Era meu Ășltimo dia fotografando as queimadas no Pantanal. Saio para pegar o ĂŽnibus quase acostumado com o cheiro de fumaça impregnado na roupa, o gosto amargo na boca, os olhos vermelhos e lacrimejando. Ignoro a ardĂȘncia nos olhos para mantĂȘ-los abertos; fico em vigĂlia, atento, cĂąmara na mĂŁo.
Do lado de fora, vejo a calamidade. Perto de PoconĂ© (MT), focos de incĂȘndio. A fumaça e velocidade do ĂŽnibus atrapalham, mas aperto o olhar e avisto uma cena brutal. O corpo duro e sem vida de uma jaguatirica. Grito para pararem o ĂŽnibus e desço para fotografar. O ar Ă© pesado. Os olhos do animal brancos e a lĂngua de fora, como se tivesse tentado sorver o pouco que ainda resta do ar do Pantanal.
O motorista aparece ao meu lado, e falamos baixo, como que em luto. Ele diz que ela não foi atropelada. Morreu fugindo. Me abaixo no asfalto escolhendo um ùngulo que mostre a quantidade de fumaça no caminho que ainda vou seguir. Clico o filhote tentando não mostrar toda a brutalidade que a morte impÎs naquele animal tão belo. Eu nunca tinha visto uma jaguatirica. Ainda não vi.

Ninguém quer ver a morte que o fogo traz para o Pantanal tão de perto assim. Eu vi. Vi o fogo e o fim de tudo em um dos biomas mais ricos e lindos do planeta.
Quando cheguei em PoconĂ©, perto da meia noite, a cidade estava envolta na penumbra. A fumaça era tĂŁo pesada que acreditei ser a nĂ©voa da madrugada. NĂŁo era. Era o efeito causado pelos mais de 2 milhĂ”es de hectares que estavam em chamas no Pantanal. VĂĄrzea Grande e CuiabĂĄ tambĂ©m sentem o impacto da queimada criminosa e covarde. Vi como o agronegĂłcio abre pasto com gasolina e diesel. Fazendeiros apressados em passar a boiada com a chancela do governo federal e do Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Quantos genocĂdios mais sĂŁo possĂveis na nossa nação? O Pantanal Ă© sĂł mais um crime impune na lista interminĂĄvel dessa administração.
No meio de uma tarde de 43ÂșC e da fumaça sem fim em BarĂŁo de Melgaço (MT), os bombeiros e brigadistas olham o fogo, impotentes. Um dos brigadistas, com a pĂĄ na mĂŁo, Ă© âseuâ Crovis. Ele diz que o fogo tem raiva. Pula de um lado para o outro. EstĂĄ vivo. Ele olha para o caminho sem fim, escondido pela fumaça e avisa que nĂŁo dĂĄ pra fazer nada alĂ©m de esperar. Encosta no caminhĂŁo-pipa ao seu lado, que estĂĄ vazio, e toma seu tererĂȘ.
O fogo consome tudo ao redor e o barulho Ă© assustador. Os bombeiros â sĂŁo cinco no local â usam um drone para avaliar a situação. Mas a conclusĂŁo Ă© a mesma: nĂŁo hĂĄ nada a ser feito. Ă esperar o fogo se cansar do mato e desaparecer debaixo da terra.

O ecoturismo Ă© forte na regiĂŁo, que tem como atração espĂ©cies endĂȘmicas como a arara azul do Pantanal e o cervo pantaneiro. Mas o ecoturismo esbarra no agronegĂłcio e na abertura de pasto para a boiada. Ă preciso expandir a ĂĄrea do gado. E os brigadistas, inconformados, me contam que, para isso, fazendeiros ordenam que se use o fogo em nas ĂĄreas secas com solo rico em metano e matĂ©ria orgĂąnica. Ă o fogo da ganĂąncia. Destruição, pra essa gente, Ă© sinĂŽnimo de progresso.
Patas queimadas e morte
Cansados de ver os animais sofrendo, guias turĂsticos, biĂłlogos e veterinĂĄrios locais se uniram para tentar salvĂĄ-los. Um dos resgates foi de uma onça pintada, transferida para GoiĂĄs. Eu acompanho o grupo, que me explica que a desidratação â por conta da seca e da falta de ĂĄgua em riachos e lagoas â, a fumaça e o fogo deixam os animais desorientados, fazendo com que passem por ĂĄreas em brasa. Com as patas queimadas e morrendo de sede, esses animais sucumbem ao choque da dor. E, sem conseguir se locomover, morrem.

Os voluntårios também saem diariamente para deixar recipientes com ågua em vårios pontos de rio seco e da mata. Falta ågua. Falta chuva. E, ficou claro para mim, falta humanidade no Pantanal.
Ă noite, de volta ao Sesc Pantanal, onde fiquei hospedado, escuto a conversa na mesa ao lado da minha no refeitĂłrio. Um dos militares, tambĂ©m alojado ali, nĂŁo consegue segurar sua revolta e raiva ao comentar o ministro Salles pretendia bloquear a verba destinada para a batalha contra as queimadas na regiĂŁo pantaneira alĂ©m da AmazĂŽnia. âEle se precipitou, pĂŽ.â

Um desgoverno que brinca com os nervos de quem vĂȘ a morte todos os dias e vai dormir sabendo que, no dia seguinte, pode ser pego na mudança de direção do fogo e morrer queimado. Foi o caso do Wellington Fernando Peres Silva, brigadista do ICMBio que teve 80% do corpo queimado em uma ação contra os incĂȘndios do Parque Nacional das Emas (GO).
O que Salles e o governo federal não entenderam é que igual a mim existem muitos na região. Moradores, fotógrafos e jornalistas que testemunharam tudo. Viram o que a boiada representa. Gente que sentiu o fogo de perto e respirou diariamente o ar esfumaçado e doente da Transpantaneira. Gente que rezou para ver uma onça ou jaguatirica vivas, mas que, em vez disso, tiveram de se deitar na estrada ao lado de um corpo gelado para mostrar ao mundo o que a boiada faz quando passa. Ela queima.



