Rio Branco, Acre,


Morre, aos 75 anos, Jandira Gonçalves, a primeira radialista de Sena Madureira

Jandira Gonçalves da Silva foi a pioneira com ‘A Voz da Cidade’, sucesso da Praça 25 de Setembro

Sena Madureira perdeu nas últimas horas uma de suas figuras históricas, Dona Jandira, a primeira radialista do município. A causa da morte ainda não foi comunicada pela família.

O sistema de alto-falantes “A Voz da Cidade”, comandado por ela, animava as noitadas dos sena-madureirenses nos anos de 1970.

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No ano passado, em alusão ao Dia da Mulher, o ContilNet publicou uma reportagem especial sobre a vida e o legado de Jandira e, como forma de homenagem, reproduz o texto na íntegra.

Leia a seguir:

Jandira Gonçalves, a fundadora do “Voz da Cidade” e primeira radialista de Sena Madureira

A história do município de Sena Madureira nos revela grandes mulheres que fizeram de suas vidas um palco de lutas em busca de uma sociedade mais fraterna, humana, justa, solidária e, sobretudo, livre de qualquer discriminação.

Essas mulheres guerreiras nos mostraram que é possível uma sociedade com mais oportunidades e direitos iguais. As lutas são constantes em busca de um espaço. Por isso, neste 08 de março celebramos as conquistas adquiridas diariamente pelas mulheres.

Entre tantas pessoas marcantes na sociedade senamadureirense, o portal ContilNet conta um pouco da história da senhora Jandira Gonçalves da Silva, uma das principais incentivadoras e pioneiras da comunicação no Vale do Iaco.

Jandira Gonçalves da Silva/Foto: Cedida

Nascida em Sena Madureira, em 14 de julho de 1945, Jandira Gonçalves da Silva, é filha do casal Francisca Gonçalves de Oliveira, natural de Boca do Acre, e Artur Alves de Carvalho, natural de São Paulo. Jandira teve oito irmãos, sendo eles: Nazaré, João, Rita, Nonato, Jacira, Juraci, José e Conceição Gonçalves.

Sua infância foi marcada pela educação no Instituto Santa Juliana, onde na época foi interna na companhia da sua irmã, Conceição Gonçalves. De acordo com relatos de uma das filhas de Jandira, Leila Maria Gonçalves da Silva, a mãe conseguiu uma vaga na escola graças aos serviços de lavadeira de sua vó, Francisca Gonçalves, e nesse período foi bem acolhida pelas freiras.

“A mãe Jandira não tinha idade para ser interna, mas como a sua irmã Conceição tinha idade exigida, as irmãs permitiram, pois Conceição seria sua responsável, e também porque a vó lavava as roupas das internas e das freiras para sustentar a família”, comentou.

Após um período de cinco anos em Rio Branco, Jandira retornou ao município e logo após conheceu o senhor Floriano José da Silva, por meio da professora Maria do Carmo Rocha, mas conhecido por ‘Tata’.

Casamento de Floriano e Jandira/Foto: Cedida

“A Jandira morava na residência do casal Mirian e Agnaldo Chaves, através da Tata e Zacarias, irmão da Mirian, eu conheci a Jandira. Eles nos deixaram sozinhos no primeiro encontro, passamos 20 minutos sem falar uma palavra, pois na época ninguém sabia o que era namorar. Aos poucos fomos se conhecendo, e falamos para os nossos pais sobre o casamento, e até hoje estamos casados”, conta o esposo Floriano.

O casamento foi realizado em 1962 e resultou em uma família com oito filhos, sendo eles: Leila Maria Gonçalves da Silva, Floriano José da Silva Filho, Silvana Maria, Arthuriete, José Arthur, João Vandeberg e Wânderlandia Gonçalves da Silva.

Ao lado do esposo, Jandira iniciou seus passos como apresentadora na rádio ‘A Voz da Cidade’, onde recebiam até cartas de Mogi das Cruzes, em São Paulo. De acordo com o esposo, a rádio iniciou devido ao isolamento do bairro onde viviam, que não possuía rua nem pavimentação, e então foi criado o primeiro serviço com o nome ‘A Voz Suburbana’, o casal se mudou para o centro da cidade e criou a novo nome ‘A Voz da Cidade’.

“Quando comprei aquele terreno em frente à Praça 25 de Setembro, iniciamos o trabalho da rádio ‘A Voz da Cidade’, a rádio animou muito Sena Madureira, até hoje recebo pedidos para o retorno da rádio”, relatou o senhor Floriano.

Segundo Floriano, a estrutura era feita com autofalantes e um projetor de som fixado em um poste de madeira. Floriano ainda sonha com o retorna da extinta ‘Voz da Cidade’: “A programação tinha as mensagens dos seringais, da cidade e tinha as melodias [músicas], e funcionava até 23h. Tenho fé em Deus retornar a rádio com o mesmo nome e ser aceito pela nova geração”, comentou o radialista.

Voz feminina ganha seu espaço

Jandira foi uma das pioneiras, dando início à programação da rádio ‘A Voz da Cidade’. De acordo com a filha Leila, o pai já tinha o serviço de alto-falante, mas sua mãe que criou a programação e iniciou a apresentação local. “O pai tinha o serviço de autofalante, mas só tocava música, quando eles casaram, a mãe começou a falar na rádio, começou a colocar as melodias, inventou as mensagens, dando um toque sofisticado à rádio”.

Jandira foi uma das pioneiras, dando início à programação da rádio ‘A Voz da Cidade’/Foto: Cedida

O esposo disse que Jandira criou toda programação da rádio. No começo Jandira inventada as famosas mensagens para atrair a atenção da população. Bastante criativa, a radialista usava as inicias de pessoas e oferecia músicas da época. A população começou a achar interessante e começaram a fazer pedidos de músicas apaixonadas e dedicavam aos companheiros. Os amigos também aproveitaram o embalo para tornar o momento de distração com músicas engraçadas dedicadas à turma reunida na Praça 25 de Setembro nas décadas de 60 e 70.

Ela também desenvolveu atividades comunitárias quando esteve à frente da rádio A Voz da Cidade. Trabalhado na divulgação de notas oficiais de instituições como Incra e Emater, além de divulgação dos mesários e presidentes de seção durante o período eleitoral.

Na década de 70, Jandira noticiou para a comunidade um grande incêndio no município de Brasiléia. Através da rádio, o Corpo de Bombeiros ouviu e se dirigiu até ao local do incêndio. Também abria o espaço para os ribeirinhos que não tinham condições financeiras para usar o espaço com o envio de mensagens.

Jandira na Voz da Cidade/Foto: Cedida

A rádio A Voz da Cidade foi parceira do ex-prefeito José Nogueira Sobrinho, onde os radialistas ajudavam na divulgação dos trabalhos da gestão. “Ele ajudava nos custos financeiros, recordo que a nossa bobina da ‘curica’, que chamam de autofalante, pifou, ele viajou e trouxe uma novinha, foi um apoio e incentivo para a rádio continuar com seus trabalhos”, comentou o esposo de Jandira.

A Voz da Cidade era a alegria da população de Sena, momentos marcantes aconteceram e fatos históricos em sua existência, dentre ele as programações do aniversário da cidade, onde a rádio transmitia o programa ‘Alvorada Musical’, também as solenidades comemorativas, além da conexão com o programa ‘A Voz do Brasil’.

Além disso, a rádio recebeu o senador Mario Maia, que sempre vinha ao município. A morte do ex-prefeito José Nogueira Sobrinho também foi uma das notícias marcantes na história dos apresentadores Jandira e Floriano.

A fé Católica e a parceria com o Padre Paulino

Bastante religiosa, Jandira segue a religião católica, onde esteve à frente do grupo dos anjinhos, no período de 1978 até 2006. Também participou ativamente do grupo Apostolado da Oração. Por motivos de enfermidades, passou os trabalhos do grupo dos anjinhos para sua filha Leila Gonçalves, que assumiu no ano de 2007 e segue até hoje à frente do grupo infantil.

Jandira em uma fala na coroação no mês de Maio na Igreja Católica/Foto: Cedida

Jandira e Padre Paulino Baldassari eram bastantes amigos, Paulino apresentava o programa ‘Ave Maria’ na rádio A Voz da Cidade. O vínculo de amigos sempre levou Paulino à residência do casal, e em umas das ocasiões o Padre se ofereceu para ser padrinho. “O nome da Arturiete foi a homenagem ao nosso vó Athur e também ao pai do Padre Paulino, que tinha acabado de falecer, a mãe fez uma junção e criou o nome. Paulino fez questão de ser padrinho. Nós consideramos ele uma pessoa da família, sempre estava aqui em nossa residência aos domingos, principalmente quando tinha jogos do Palmeiras, seu time, e as corridas de Fórmula 1, que torcia para o ex-piloto Michael Schumacher”, relatou Leila.

Vida política

Jandira ingressou na política em 1982, quando concorreu a uma vaga de vereadora pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Participou ativamente das campanhas do ex-deputado estadual José Fares e do ex-senador Mário Maia. Ainda tentou novamente a eleição no ano de 1986, desta vez pelo Partido Democrático Brasileiro (PDT), que fazia coligação com a Frente Popular Acreana, em nenhuma das candidaturas a radialista conseguiu a vaga na Câmara de Vereadores de Sena Madureira. Finalizou sua participação, juntamente com sua família, na campanha eleitoral do ex-senador Jorge Viana.

O legado e as boas lembranças

Atualmente, aos 73 anos, a ex-radialista vive ao lado do seu esposo Floriano, que tem 81 anos, e desfrutam de um casamento de 57 anos. Ao lado dos filhos e dos netos, Ellayne, Grabielly, Amanda, Athayde e Ejandre. O casal vive em sua residência localizada na rua Dom Júlio Mattioli.

Jandira com seu esposo Floriano, seus irmãos, filhos e sobrinhos/Foto: Cedida

Jandira é aposentada e parou suas atividades devido a enfermidades como câncer, catarata, diabetes, depressão e quatro AVCs que impediram sua agitada rotina e, há cerca de 5 anos, a deixam acamada. Apesar disso, em seu quarto ela ainda escuta os discos de vinil na vitrola e cantarola. Como passatempo, a aposentada passa seus fins de tarde ao som de músicas da época que sempre lhe tiram boas risadas.

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