Rio Branco, Acre,


Steve Bannon e bilionário espalharam a mentira de que a China fabricou o novo coronavírus

Pesquisadora de Hong Kong recebe muita mídia para ventilar suas alegações infundadas sobre a pandemia

Em meados de janeiro, a virologista Li-Meng Yan, pesquisadora em Hong Kong, começou a ouvir rumores sobre um novo vírus na China continental que o governo minimizava. Temendo por sua segurança pessoal e profissional e querendo se manter anônima, ela procurou seu youtuber chinês favorito, Wang Dinggang, conhecido por criticar o governo chinês.

Em poucos dias, Wang dizia a seus 100 mil seguidores que o coronavírus havia sido deliberadamente liberado pelo Partido Comunista Chinês. Para não revelar sua fonte, alegava que, caso as autoridades descobrissem quem foi, sumiriam com a pessoa.

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No entanto, em setembro, Yan abandonou a cautela: deu entrevistas ao canal Fox News, nos Estados Unidos, fazendo alegações infundadas de que o coronavírus era uma arma biológica fabricada pela China — mesmo que estudos já apontassem a origem animal do vírus. Da noite para o dia, a virologista se tornou uma sensação de mídias de direita e foi aclamada pelo presidente americano, Donald Trump. Na mesma velocidade, sua entrevista foi rotulada nas redes sociais como conteúdo falso, enquanto cientistas rebatiam suas acusações.

A evolução de Yan se deu graças à confluência de dois grupos distintos, mas que estão cada vez mais próximos e são frequentes disseminadores de desinformação: uma pequena, mas ativa parte da diáspora chinesa e a influente extrema direita americana. Ambos viam na pandemia uma forma de promover seus objetivos.

Para a diáspora, Yan e suas reivindicações infundadas eram uma arma para derrubar o governo da China. Para os conservadores dos EUA, incentivavam uma crescente sinofobia e distraíam a população dos erros do governo Trump no combate à covid-19. Assim, ambos aproveitaram a falta de informações vindas da China, cujo governo inicialmente se recusou a compartilhar amostras do vírus ou a permitir investigações independentes, alimentando as especulações.

A trajetória de Yan foi cuidadosamente elaborada por Guo Wengui, um bilionário chinês exilado, e Steve Bannon, um ex-estrategista de Trump.

Eles colocaram Yan em um avião para os Estados Unidos, deram a ela um lugar para ficar e ajudaram-na a conseguir entrevistas com apresentadores de televisão conservadores populares como Tucker Carlson e Lou Dobbs, ambos da Fox. Guo e Bannon alimentaram sua crença de que o vírus foi geneticamente modificado, aceitando de forma acrítica o que ela forneceu como prova.

— Eu disse desde o primeiro dia, não há conspirações — disse Bannon em uma entrevista. — Mas também não há coincidências.

Os meios de comunicação que atendem à diáspora chinesa — sites independentes, canais do Youtube e contas do Twitter com tendências anti-Pequim — se tornaram um celeiro de desinformação. Com poucas fontes confiáveis de notícias em chinês para checar os fatos, os rumores se tornaram uma realidade distorcida. E, cada vez mais, se alimentam e são alimentados pela mídia de extrema direita americana.

Wang Dinggang, próximo de Guo Wengui, parece ter sido o primeiro a semear rumores relacionados a Hunter Biden, filho do presidente eleito Joe Biden. Um site dele ampliou as alegações infundadas sobre o envolvimento de Hunter em uma conspiração de abuso infantil — o que foi repercutido em outros sites da franja direitista, como o Infowars.  Agora, Bannon, Wang e Guo Wengui disseminam a mentira de que a eleição presidencial foi fraudada.

Embora grandes empresas de tecnologia agora tentem conter as notícias falsas — o Twitter chegou a banir permanentemente as contas de Bannon — tais medidas só serviram para fortalecer esses perfis antiestablishment. O número de seguidores de Wang Dinggang no YouTube quase dobrou desde janeiro. O tráfego dos sites de Guo Wengui disparou para mais de 135 milhões no mês passado, ante menos de 5 milhões de visitas em dezembro. E muitos conservadores que afirmam que o Facebook e o Twitter censuram vozes de direita migraram para novas plataformas de mídia social, como a Parler.

Yan, por meio de representantes de Bannon e Guo, recusou vários pedidos de entrevista. O mesmo fez Wang, citando a “reputação de notícias falsas” do The New York Times. Em uma declaração enviada por meio de um advogado, Guo disse que só havia oferecido “incentivo” aos esforços de Yan “contra a máfia do Partido Comunista Chinês e para contar ao mundo a verdade sobre a covid-19”

Em busca de uma plataforma

Wang Dinggang, que era um empresário na China antes de se mudar para os Estados Unidos por razões desconhecidas, faz parte de um grupo crescente de comentaristas que surgiu na internet em língua chinesa. Seus programas, que misturam erudição, análise séria e boatos, atendem a uma diáspora que muitas vezes não confia na mídia estatal chinesa e tem poucas fontes confiáveis de notícias em seu idioma nativo.

Desde o início de seu canal do Youtube, há vários anos, Wang, que usa o pseudônimo Lu De nas redes, emergiu como uma das personalidades mais populares do gênero, em parte por falar de teorias conspiratórias bizarras. Ele acusou as autoridades chinesas de usarem “sexo e sedução” para prender os inimigos e pediu ao público que estocasse comida para um suposto colapso do Partido Comunista.

Em seu vídeo com denúncias ainda anônimas sobre o vírus, combinou os mesmo elementos de fato e ficção. Dizia que sua fonte era uma especialista, mas exagerava suas credenciais.

Li-Meng Yan havia estudado a gripe antes do surto, mas não os coronavírus. Ela trabalhou em um dos melhores laboratórios de virologia do mundo, na Universidade de Hong Kong, mas era bastante nova no campo e foi contratada por sua experiência com animais de laboratório, de acordo com dois funcionários da universidade que a conheciam. Ela ajudou a investigar o novo surto, mas não supervisionou o esforço.

O vídeo de Wang chamou a atenção de Bannon, que disse ter começado a se preocupar com o vírus quando a China começou a impor quarentenas. Alguém, ele não disse quem, lhe mostrou programa e o traduziu.

Poucos meses depois, Wang de repente disse a Yan para fugir de Hong Kong para sua segurança, explicou ele em transmissões posteriores. Guo Wengui, seu patrono principal, pagou para ela voar de primeira classe, acrescentou.

A entrevista da doutora Li-Meng Yan no programa de Tucker Carlson em setembro acumulou pelo menos 8,8 milhões de visualizações online. Facebook e Instagram a sinalizaram como informação falsa [Foto: Fox News]
Media trainning

Depois que Yan chegou aos Estados Unidos, Bannon, Guo Wengui e seus aliados começaram imediatamente a treiná-la para falar na mídia e se vender ao público americano. Eles contrataram uma coach pra ajudar a virologista, já que seu inglês não era perfeito. Também pediram para apresentar diversos documentos que resumiam as supostas evidências contra o governo chinês.

— Certifique-se de que você pode conduzir as pessoas por isso logicamente — disse Bannon em outra entrevista sobre o treinamento.

Tanto Bannon quanto Guo Wengui afirmam que estão há anos em uma missão para derrubar o Partido Comunista Chinês.

Guo, que também atende pelo nome de Miles Kwok, era um magnata na China com ligações com altos funcionários do partido até que fugiu do país cerca de cinco anos atrás, sob suspeitas de corrupção. Desde então, se autodenomina um lutador pela liberdade, embora muitos sejam céticos quanto às suas motivações.

O patrimônio de Guo e a extensa rede de Bannon deram a eles uma plataforma influente. Os dois homens criaram um fundo de US$ 100 milhões para investigar a corrupção na China e espalharam teorias de conspiração sobre Pequim. Desde o fim de janeiro, estão focados no surto do coronavírus na China.

Bannon voltou seu podcast para o coronavírus. Ele o chamava de “vírus PCC” (uma menção ao Partido Comunista) muito antes de Trump começar a usar rótulos xenófobos para a pandemia. Para seus programas, convidou críticos ferozes da China a fim de discutir como o surto exemplificou a ameaça global representada pelo governo chinês.

Já Guo começou a alegar que o vírus era um ataque ordenado pela China e divulgou isso em seus canais na internet, que inclui a GTV, uma plataforma de vídeo, e o site GNews. O bilionário até lançou uma música chamada “Derrubem o PCC”, que alcançou rapidamente o primeiro lugar no ranking do iTunes da Apple.

Os dois faziam os ataques enquanto enfrentavam problemas legais. Guo é investigado por autoridades americanas por supostas irregularidades na arrecadação de fundo para seus sites. Já o ex-estrategista de Trump, que foi preso em agosto, enfrenta acusações de fraude para levantar dinheiro para a campanha de apoio à construção de um muro na fronteira mexicana.

Em Yan, os dois homens encontraram o rosto ideal para a campanha anti-Pequim.

Em 10 de julho, a virologista revelou sua identidade pela primeira vez em uma entrevista de 13 minutos no site Fox News. Depois, Yan embarcou em uma turnê pela mídia de direita, ecoando informações falsas e enganosas. Ela disse que tomou hidroxicloroquina para se prevenir do vírus, mesmo que estudos indiquem que o medicamento não é eficaz; acusou também a Organização Mundial da Saúde de ajudar a encobrir a pandemia. Tudo era repercutido e compartilhado nas redes de Guo.

Wang Dinggang, à esquerda, apresentador do YouTube e crítico da China, e seu frequente co-apresentador, conhecido como Ai Li. Wang repentinamente mudou sua atenção para o surto emergente de coronavírus em Wuhan [Foto: Youtube]
Se tornando mainstream

No início de setembro, Yan se encontrou com Daniel Lucey, um especialista em doenças infecciosas da Universidade de Georgetown que havia sugerido a possibilidade de o vírus ser produto de um experimento de laboratório. Lucey disse que pessoas ligadas a Yan, que organizaram a reunião, queriam encontrar um cientista confiável para endossar suas afirmações.

Por mais de quatro horas, Yan discutiu sua experiência e pesquisas. Lucey disse que a virologista parecia genuinamente acreditar que o vírus havia sido transformado em uma arma biológica, mas que teve dificuldade em explicar o porquê. Ao final, um dos responsáveis pelo encontro, que não teve o nome revelado, perguntou se o especialista acreditava que Yan tinha “uma bomba”. Quando Lucey disse que não, a reunião terminou rapidamente.

Dias depois, Yan publicou uma pesquisa de 26 páginas em que dizia provar que o vírus havia sido fabricado. O documento se espalhou rapidamente on-line.

O artigo, que não foi revisado por pares nem publicado em uma revista científica, foi postado em um repositório on-line de acesso aberto. Foi apoiado por duas organizações sem fins lucrativos financiadas por Guo. Os três outros coautores do artigo eram pseudônimos por razões de segurança, de acordo com Bannon.

Os virologistas rapidamente caracterizaram o artigo como “pseudociência” e “baseado em conjecturas”. No entanto, alguns temiam que a pesquisa — repleta de gráficos e jargão científico — desse às acusações um verniz de credibilidade.

Em 15 de setembro, um dia após a publicação do artigo, Yan garantiu seu maior palco: uma aparição com Tucker Carlson na Fox News. O programa do âncora frequentemente serve como um megafone influente para a direita.

Carlson perguntou se Yan acreditava que as autoridades chinesas haviam liberado o vírus intencionalmente ou por acidente. Yan não hesitou:

— É claro que intencionalmente.

O vídeo se tornou viral nas redes, sendo visto pelo menos 8,8 milhões de vezes — ainda que o Facebook tenha o sinalizado como falso. Conservadores de alto escalão, incluindo a senadora republicana Marsha Blackburn, o compartilharam no Twitter. Quando o reverendo Franklin Graham, próximo a Trump, postou sobre Yan no Facebook, ele se tornou o link mais compartilhado postado por uma conta do Facebook nos Estados Unidos naquele dia.

Lou Dobbs, outro apresentador da Fox, tuitou um vídeo dele e de um convidado discutindo o “grande caso” de Yan. Trump retuitou.

Yan foi recebida por um público já preparado para ouvir suas afirmações. Uma pesquisa de março descobriu que quase 30% dos americanos acreditavam que o vírus provavelmente surgiu em um laboratório.

— Depois que Tucker Carlson pega o assunto, não é mais marginal — disse Yotam Ophir, um professor da Universidade de Buffalo que estuda desinformação. — Agora é mainstream.

A Fox News não quis comentar. [Capa: Calla Kessler NYT]

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