Como reduzir os riscos de transmitir coronavĂ­rus nas festas de Natal e Ano Novo

Por BBC NEWS BRASIL 24/12/2020 Ă s 10:13

Uma sala cheia de pessoas com saudade umas das outras, que se reĂșnem por muitas horas para celebrar, geralmente em torno de uma mesa de jantar e com a presença de integrantes das mais variadas idades.

Essa pode ser a descrição de uma comemoração do Natal da forma que muitas famĂ­lias celebraram atĂ© hoje — e tambĂ©m de um cenĂĄrio ideal para propagação do coronavĂ­rus, que matou mais de 180 mil pessoas no Brasil atĂ© dezembro de 2020, principalmente idosos.

Com a taxa de contĂĄgio da covid-19 em alta em vĂĄrias regiĂ”es do Brasil, os mĂ©dicos alertam que a Ășnica forma de ter certeza de que vocĂȘ nĂŁo passarĂĄ uma doença que pode ser fatal para familiares e amigos Ă© abrindo mĂŁo de uma comemoração presencial.

Hå, no entanto, medidas que podem ser tomadas para mitigar o risco, ou formas de dar uma nova cara às comemoraçÔes neste ano.

A moradora de Macaé (RJ) Polyanna Linhares, de 28 anos, estå acostumada a passar o Natal na casa da tia com mais ou menos vinte pessoas. Para o fim de 2020, no entanto, a família mudou a tradição.

“Estamos agora hĂĄ praticamente sete meses sem nos ver. SĂŁo pessoas de quatro casas diferentes, que vĂŁo passar o Natal cada um na sua. Aqui em casa seremos eu, meu pai, minha mĂŁe (que sĂŁo idosos), minha irmĂŁ e meu sobrinho.”

“Fiquei chateada, mas ciente de que Ă© a decisĂŁo certa. Vamos fazer um amigo oculto virtual: sorteamos os nomes por um aplicativo, faremos a festa pelo Zoom e depois a gente dĂĄ um jeito de entregar os presentes”, diz. “NĂŁo vai ser do mesmo jeito, Ă© claro. Mas Ă© o que dĂĄ para fazer, para a gente se proteger e proteger quem a gente ama.”

Redução de danos

Em dezembro, a Fiocruz emitiu uma nota tĂ©cnica alertando para o perigo de o sistema de saĂșde do Brasil colapsar apĂłs as festas de fim de ano, considerando que Ă© esperado um aumento no nĂșmero de casos.

Os ingredientes para isso jå estão dados: hå surtos da covid-19 simultaneamente nas capitais e no interior, e a disseminação do vírus estå em alta.

Sendo assim, a recomendação primordial dos infectologistas é evitar passar as festas com pessoas de fora da sua casa, para impedir a transmissão do coronavírus de um lar para outro.

Apesar dos riscos evidentes, muitas famílias planejam comemorar o Natal com um encontro presencial — ainda que de forma diferente de outros anos.

Por isso, a BBC News Brasil entrevistou infectologistas e outros especialistas para explicar as medidas que podem tornar os encontros menos inseguros — embora eles destaquem que nĂŁo Ă© possĂ­vel eliminar os riscos, apenas contĂȘ-los:

1. Minimizar a quantidade de pessoas (e de residĂȘncias)

A primeira dica Ă© fazer uma reuniĂŁo com o menor nĂșmero possĂ­vel de pessoas. Idealmente, a comemoração deve ocorrer sĂł entre quem jĂĄ vive na mesma residĂȘncia.

“Temos que pensar em evitar encontros com muitas pessoas. É momento para encontrarmos famĂ­lias nucleares. NĂŁo Ă© momento de fazer grandes encontros de famĂ­lia, com reuniĂ”es com mais de dez pessoas”, diz Juliana Lapa, infectologista e professora da Universidade de BrasĂ­lia.

A recomendação Ă© estar atento nĂŁo sĂł Ă  quantidade de pessoas, mas tambĂ©m ao nĂșmero de residĂȘncias que serĂŁo misturadas.

Por exemplo: um encontro entre dez pessoas tende a ser menos arriscado se cinco moram juntas em uma casa e outras cinco vivem em outra do que se cada uma das dez pessoas vive em uma casa diferente, aponta Vitor Mori, membro do grupo ObservatĂłrio Covid-19 BR e pĂłs-doutorando na Faculdade de Medicina na Universidade de Vermont (EUA).

O presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, EstevĂŁo Urbano, destaca o cuidado com os grupos que tĂȘm sido as principais vĂ­timas da covid-19.

“Se possĂ­vel, idosos e pessoas com comorbidades — obesos, diabĂ©ticos, hipertensos, pessoas com problemas pulmonares — devem evitar as festas.

Claro que tambĂ©m sĂŁo as pessoas que estĂŁo mais distanciadas e carentes neste momento, mas o ideal Ă© que elas tomem mais medidas de cuidado do que as demais pessoas.”

Lapa diz que, se for inevitĂĄvel o encontro com uma pessoa do grupo de risco, uma opção menos arriscada Ă© fazer um encontro rĂĄpido e com distanciamento. “Uma visita curta, sem fazer ceia, sem tirar a mĂĄscara”, explica.

2. Muita ventilação

Se for fazer encontro, que seja em lugar aberto: jardim, laje, quintal, onde as partĂ­culas de vĂ­rus vĂŁo se dissipar mais facilmente com o vento.

Se nĂŁo houver um ambiente completamente aberto, a recomendação Ă© fazer em uma varanda. Se a Ășnica opção for dentro de um apartamento, deixe todas as janelas abertas.

Mori diz que tem havido pouco destaque para a importùncia da ventilação para minimizar riscos e då uma dica caseira para aumentar a circulação de ar em ambiente interno:

colocar um ventilador prĂłximo da janela e de frente para ela. Dessa forma, ele diz, o ventilador funciona como um exaustor, puxando o ar de dentro e empurrando para fora do cĂŽmodo.

“Gera pressĂŁo negativa dentro do cĂŽmodo e o ar fresco de outra janela vai entrando”, explica.

Como reduzir os riscos de transmitir coronavĂ­rus nas festas de Natal e Ano Novo

Se tiver mais de uma janela e mais de um ventilador, Mori diz que, alĂ©m desse primeiro ventilador, vocĂȘ pode colocar outro ventilador na janela oposta e na posição contrĂĄria — ou seja, virado para o interior do cĂŽmodo. Assim, um ventilador puxa o ar de fora para dentro e outro empurra o ar para fora pela outra janela, gerando circulação e troca de ar constante.

Para destacar a importùncia de privilegiar ambientes ao ar livre, Mori compara a fumaça do cigarro, que também é um tipo de aerossol, com as partículas emitidas por uma pessoa que pode estar infectada.

“Se hĂĄ uma pessoa fumando perto de vocĂȘ, mas em espaço aberto, vocĂȘ nĂŁo sente muita fumaça, o vento vai dispersar. Mas se vocĂȘ estiver em um ambiente fechado, mesmo que mantenha distĂąncia maior que um metro e meio, se todas as portas e janelas estiverem fechadas, vocĂȘ vai conseguir sentir cheiro do cigarro e vai inalar quantidade grande.”

Como reduzir os riscos de transmitir coronavĂ­rus nas festas de Natal e Ano Novo

Os Centros de Controle de Doenças dos EUA (CDCs) também recomendam a ventilação como estratégia para reduzir as partículas de vírus no ar de ambientes fechados.

Mas, em diretrizes recém-atualizadas sobre ventilação, fazem quatro alertas adicionais sobre o tema:

-Janelas e portas sĂł devem ficar o tempo todo abertas em locais onde nĂŁo haja risco de quedas ou se isso nĂŁo provocar crises em pessoas asmĂĄticas;
-Ventiladores não devem gerar fluxo de ar diretamente de uma pessoa a outra, para evitar a contaminação;
-As medidas de ventilação não dispensam os cuidados constantes com o distanciamento social, a higiene das mãos e o uso de måscaras;
-Se nĂŁo for possĂ­vel ventilar bem o espaço, entĂŁo Ă© preciso reduzir o nĂșmero de ocupantes nele.

3. Reduzir a duração
Fazer encontros mais råpidos é outra sugestão dos especialistas, jå que o risco aumenta com mais tempo de exposição.

“Agrupamentos prolongados sĂŁo o grande vilĂŁo da transmissĂŁo”, diz Urbano.

4. MĂĄscara e distanciamento sempre que possĂ­vel

Os especialistas concordam em outro ponto: as mĂĄscaras devem ser usadas sempre que possĂ­vel, retirando apenas na hora de comer ou beber.

AlĂ©m disso, evitar falar alto e cantar tambĂ©m ajuda na redução de riscos. “Quanto mais forte a fala ou o canto, mais partĂ­culas sĂŁo expelidas no ar”, diz Urbano.

Além da måscara, outra regra jå conhecida segue valendo: manter o måximo de distùncia possível para quem não vive na mesma casa.

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5. Na hora de comer: rodĂ­zio ou mesas separadas

O momento da ceia pode ser o grande vilão, segundo médicos, jå que as pessoas geralmente ficam próximas e precisam tirar as måscaras.

É por isso que, alĂ©m do cuidado de evitar compartilhar objetos como talheres e copos, a recomendação Ă© que se faça um rodĂ­zio para sentar Ă  mesa na hora de comer.

Por exemplo: imagine que hĂĄ um casal que mora em uma casa e os pais de um deles, que vivem em outra casa. A sugestĂŁo, se houver apenas uma mesa, Ă© que os pais comam primeiro, enquanto os outros ficam afastados e de mĂĄscara. Depois, invertem.

Para quem tem mais espaço, outra opção Ă© montar duas mesas separadas para que cada um dos nĂșcleos nĂŁo se misture na hora de tirar a mĂĄscara para fazer a refeição.

“É importante enxergar quem estĂĄ sem mĂĄscara como possĂ­vel disseminador, porque existem os assintomĂĄticos, que nem sabem que estĂŁo doentes. EntĂŁo vocĂȘ tem que presumir que todo mundo ali pode estar transmitindo pra alguĂ©m, diz Jaques Sztajnbok, mĂ©dico supervisor da UTI do Instituto de Infectologia EmĂ­lio Ribas.

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6. Evitar grandes deslocamentos

Os infectologistas concordam que viagens devem ser evitadas. Quem decidir fazer deslocamentos assim, deve priorizar ir de carro, de forma a evitar as aglomeraçÔes em aeroportos, aviÔes, Înibus, rodoviårias e em åreas comuns de hotéis.

7. Antes da festa, atenção redobrada aos sintomas

Fazer uma quarentena de duas semanas (ou pelo menos de uma) e confirmar estar sem o vĂ­rus com um exame PCR 72 horas antes do encontro ajudam muito a minimizar os riscos.

Além disso, é essencial ter ainda mais atenção a qualquer sintoma.

“É muito importante valorizar todos os sintomas neste momento. Muita gente diz ‘ah, sĂł estou com tosse, sĂł estou com o nariz escorrendo’. Se isso nĂŁo Ă© o seu padrĂŁo, valorize e evite ir. SerĂĄ uma exposição de alto risco”, diz Lapa.

8. Durante a festa, cuidado para nĂŁo baixar a guarda

Em uma comemoração regada a álcool, com pessoas há tantos meses privadas de festas, o natural seria relaxar nas medidas de prevenção ao longo da noite. É aí que mora o perigo, dizem os infectologistas.

“Na prĂĄtica, com o relaxamento das pessoas regado a taças de vinho, as festas de fim de ano sĂŁo situaçÔes de risco — um risco enorme de termos muitos casos e mortes desnecessĂĄrios por covid-19”, afirma EstevĂŁo Urbano.

“Infelizmente, temos pessoas perdendo o jogo na prorrogação — estamos perto da vacina. Precisamos fazer o Ășltimo terço da caminhada atĂ© a vacina. EntĂŁo precisamos cuidado para nĂŁo relaxar neste momento.”

9. Encontros virtuais ou sem abraços: a recomendação da OMS

A Organização Mundial da SaĂșde (OMS) reforça a ideia de que nĂŁo hĂĄ risco zero em festas de fim de ano — motivo pelo qual famĂ­lias e atĂ© mesmo governos devem avaliar seriamente o cenĂĄrio local e decidir se os benefĂ­cios sociais dos encontros festivos superam o perigo de a covid-19 avançar.

“HĂĄ (iniciativas) de baixo risco ou alto risco — mas sempre hĂĄ um risco”, afirmou em entrevista coletiva recente Maria Van Kerkhove, lĂ­der tĂ©cnica da covid-19 na OMS. Ela defendeu que as famĂ­lias prefiram reuniĂ”es virtuais neste ano, uma vez que a maior incidĂȘncia de transmissĂ”es ocorre entre pessoas que passam muito tempo juntas, em espaços fechados e compartilhando refeiçÔes.

“É incrivelmente difĂ­cil porque, principalmente durante as festas, nĂłs queremos muito estar com a famĂ­lia. Mas, em algumas situaçÔes, a decisĂŁo difĂ­cil de nĂŁo ter um encontro familiar Ă© a aposta mais segura”.

TambĂ©m em entrevista coletiva, seu colega Mike Ryan, diretor de emergĂȘncias da OMS, disse que encontros presenciais que ocorrerem nestas festas devem evitar abraços e demonstraçÔes fĂ­sicas de afeto.

“É algo horrĂ­vel pensar que estamos aqui como a Organização Mundial da SaĂșde dizendo Ă s pessoas: ‘nĂŁo abracem umas Ă s outras’. É terrĂ­vel. (Mas) essa Ă© a realidade brutal em lugares como os EUA no momento”, disse Ryan, citando como exemplo o paĂ­s com o maior nĂșmero de mortes e casos pela covid-19 no mundo, e onde o vĂ­rus continua circulando com força.

10. Avaliar os prĂłs e contras nĂŁo Ă© fĂĄcil, mas Ă© necessĂĄrio

Os especialistas consultados pela reportagem entendem que as pessoas estĂŁo exaustas das restriçÔes sociais impostas pela pandemia — e a dificuldade em decidir se vale a pena ou nĂŁo se reunir em uma data tĂŁo especial quanto o Natal.

“Eu acho que estĂĄ todo mundo vivendo essa dĂșvida (de comemorar as festas com pessoas idosas)”, diz Juliana Lapa. “Esses dias ouvi falar de uma senhora que nĂŁo conheceu o bisneto e faleceu sem conhecer. É uma dĂșvida que a gente tem o tempo todo.”

“No mundo ideal, em que as pessoas estejam resilientes, nĂŁo haveria viagens e aglomeraçÔes atĂ© haver a vacina. No mundo real, pelo menos temos de seguir as recomendaçÔes” para festas mais seguras, afirma EstevĂŁo Urbano.

Por sua vez, Jaques Sztajnbok, do EmĂ­lio Ribas, teme que o descuido nas festas de fim de ano provoque um “repique brutal” da covid-19 nas semanas seguintes. “Este fim de ano deveria ser sem os encontros natalinos”, argumenta.

“Se nĂŁo houver segurança nesses encontros, que nĂŁo sejam feitos. No fim das contas, o que interessa Ă© a segurança e a saĂșde de todo mundo. Quando um familiar diz que o Natal Ă© muito importante e quer encontrar a avĂł que nĂŁo vĂȘ hĂĄ muito tempo, eu falo: ‘tudo bem, mas vocĂȘ quer que ela morra 15 dias depois de uma doença evitĂĄvel’?”

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