O ComitĂȘ Internacional Independente, que analisa os estudos da vacina CoronaVac, desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, emitiu parecer pela retomada dos testes no Brasil. A documentação chegou Ă AgĂȘncia Nacional de VigilĂąncia SanitĂĄria (Anvisa) nesta terça-feira (10), por volta das 17h.
Na Ășltima segunda, a Anvisa determinou a paralisação dos testes, o que abriu um embate com o Instituto Butantan, que considerou a decisĂŁo desacertada. A ausĂȘncia de nexo causal entre o evento adverso grave com um voluntĂĄrio e a vacina Ă© um dos fatores apontados.
A Anvisa assinalou, em entrevista coletiva nesta terça-feira, que o parecer deveria ter sido enviado junto com a comunicação, feita pelo Butantan na Ășltima sexta-feira, do evento adverso grave. Os ĂłrgĂŁos nĂŁo dĂŁo detalhes sobre o episĂłdio por questĂŁo de confidencialidade. O evento adverso, no entanto, foi a morte de um participante por suicĂdio.
O parecer traz dados e datas que agora serĂŁo analisados pela Anvisa. Um grupo de tĂ©cnicos começou a avaliar o documento em inglĂȘs. Mas a expectativa Ă© de que a decisĂŁo nĂŁo saia ainda nesta terça-feira.
Horas antes de receber o documento, o diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, disse que o estudo continuaria suspenso atĂ© que a agĂȘncia tivesse todas as informaçÔes sobre a morte do voluntĂĄrio. Ele afirmou que as informaçÔes do Butantan eram âinsuficientes e incompletasâ e que, por isso, a agĂȘncia decidiu pela suspensĂŁo dos estudos.
â As informaçÔes veiculadas ontem [segunda-feira] foram consideradas, pela ĂĄrea tĂ©cnica, insuficientes, incompletas, para que ontem fosse possĂvel, de posse delas, continuar permitindo o desenvolvimento vacinal â disse Barra.
A diretora da Anvisa responsåvel pela årea de vacinas, Alessandra Bastos, reforçou que a decisão foi técnica e seguiu protocolos internacionais.
â Gostaria que isso ficasse muito claro: diante de um efeito adverso grave nĂŁo esperado, suspende o estudo clĂnico. Diante de um efeito adverso grave esperado, segue com o estudo â explicou a diretora Alessandra Bastos.
O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, reagiu nesta terça-feira, dizendo em coletiva de imprensa que a decisão da Anvisa causou indignação. Segundo ele, o evento não tem relação com os testes da CoronaVac.
â Do ponto de vista clĂnico do caso, Ă© impossĂvel que haja relacionamento do evento com a vacina. Essa definição (impossĂvel) encerra a discussĂŁo â salientou o presidente do Butantan.
O diretor disse ainda que a decisĂŁo da agĂȘncia causou âincertezaâ e âmedoâ nas pessoas.
â Causaram incerteza, medo nas pessoas, fomentaram um ambiente que jĂĄ nĂŁo estava propĂcio devido ao fato dessa vacina ser feita em associação com a China â declarou o diretor do instituto.
O documento do ComitĂȘ Internacional foi recebido pelo Conselho Nacional de Ătica em Pesquisa (Conep), ligado ao MinistĂ©rio da SaĂșde, que tambĂ©m acompanha o desenvolvimento dos estudos. Diferentemente da Anvisa, ao ser notificado na sexta-feira passada pelo Butantan, a Conep nĂŁo recomendou a suspensĂŁo dos estudos. E manterĂĄ essa posição, apĂłs receber o documento do comitĂȘ.
â Vamos fazer um parecer com calma, mas claro na direção que o evento nĂŁo justifica a suspensĂŁo. A retomada do estudo depende unicamente da Anvisa â disse Jorge VenĂąncio ao GLOBO.
Pesquisas como as de vacinas precisam passar pelo aval da Anvisa e da Conep, tanto no momento de serem autorizadas quanto na retomada após a suspensão dos testes. A Anvisa faz uma anålise mais voltada para a questão sanitåria, de eficåcia e segurança. A Conep atua também na segurança e na defesa dos direitos de quem participa dos experimentos. Se um dos órgãos veta um teste, ele não pode ser feito.
Mais cedo, antes de receber o parecer do ComitĂȘ Internacional Independente, o coordenador da comissĂŁo, Jorge VenĂąncio, disse que o ĂłrgĂŁo avaliou os dados preliminares reportados pelo Instituto Butantan em relação Ă morte do voluntĂĄrio e entendeu que os estudos nĂŁo deveriam ter sido suspensos. Segundo ele, o falecimento do voluntĂĄrio nĂŁo teria relação com a aplicação da vacina.
â NĂŁo pedimos suspensĂŁo de estudo, de jeito nenhum. O voluntĂĄrio tomou a segunda dose da vacina 22 dias antes, nĂŁo tinha nenhum problema de saĂșde e chegou a fazer um check-up particular, com uma batelada de exames, pouco depois. EntĂŁo nĂŁo tem nenhuma lĂłgica suspender um estudo que mobiliza milhares de pessoas para uma vacina que precisamos desesperadamente â disse VenĂąncio. [Capa: Tingshu Wang/Reuters]

