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Pantanal: relatos de fotógrafos mostram drama

Por O GLOBO

Enquanto os povos indígenas ainda se recuperavam do baque da pandemia da Covid-19, o cineasta Tukumã Kuikuro viu de perto e documentou a dimensão da destruição do fogo que assola o Pantanal brasileiro e o abandono de índios Xingu pelo poder público. O jornalista Yan Boechat precisou correr de labaredas para não ficar preso durante sua cobertura.

O fotodocumentarista João Paulo Guimarães, que também foi surpreendido pelas chamas, descreve o que chamou de “inferno”. E o fotógrafo Gustavo Basso, que nunca viu queimadas com a proporção das que devastam a região, comove-se com a morte de animais.

CRÔNICA DA TRAGÉDIA PANTANEIRA

Voluntários participam do resgate de uma anta de 200 quilos com as pernas queimadas. Além do clique, o fotógrafo Gustavo Basso participou do resgate Foto: Gustavo Basso / Agência O Globo
Segundo o Ibama, ao menos 2,9 milhões de hectares do Pantanal foram queimados em 2020, o equivalente a 19 vezes a área da cidade de São Paulo Foto: Gustavo Basso / Agência O Globo
O Pantanal, um dos principais biomas do Brasil, tem sido devastado pelas chamas Foto: João Paulo Guimarães / Agência O Globo
Incêndo no Pantanal, na região do município de Poconé, no Mato Grosso Foto: João Paulo Guimarães / Agência O Globo
Gustavo Basso, fotógrafo que já cobriu queimadas na Amazônia, diz não viu nada semelhante aos incêndios que arrasam o Pantanal Foto: Gustavo Basso / Agência O Globo
Animal resgatado das queimadas em Poconé (MT) em meio às chamas Foto: João Paulo Guimarães / Agência O Globo
“No Pantanal, há o tempo todo a sensação de que alguma coisa pode dar errado. É o fim do mundo, o inferno. Tive medo de morrer”, relata o fotógrafo João Paulo Guimarães Foto: João Paulo Guimarães / Agência O Globo
Grupo de voluntários composto por veterinários e biólogos trabalha para resgatar animais feridos pelos incêndios no Pantanal e amenizar os efeitos da seca e falta d’água Foto: Gustavo Basso / Agência O Globo
Voluntário com onça tatuada no antebraço mostra as marcas do combate às chamas Foto: João Paulo Guimarães / Agência O Globo
Bombeiros do Mato Grosso se preparam para enfrentar as chamas em Poconé (MT) Foto: João Paulo Guimarães / Agência O Globo

 

Esses são alguns dos relatos colhidos pelo GLOBO de profissionais que acompanharam a devastação de um dos principais biomas brasileiros na linha de frente da tragédia.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), ao menos 2,9 milhões de hectares do Pantanal foram destruídos pelas queimadas, mais do que o dobro da área devastada pelos incêndios florestais na Califórnia (EUA). O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) detectou 15.756 focos de incêndio de janeiro até setembro, o maior índice desde que os números começaram a ser compilados.

Boechat, que já cobriu o conflito entre a Ucrânia e os rebeldes pró-Rússia no país do Leste Europeu, compara o cenário de terra arrasada com o de uma guerra.

— Em vários momentos me senti na Ucrânia, onde usaram bombas incendiárias. Fiquei muito impressionado com a destruição massiva do meio ambiente, completamente devastado. Parecia uma cena de guerra. Pontes destruídas, tudo ressecado, e aquele céu laranja — descreve o jornalista. — O fogo avança em uma velocidade impressionante. O som lembra uma tempestade. E são focos espalhados. Fiz um sobrevoo e você vê pontos muito diversos. Não é homogêneo.

Tukumã, do povo Kuikuro, visitava seu pai em uma aldeia do Alto Xingu quando conheceu brigadistas acampados que combatiam as chamas. O fogo, lembra o cineasta, já atingiu aldeias no Baixo Xingu e ameaça não só indígenas como recursos naturais e animais essenciais para a subsistência destes povos.

— No meio da pandemia as pessoas estão passando mal. Mesmo sem estar doente, você não consegue enxergar e respirar direito, os olhos ficam ardendo — relata Takumã, que organizou uma campanha de arrecadação para ampliar o trabalho dos brigadistas na ausência das autoridades brasileiras. — É preciso colaborar. O ecossistema está pedindo socorro, o mundo está cada vez mais quente. E é importante registrar. Dentro da linguagem cinematográfica, temos que construir a narrativa. Que eu possa um dia mostrar em festivais nacionais e internacionais como isso aconteceu no Xingu e como as pessoas reagiram.

O senso de urgência também mobilizou o fotodocumentarista João Paulo Guimarães, baseado no Pará.  — Eu vi as imagens do fogo em um grupo pensei: não posso ficar parado em casa — disse Guimarães. — Já fotografei na Antártica, um lugar perigoso, extremo. No Pantanal,  há o tempo todo a sensação de que alguma coisa pode dar errado. É o fim do mundo, o inferno.  Fiquei com medo de morrer.

Gustavo Basso, fotógrafo que já cobriu queimadas na Floresta Amazônica, relata que jamais viu algo igual aos incêndios que arrasam o Pantanal. Ele acompanhou de perto outro drama da tragédia: os animais.

— Estávamos em um ponto no qual sabia que o fogo vinha na direção por conta do vento. Os animais gritavam, pássaros cantavam. Não sou biólogo, mas parecia um aviso. Quando o fogo chega perto, parece uma onda. Ele engolfa tudo e o cenário fica vermelho — descreve. —  O calor que você sente é surreal. Você entende o pavor dos animais, que não entendem o que está acontecendo.

‘Ver um animal morto é muito triste’

Outro episódio que chocou o jornalista e fotógrafo foi o resgate de uma anta ferida.   — Quando avaliaram a situação dela, descobriram que a pata estava queimada até o osso e a falange estava exposta. Me coloquei naquela situação e dá aflição só de pensar. E, mesmo assim, ela estava tentando fugir — diz Basso.

Boechat acredita que o fogo terá grande impacto na fauna do Pantanal:

— Ver um animal morto é muito triste. Eu vi jacaré, anta, veado, capivara e encontrei uma onça bem ferida. Será uma destruição impactante na fauna.

Guimarães se deparou com uma jaguatirica morta na beira da estrada enquanto voltava para um hotel depois de registrar as chamas.

— Aquilo para mim foi como uma pessoa morta. É um ser vivo. Foi pesado, brutal. Os animais estão sucumbindo de forma muito rápida — alerta o fotodocumentarista.

Basso lembra que estradas acabam funcionando como aceiros, ou seja, terrenos que interrompem a cobertura da vegetação e servem como “corta-fogo”. Por isso, muitos animais podem acabar como vítimas indiretas na fuga das chamas:

—  Vi muitos animais mortos. Toda estrada que você passa tem. Mas não se sabe se morreu atropelado, desidratado, mas as a estrada acaba sendo um refúgio para eles.

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