O ministro da Economia, Paulo Guedes, teve de entrar diretamente na celeuma que envolve o bloqueio de recursos para Ministério do Meio Ambiente e se comprometeu a dar uma solução para o problema nesta sexta-feira, 23.
Na quinta-feira, conforme apurou o EstadĂŁo, Guedes teve uma reuniĂŁo a portas fechadas com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o secretĂĄrio do Tesouro Nacional, Bruno Funchal, e o secretĂĄrio especial de Fazenda, Waldery Rodrigues.
Foram quase duas horas de conversa sobre o assunto. Após a reunião, no fim da noite, Guedes entrou em contato com Salles e prometeu dar uma solução ao imbróglio financeiro ainda hoje.
O compromisso é de liberar uma parcela de R$ 60 milhÔes para o MMA, de um total de R$ 134 milhÔes que foram retidos pelo Ministério da Economia.
Na noite de quarta-feira, 21, Salles e o Ibama ordenaram a paralisação imediata do trabalho de 1.400 agentes de combate aos incĂȘndios que estavam em campo, por causa da falta de recursos e dĂvidas acumuladas.
O gesto, que pegou o governo de surpresa, foi uma resposta Ă s negativas que o MMA vinha recebendo desde agosto, em relação aos pedidos de recomposição do teto orçamentĂĄrio que tinha no inĂcio do ano.
Ontem, o MMA chegou a fazer o remanejamento de seus prĂłprio orçamento, liberando R$ 16 milhĂ”es para o Ibama pagar parte de suas dĂvidas e, assim, retomar o trabalho dos agentes em campo.
Havia previsĂŁo de que esse recurso fosse dividido, para pagar contas em aberto do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), mas o saldo acabou sendo concentrado no Ibama, neste momento.
Em resposta enviada Ă reportagem ontem, o Tesouro Nacional chegou a declarar que “o Ibama nĂŁo tem nenhum valor bloqueado, dado que, devido Ă pandemia” nĂŁo houve contingenciamento em 2020.
“NĂŁo hĂĄ qualquer dificuldade de liberação financeiro junto ao Tesouro Nacional; todos os valores aprovados legalmente sĂŁo imediatamente liberados seguindo os normativos legais”, declarou.
O Tesouro ressaltou ainda que o Ibama “Ă© tratado como ĂłrgĂŁo vinculado ao MMA, portanto as prioridades de pagamento e escolhas de execução financeira passam por esse MinistĂ©rio”, e nĂŁo pelo Tesouro.
A intervenção de Paulo Guedes procura amainar os ùnimos e dar uma solução para o imbróglio financeiro. Conforme revelou o Estadão, o Ibama e o ICMBio estão com contas de serviços båsicos com atrasos que chegam a mais de 90 dias.
HĂĄ faturas em aberto de contratos de manutenção predial, contas de luz, abastecimento de veĂculos e aluguĂ©is de aeronaves. Na superintendĂȘncia do Ibama no Rio Grande do Sul, a energia chegou a ser cortada nesta semana.
No Ibama, o rombo acumulado jĂĄ chega a mais de R$ 16 milhĂ”es. No ICMBio, as contas em aberto somam mais de R$ 8 milhĂ”es. SĂŁo aproximadamente R$ 25 milhĂ”es em dĂvidas.
Neste ano, o orçamento total previsto para a pasta foi de R$ 563 milhÔes. O Ministério da Economia, porém, cortou uma cifra de R$ 230 milhÔes desses recursos, para fazer caixa para o governo.
Em agosto, apĂłs Salles ameaçar de paralisar as operaçÔes de combate a incĂȘndios e desmatamentos por causa da falta de verba, o governo liberou uma parte desses recursos, colocando R$ 96 milhĂ”es na conta do MMA.
Os demais R$ 134 milhÔes faltantes não foram autorizados.
Em ofĂcio do dia 28 de setembro, ao qual o EstadĂŁo teve acesso, o SecretĂĄrio do Tesouro Nacional, Bruno Funchal, responde a um pedido de recomposição financeira do Ibama, informando que o “pleito foi apreciado no Ăąmbito da ReuniĂŁo OrdinĂĄria da Junta de Execução OrçamentĂĄria de setembro, realizada em 21/09/2020, nĂŁo tendo sido aprovado na ocasiĂŁo”.
Na prĂĄtica, isso significa que os recursos existem, mas estĂŁo bloqueados pelo prĂłprio governo, sob o argumento de que Ă© preciso poupar o caixa.
A posição do MinistĂ©rio da Economia impede, ainda, que o Ibama utilize recursos que poderiam ser sacados do Fundo AmazĂŽnia, programa financiado pela Alemanha e a Noruega, porque esses valores tambĂ©m romperiam o teto de gastos, a regra que impede que as despesas cresçam em ritmo superior Ă inflação. Ou seja, hĂĄ dinheiro disponĂvel, mas a norma constitucional trava a sua execução.
O programa Profisc 1 tem justamente a função de “apoiar as atividades do Ibama de fiscalização ambiental e controle do desmatamento na AmazĂŽnia Legal”. Aprovado em abril de 2018, ele tem validade atĂ© abril de 2021.
Com R$ 140 milhÔes liberados para uso, o Ibama usou somente R$ 77 milhÔes até hoje e, neste ano, apenas R$ 10,2 milhÔes foram sacados em julho. Nenhum novo acesso ao recurso foi solicitado pelo Ibama.
