Discurso na ONU Ă© ‘descolado da realidade’, mas prioridade sĂŁo ‘açÔes efetivas’, diz grupo que reĂșne gestores com US$ 100 trilhĂ”es

Por O GLOBO 22/09/2020

A fala de Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira, influencia pouco na percepção de investidores internacionais, “que sabem identificar um discurso polĂ­tico, descolado da realidade” e estĂŁo mais preocupados com “açÔes efetivas”, afirma o representante da maior rede global de gestoras preocupadas com questĂ”es ambientais.   

“(Eles) estĂŁo aguardando açÔes para combate ao desmatamento, que envolve a estruturação dos ĂłrgĂŁos de controle e supervisĂŁo”, explica Marcelo Seraphim, representante no Brasil dos ‘PrincĂ­pios para o Investimento ResponsĂĄvel’ (PRI, na sigla em inglĂȘs), iniciativa global associada Ă  ONU e que reĂșne investidores que cujas carteiras utilizam critĂ©rios de ESG (sigla em inglĂȘs para ambiental, social e governança). 

O PRI surgiu em 2006 com apenas 63 signatĂĄrios, que tinham US$ 6,5 trilhĂ”es sob gestĂŁo. Hoje, a iniciativa reĂșne 3.300 gestores, com US$ 103 trilhĂ”es em ativos. No Brasil, jĂĄ sĂŁo 70 signatĂĄrios. 

Hå um ano, o PRI participou ativamente na coordenação de 230 investidores, com portfólio de US$ 16,2 trilhÔes, que emitiram comunicado conjunto pressionando empresas investidas a implementar políticas contra o desmatamento no Brasil. Mais recentemente, a iniciativa acompanhou o movimento de gestores globais que pressionaram o governo sobre a questão ambiental. [Foto de capa: Victor Moriyama/AFP]

Como evoluiu a percepção dos investidores estrangeiros sobre a política ambiental brasileira desde aquela carta em junho? 

Em termos prĂĄticos, esse diĂĄlogo sĂł começou. Iniciou entre julho e agosto, tanto com o vice-presidente, Hamilton MourĂŁo, como com o presidente da CĂąmara dos Deputados, Rodrigo Maia. EntĂŁo, foi sĂł o inĂ­cio. Mas, infelizmente, tambĂ©m por uma conjunção de fatores, nĂŁo temos visto avanços. Como o tempo foi muito curto, nĂŁo sabemos o quanto foi pela severidade da seca, e quanto foi por negligĂȘncia dos ĂłrgĂŁos de fiscalização. EntĂŁo, o tempo ainda Ă© curto para os investidores poderem afirmar se foi feita alguma coisa para melhorar a situação. 

Mas hå um cronograma acordado? 

Os investidores devem fazer uma reuniĂŁo de “follow-up” atĂ© o fim do ano com membros do governo, e, atĂ© lĂĄ, eles vĂŁo ter um pouco mais de tempo para avaliar melhor essas questĂ”es. Agora, do ponto de vista prĂĄtico, de atuação do Estado, tivemos um anĂșncio muito importante do Banco Central. Eles anunciaram uma agenda de sustentabilidade que, atĂ© 2022, vai passar a exigir das instituiçÔes financeiras a divulgação dos impactos financeiros das mudanças climĂĄticas, a inclusĂŁo de testes de estresse para avaliar o quanto o mercado pode ser atingido por essas questĂ”es
 Logo, teve esse ponto positivo do Estado brasileiro. As coisas positivas sempre vĂȘm do Estado mesmo
 Mas, do governo brasileiro, sempre sĂŁo essas coisas no mĂ­nimo polĂȘmicas, como foi o discurso do presidente hoje.

Sobre o discurso, Bolsonaro disse que o Brasil Ă© “vĂ­tima” de uma “campanha de desinformação brutal”. Como os investidores receberam essa reação? Ela atrapalha o diĂĄlogo?     

Sinceramente, eu acho que nĂŁo. Porque Ă© um discurso polĂ­tico, descolado da realidade. E os investidores sabem identificar isso. Eles estĂŁo mais preocupados com açÔes efetivas que sĂł vĂŁo ser verificadas no mĂ©dio prazo. Por exemplo, os investidores valorizaram a agenda do BC. Embora nĂŁo seja diretamente ligada ao combate ao desmatamento, porque Ă© uma ação muito mais de fomento ao investimento responsĂĄvel, ela foi vista com muito bons olhos
 Agora, estĂŁo aguardando açÔes para combate ao desmatamento, que envolve a estruturação dos ĂłrgĂŁos de controle e supervisĂŁo. AtĂ© mesmo porque parece que a atuação do ExĂ©rcito nĂŁo teve muito sucesso.

Como as queimadas no Pantanal e no Cerrado influenciam a pressão dos investidores? 

Os Ășltimos acontecimentos, tanto no Pantanal como no Cerrado, fizeram com que a atuação dos investidores passasse a ser mais abrangente. Antes, a pressĂŁo dos investidores, embora tambĂ©m citasse o Cerrado, estava muito mais concentrada na AmazĂŽnia. Eles estĂŁo colocando esses dois biomas adicionalmente para tambĂ©m fazer com que a atuação seja mais efetiva e abrangente. Com certeza, isso serviu para expandir o escopo da pressĂŁo dos investidores. 

Foi a pressão vinda de fora que motivou ação semelhante vindo de bancos locais?

Eu diria que a atuação dos investidores chamou a atenção de alguns players locais. E vocĂȘ vai ver esses players locais cada vez mais atuantes daqui pra frente. NĂŁo posso abrir a relação dos investidores que estĂŁo participando desse movimento dos investidores que começou na Europa, mas vocĂȘ vai ver instituiçÔes grandes (locais) participando dele tambĂ©m. AtĂ© para servirem de interlocução entre instituiçÔes estrangeiras, tratando de assuntos que tĂȘm obviamente interesse nacional. VocĂȘ vai ver mais adesĂŁo de instituiçÔes locais nessa agenda.

Eles vão assinar aquela carta, então? 

O mais importante nĂŁo Ă© exatamente a carta, mas, sim, o diĂĄlogo que foi aberto, o projeto de engajamento com o governo. NĂŁo foi uma coisa estanque. Desencadeou um projeto para atuação mais efetiva dos investidores, incluindo os locais, com o governo brasileiro para avançar de maneira propositiva e tirar esse ranço de, como foi visto por alguns, ameaça de boicote. Isso tem que ser retirado da conversa agora. A intenção realmente Ă© que sejam implementadas medidas para combater o desmatamento. Essa visĂŁo de boicotar, de sair do paĂ­s em termos de investimento, Ă© uma escolha individual de cada investidor. Eles tĂȘm os seus valores, os seus critĂ©rios. LĂĄ na frente, se virem que esse engajamento nĂŁo deu resultado e continua deixando os investimentos arriscados, eles poderĂŁo tomar essa decisĂŁo. Mas nĂŁo se fala disso durante esse processo de engajamento.

Logo, ninguém quer banir o Brasil, apenas algumas açÔes específicas, como houve recentemente? 

Exato. Não existe esse movimento conjunto de investidores em relação a isso. Nesse momento, pelo menos, eu não vejo isso. 

A preocupação ambiental estĂĄ pesando na saĂ­da lĂ­quida de investidores estrangeiros de tĂ­tulos pĂșblicos e açÔes brasileiras no ano?

Sim, porque as questÔes de ESG são componentes do risco de qualquer investidor. Então, de alguma maneira, isso pesa nas decisÔes. Mas não podemos esquecer que acabamos de sair de uma crise aguda e isso também impactou na decisão dos investidores de procurarem economias e moedas mais eståveis. 

A condução da pandemia pelo governo, também alvo de críticas, influencia na percepção desses investidores que jå estavam atentos ao risco ambiental?   

A postura dessa administração não ajudou a diminuir a percepção de risco do investidor estrangeiro. Se tivesse havido uma coordenação entre o governo central e os estados e municípios, essa coesão que era esperada na pandemia, isso obviamente traria um ambiente de negócios muito mais propício. Então, obviamente, isso não ajudou.

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