Em sua obra de maior sucesso, Ziraldo traçou o perfil de uma criança criativa e indomável, que com muita graça dribla as convenções, o pessimismo e a monotonia. Mas, como o próprio autor diz no livro, houve algo de que o moleque, com sua indefectível panela-chapéu, não conseguiu se desviar: o tempo. Ainda assim, 40 anos depois do lançamento da primeira edição de “O Menino Maluquinho”, numa Bienal do Livro de São Paulo, o garoto segue esbanjando energia.
A primeira tiragem sumiu das prateleiras em quatro meses. Desde então, só no Brasil, foram 129 edições e quatro milhões de exemplares vendidos — a história chegou a mais de dez países —, com fãs ilustres como Carlos Drummond de Andrade, confesso maluquinher (Ziraldo, aliás, ilustrava as colunas do poeta no “Jornal do Brasil”). O moleque ganhou ainda adaptações para cinema, teatro, ópera e histórias em quadrinhos. E ainda vai virar um longa de animação, da produtora Chatrone, previsto para estrear no primeiro semestre de 2021 na Netflix.
Quarentão, o Maluquinho se mantém como ícone pop no Brasil e alhures, como demonstra a edição comemorativa que a Melhoramentos acaba de lançar (120 páginas, R$ 59,90). Com capa dura e acabamento cartonado, ela traz a história original que influenciou diversas gerações de crianças, e também relíquias e curiosidades. Recupera os primeiros esboços do Maluquinho e mostra como ele chegou a culturas tão distantes quanto o Japão e a Coreia do Sul. Prestes a completar 88 anos no próximo dia 24, Ziraldo vê a publicação como um “item de colecionador”, e aponta que não vai parar por aí.
— O Menino Maluquinho está se reinventando e virando multiplataforma — diz o autor mineiro, nascido em Caratinga. — Terá um retorno ao vídeo, agora via Netflix. Vêm aí novidades tanto em livro quanto em audiolivro. Vamos trazer mais contemporaneidade para o personagem, convidando uma nova geração de autores para interagir com o Menino Maluquinho. Desse movimento, virão novas leituras.
Primeiro esboço de Ziraldo para o Menino Maluquinho, que completa 40 anos [Foto: Rodrigo Lopes/Divulgação]
— Acredito que o Maluquinho teve esse alcance durante tanto tempo por despertar identificação nos leitores — diz Ziraldo. —As crianças olham para o personagem e pensam: “Opa, isso é comigo”, ou “eu sei o que ele está sentindo”. Acho que o principal é fazer as crianças se emocionarem e verem isso como uma coisa boa.
A pandemia atrapalhou as homenagens ao Maluquinho, que incluíam uma exposição este ano, além de um lançamento cheio de pompa na 1ª Feira Literária de Tiradentes (o evento foi postergado para novembro). Parte da pesquisa para a exposição, porém, está contemplada no livro novo.
Capa japonesa para ‘O Menino Maluquinho’ [Foto: Divulgação]
— Com o tempo, fomos vendo a preciosidade do que havia em seu estúdio na Lagoa — diz Adriana Lins, sobrinha do cartunista que trabalha na catalogação junto com uma equipe de pesquisadores. — Havia todo um pulsar de criatividade que estava para se perder. O estúdio tinha infiltrações, e alguns desenhos estavam amarelando ou se apagando… Na nova edição do Maluquinho, aproveitamos muito desse material em um caderno extra de curiosidades. Tem desenhos originais feitos a lápis, como a primeira versão do personagem bebê — destaca.
O cartunista Ziraldo, que completa 88 anos em outubro de 2020, por ele mesmo [Foto: Divulgação]
— Sentimentos não mudam, e se você faz uma história interessante as crianças vão se ligar, não importa a tecnologia — conta. — Elas são muito tecnológicas, mas acredito que os livros sempre serão importantes, têm um valor único para cada momento e época da vida.
Universal e atemporal, segundo Ziraldo, Maluquinho abraça a meia-idade também como uma figura “política”.
— Eu já disse um dia que não se deve fazer civismo com a literatura infantil, dar lição de moral, tornar o livro útil, porque a criança vai detestar o ato de ler — diz Ziraldo. — Mas veja que o Maluquinho é um menino que vive em liberdade e alegria, sendo amado do jeito que é. Acho isso muito político. [Foto de capa: DIvulgação]

