o presidente nacional da sigla, Luciano Bivar, para oferecer sua filiação ao PSL, como disse na live semanal feita no Facebook nesta sexta (3), um dia apĂłs o capĂtulo final.

Luciano Bivar, presidente nacional do PSL / Foto: Arquivo
A ideia de ganhar, do dia pra noite, o vice-governo de um estado, quase que de mĂŁo beijada, foi tentadora demais para Bivar. No dia 23 de junho, o dirigente nacional ligou para o colega de partido e pediu que ouvisse as propostas do major, que tinha pressa.
“A gente se reuniu nessa mesma data e ele queria se filiar no dia seguinte. Adiantei que isso causaria um choque no partido e que precisava ouvir nossa militĂąncia”, informou ValĂ©rio.
Entre a ligação de Bivar pela manhĂŁ e a reuniĂŁo com Rocha Ă noite, ValĂ©rio recebeu, na sede do PSL, a visita de cortesia do prĂ©-candidato do PSDB Ă prefeitura de Rio Branco, Minoru Kinpara. “Ele veio falar da expectativa para abrir diĂĄlogos em busca de uma aliança com a gente”.
Essa aliança acabou concretizada com a ida de Rocha ao PSL dez dias depois. Favorito nas pesquisas de intenção de voto, Kinpara estava isolado em alianças e precisava de apoio. A ajuda não viria dos partidos que formam a base do governo, uma vez que nenhum deles demonstrou intenção de abrir mão de suas pré-candidaturas para formar chapa com o tucano.
O PSL, que jĂĄ havia lançado o empresĂĄrio Fernando Zamora, tambĂ©m nĂŁo abriria. Para que isso acontecesse, seria preciso uma engenharia polĂtica ao estilo de Major Rocha.

Major Rocha: ontem tucano, hoje pesselista / Foto: Arquivo
O ex-militar foi filiado por mais de 12 anos no PSDB e saiu sem romper com o partido. Enquanto tucano, ele conquistou mandatos de deputado estadual, federal e vice-governador. Sua irmã, a deputada federal Mara Rocha, segue na legenda como uma das principais lideranças.
Logo apĂłs a filiação, Rocha ganhou o comando do diretĂłrio municipal do PSL e vai ajudar a definir qual pesselista serĂĄ o vice de Minoru. De acordo com ValĂ©rio, quem estĂĄ no pĂĄreo sĂŁo os empresĂĄrios Fernando Lage e Celestino Bento e o jornalista RogĂ©rio Wenceslau, alĂ©m do coronel Ulysses AraĂșjo, embora este tenha negado pretensĂ”es de se candidatar.
A aliança proporcionou a Minoru mais tempo de televisão e a fatia do PSL do fundo partidårio.
SacrifĂcio
No entanto, o apoio do PSL a Minoru teve um custo em Rio Branco. O pré-candidato Fernando Zamora precisou abdicar e deve deixar a sigla. O empresårio foi o que teve o final infeliz nessa história.

Zamora teve a pré-candidatura implodida / Foto: Arquivo
O pesselista recebeu a notĂcia de que a presidĂȘncia nacional do partido queria a ida de Rocha, seguida do apoio Ă outra prĂ©-candidatura, quando estava lutando pela vida em SĂŁo Paulo. Ele a famĂlia foram acometidos pela covid-19 e o empresĂĄrio precisou se internar na capital paulista.
“NĂłs jĂĄ tĂnhamos nosso prĂ©-candidato e eu nĂŁo poderia jamais ventilar uma aliança com outro sem conversar com o Zamora antes”, lembrou ValĂ©rio. Na live gravada na sexta (3), ele homenageou o colega e disse se tratar de um grande nome, embora reconheça que a prĂ©-candidatura nĂŁo decolou.
Tanto Zamora como os filiados pesselista reprovaram a investida do Major Rocha. Assim que proposta, a filiação do vice-governador foi rechaçada por unanimidade.
Autointitulada ideolĂłgica no campo da direita, a militĂąncia do PSL acusava Minoru de ter veia esquerdista. O ex-reitor da Universidade Federal do Acre (Ufac) jĂĄ foi presidente do PT e candidato derrotado ao senado pela Rede Sustentabilidade, partido criado pela ex-petista Marina Silva.

O “comunista” Minoru Kinpara vai dividir palanque com o partido que elegeu Bolsonaro / Foto: Reprodução
Na semana passada, ValĂ©rio disse que falou para Rocha que sua filiação seria uma honra, mas que o problema eram os desdobramentos. “Somos um partido liberal e conservador. Minoru Ă© uma boa pessoa, mas sua trajetĂłria polĂtica Ă© toda na esquerda. Ele diz que nĂŁo tem mais viĂ©s comunista. Isso pode atĂ© ser verdade, mas as pessoas nĂŁo aceitam isso com facilidade porque sabem que essa transição nĂŁo Ă© tĂŁo rĂĄpida assimâ, disse, na Ă©poca.
Enfim, a paz
A vinda do deputado federal pesselista Junior Bozzella (SP), a mando do presidente nacional Luciano Bivar, acalmou os Ăąnimos de ambos os lados. ApĂłs intenso diĂĄlogo, ficou acordado que Rocha iria para o PSL e ficaria responsĂĄvel pela campanha do partido em Rio Branco.
Valério, como jå dito, se manteve na direção estadual e coordenarå as 14 pré-candidaturas do interior, nove para prefeito e cinco para vice.
“Depois da visita do Bozzella, conversei com o Rocha e encontrei um homem mais sereno, sĂłbrio e ponderado. O diĂĄlogo existe para evitar as guerras. Temos agora um vice-governador e a vinda dele jĂĄ coloca automaticamente o PSL na linha de sucessĂŁo ao governo e com mais força para 2022”, disse o dirigente.

ApĂłs longa novela, Rocha chega ao PSL / Foto: ContilNet
“A paz passou a reinar. Agora Ă© momento de superar as ofensas, limpar o coração e seguir em frente. Seria insano da minha parte me rebelar contra o presidente do meu partido, a quem eu devo muito pela confiança depositada em mim ao longo desses anos todos. O bom senso prevaleceu de ambos os lados. Assunto encerrado”.

