Rio Branco, Acre,


Artigo: Quantos mais vão morrer pelas estruturas racistas?

O país da impunidade e das notas de desculpas segue livrando os algozes com recompensas econômicas

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.” – Nelson Mandela.

Na noite do dia 19 de novembro, às vésperas do “Dia da Consciência Negra”, João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, casado e pai de 4 filhos, teve sua vida ceifada nas dependências do Grupo Carrefour, praticado pelos seus agentes de segurança e omissão dos demais funcionários do hipermercado em Porto Alegre – RS.

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Na madrugada e pela manhã, circulavam vídeos e matérias sobre os fatos ocorridos na noite anterior, pessoas assistiam e filmavam os seguranças enfurecidos espancarem Beto, os poucos segundos que alguém consegue assistir o vídeo, percebe a fúria com que os seguranças o agridem.

Pausa (…), é preciso respirar, derrubar as lágrimas e refletir sobre o meu lugar de pessoa branca num país racista e socialmente desigual, para assim seguir escrevendo sobre a brutalidade humana e o ódio contido nas imagens e nos fatos.

Qual motivo leva uma pessoa a ser espancada no supermercado até a morte, um lugar seguro, propicio para qualquer pessoa fazer compras de primeira necessidade? Afinal, as estruturas do hipermercado do país da revolução dos ideais iluministas, das liberdades, das igualdades e das fraternidades, deviam valer para os países dos quais eles colonizam e acumulam fortunas com a exploração da mão de obra barata. No entanto, em nada abalam as estruturas racistas e capitalistas que promovem atos brutais a pessoas negras, o reflexo disso, foi a alta das ações em 0,49% do Grupo Carrefour, segundo o site UOL do dia 20 de novembro de 2020.

O país da impunidade e das notas de desculpas segue livrando os algozes do povo com recompensas econômicas e os absolvendo dos processos, não é a primeira vez que o mesmo Grupo protagoniza atos de crueldade e brutalidades pelos seus capitães do mato, mas seu CNPJ continua de uma lisura ímpar. No país da memória curta, relembramos os guarda-sóis, encobrindo, disfarçadamente o representante de um fornecedor do Carrefour, morre após sofrer um ataque cardíaco em uma das suas lojas de Recife, “morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. pasmem, “segue o baile”, fontes do jornal G1.

Outro fato relacionado a política de treinamento e desumanização da empresa, foi em 2018, em São Bernardo do Campo, um cliente negro foi espancado por suspeita de furto. alarme falso. No mesmo ano, em Osasco, uma cadela foi morta a golpes com uma barra de ferro.

As redes sociais protagonizam os debates mais absurdos, muitas pessoas justificando de que não foi um crime motivado pela cor e ao final dos comentários é possível ler, “essa é minha opinião”. Caros e caras, opineiros e opineiras, suas opiniões e achismos são baseadas no racismo que mata e destrói as pessoas.

As estruturas são alicerçadas para que pessoas em espaços de subalternização se limitem a obedecer a lógica do capital e da mais valia, reflitam antes de dar sua opinião, ela reforça a violência causada a grupos minoritários em direitos, interseccionalizado em suas opressões. As inúmeras violências estão retratadas no âmbito do genocídio da população negra que se opera com desfaçatez e impunidade, e que reforça a necessidade das lutas antirracistas das mobilizações de afirmação de direitos e das políticas de promoção de igualdade racial.

Vidas Negras Importam, seja em Minnesota, em Porto Alegre, no Amapá, no Acre ou em qualquer lugar do mundo. No atual contexto, em que se escancaram ainda mais as desigualdades sociais, raciais e de gênero, e no qual a sociedade deve se mobilizar em torno do enfrentamento às profundas marcas que o racismo estrutural produz no país. Que a morte de João Alberto não passe impune e as autoridades tomem as medidas necessárias para que a justiça seja feita, responsabilização e reparação. VIDAS NEGRAS IMPORTAM!

*Militante de direitos humanos, ativista política e cultural, feminista, ouvidora da DPE e presidenta do Conselho Nacional de Ouvidorias Públicas.

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