Na ampla sala de um prĂ©dio da avenida AntĂŽnio da Rocha Viana, no bairro Bosque, Ă© frenĂ©tico o vaivĂ©m dos agentes do Grupo de Enfrentamento aos Crimes Contra a Ordem TributĂĄria, o Gecot, da PolĂcia Civil do Estado do Acre. Ali, ao largo dos olhos da sociedade, uma força-tarefa trabalha silenciosamente para que a população e a administração pĂșblica, se nĂŁo completamente, pelo menos tenham o mĂnimo de proteção possĂvel das organizaçÔes criminosas e dos surrupiadores do erĂĄrio pĂșblico.

Na reportagem, saiba mais sobre o que o governador Gladson Cameli e a sua equipe vĂȘm promovendo para o combate Ă crimes de corrupção dentro da sua administração, e que atĂ© resultou na criação do Gecot, no dia 29 de setembro deste ano, e da Delegacia de Combate Ă Corrupção, a Deccor, em fevereiro de 2019.
O trabalho desses agentes da lei vocĂȘ nunca verĂĄ, ao nĂŁo ser no seu desfecho, nos sites noticiosos e jornais televisivos, sobre algum grande esquema criminoso que culminou com a prisĂŁo dos envolvidos e a apreensĂŁo de seus bens. Mas Ă© para ser assim. Quando as hordas do mal estĂŁo de plantĂŁo, lĂĄ estĂŁo eles, construindo de forma silenciosa a colcha de retalhos que vai permitir concentrar o foco da polĂcia nos criminosos.

Os agentes de polĂcia e tĂ©cnicos do governo entendem perfeitamente que a leitura da população, e tambĂ©m dos meios de comunicação, Ă© a de que existe um fosso investigativo separando as polĂcias das organizaçÔes criminosas. Mas ela Ă© uma falsa aparĂȘncia, garantem esses operadores, que encontram na gestĂŁo do governador Gladson Cameli o respaldo necessĂĄrio para o aparelhamento estatal contra o crime.
Sobre essa questĂŁo, Gladson Cameli Ă© categĂłrico: âSob hipĂłtese alguma aceito corrupção no meu governo. Firmei este compromisso com a população acreana e venho cumprindo rigorosamente com a minha palavraâ. Ele acrescenta que âquem tentar, pagarĂĄ as consequĂȘncias dentro do que determina a nossa legislaçãoâ.

Mais de 20 operaçÔes nos Ășltimos sete anos
O diretor de PolĂcia Civil, delegado Josemar Portes, afirma que a função dos investigadores da instituição que ele representa, nas diversas frentes de combate ao crime, Ă© meticulosa e Ă s vezes considerada longa aos olhos das pessoas que nĂŁo entendem como funciona o trabalho investigativo. Mas como exemplo prĂĄtico cita que desde 2012 a âPolĂcia Civil vem enfrentando de forma qualificada e uniforme as organizaçÔes criminosas que atuam no Acre, com vĂnculos em todo o Brasilâ.
âEsse trabalho rendeu mais de 20 operaçÔes policiais complexas, com alto grau de profundidade nos Ășltimos nove anos. E nessa atuação houve mais de 1,7 mil presos, integrantes de organizaçÔes criminosas, entre lideranças e funçÔes estratĂ©gicas, devidamente identificados, indiciados, denunciados e levados a julgamentoâ, pontua Portes.

âPodemos dizer que a PolĂcia Civil desenvolveu uma grande expertise nesse tipo de investigação, ganhando, inclusive, reconhecimento nacional neste combate. Nos Ășltimos anos, o objetivo tem sido descapitalizar esses gruposâ, completa o diretor.
No caso especĂfico do Gecot, uma das respostas imediatas foi dada nas primeiras horas do dia 2 de dezembro Ășltimo, com a Operação Omaggio, que desmantelou um esquema que fraudava o fisco estadual por meio da sonegação de impostos.
O golpe funcionava assim: algumas empresas tinham endereços fictĂcios e seus sĂłcios nĂŁo passavam de pessoas comuns sem nenhum poder aquisitivo. EntĂŁo, os lĂderes da ação usavam essas empresas para comprar fora do estado com auxĂlio de um representante comercial de CuiabĂĄ, que faturava a mercadoria em nome dessas firmas, como forma de burlar a fiscalização tributĂĄria. Isso configura fraude financeira, jĂĄ que a empresa era usada tĂŁo somente como âlaranjaâ.

Na ocasiĂŁo, foram cumpridos 20 mandados de busca e apreensĂŁo e quatro mandados de prisĂŁo em Rio Branco, em FeijĂł e em CuiabĂĄ. TambĂ©m foram bloqueadas nove contas bancĂĄrias, e houve o sequestro e apreensĂŁo de 11 veĂculos, numa investigação policial e fiscal que durou cerca de dois meses, logo depois de observada a ramificação da ação criminosa no Mato Grosso.
Toda grande investigação começa com uma maratona em busca de dados, com anĂĄlises de denĂșncias anĂŽnimas , confrontos de depoimentos e escutas telefĂŽnicas autorizadas pela Justiça. E no Ăąmbito do Gecot, desde o dia 29 de setembro, duas operaçÔes ostensivas geraram o bloqueio de bens e valores superiores a R$ 4 milhĂ”es, alĂ©m das prisĂ”es em flagrantes, com cumprimento de mandados de prisĂŁo e busca e apreensĂŁo. Mas dentro deste perĂodo, outras investigaçÔes foram instauradas e estĂŁo em pleno andamento.

NĂșmeros
6 milhÔes
âŠde reais foi quanto a Delegacia de Combate Ă Corrupção, Decor, da PolĂcia Civil, conseguiu buscar e bloquear na Justiça em bens e valores originĂĄrios de crimes no Acre em 2020. A Decor jĂĄ tem forte atuação no Acre, inclusive em parceria com outros estados. Outras investigaçÔes estĂŁo em andamento, com o objetivo de estancar a sangria nos cofres pĂșblicos e recuperar os valores desviados do erĂĄrio, colocando os autores dos crimes Ă disposição da Justiça.
Outros
4 milhÔes
⊠de reais foram apreendidos em duas grandes investigaçÔes do Grupo de Enfrentamento aos Crimes Contra a Ordem TributĂĄria este ano. O Gecot atua como grupo de investigação, apurando denĂșncias e fatos que possam se tornar crimes contra os tributos estaduais.
Em ano atĂpico, Gladson pediu total transparĂȘncia aos gestores estaduais
Para o governador Gladson Cameli, o combate Ă corrupção, principalmente com ĂȘnfase na administração pĂșblica, jĂĄ Ă© uma das suas maiores prioridades e serĂĄ muito mais intensificada a partir de janeiro prĂłximo.

Nos Ășltimos dias, ele tem feito gestĂ”es nesse sentido com todos os ĂłrgĂŁos afins, entre eles os MinistĂ©rios PĂșblicos estadual e federal, Receita Federal e PolĂcia Federal.
E no ùmbito das instituiçÔes estaduais, as atuaçÔes conjuntas envolvem, além do Gecot e da Deccor, mais duas delegacias: a de Repressão às AçÔes Criminosas Organizadas, a Draco, e a de Repressão ao Narcotråfico, Denarc, com o intuito de enfrentar o crime de maneira mais técnica e eficaz, de modo a buscar a descapitalização e a recuperação de ativos criminais.

HĂĄ ainda a Diretoria de Administração TributĂĄria, da Secretaria da Fazenda, e o Grupo de Atuação Especial de Combate Ă Corrupção, o Gaecc, do MinistĂ©rio PĂșblico do Estado do Acre.
Em reuniĂŁo no dia 11 de deste mĂȘs, com o procurador da RepĂșblica no Acre, Humberto Aguiar JĂșnior, e membros de sua equipe de governo, Gladson Cameli ressaltou que o MinistĂ©rio PĂșblico Federal Ă© imprescindĂvel na fiscalização e no combate aos ilĂcitos que venham a ser praticados na estrutura governamental.
âA presença do MinistĂ©rio PĂșblico Federal Ă© fundamental neste processo e estou aqui, juntamente com minha equipe, para pedir esse apoioâ, disse.
No encontro, o chefe do Poder Executivo lembrou ser este um ano atĂpico e que a sua gestĂŁo tem priorizado a transparĂȘncia de suas açÔes na compra de insumos e nos investimentos de um modo geral na SaĂșde, em tempo marcado pela pandemia.
âCom honestidade e seriedade, o Acre figura entre os estados brasileiros que nĂŁo registraram casos de corrupção na aplicação dos recursos especĂficos destinados ao combate Ă Covid-19â, lembra o secretĂĄrio de Estado de SaĂșde, Alysson Bestene.

O relatĂłrio Brasil: Retrocessos nos Marcos JurĂdicos e Institucionais de 2020, produzido pela organização TransparĂȘncia Internacional Brasil, aponta para o que a instituição considera de âgrave situação do paĂs em relação ao combate Ă corrupçãoâ. Os estudos confrontam diretamente as recentes declaraçÔes do presidente Jair Bolsonaro, que disse ter âacabadoâ com a Operação Lava Jato porque em seu governo ânĂŁo hĂĄ mais corrupçãoâ. E apontam para um desmonte do arcabouço institucional para a luta anticorrupção em curso, sobre o qual o presidente da RepĂșblica Ă© um dos responsĂĄveis, ainda segundo a opiniĂŁo da TransparĂȘncia.

No Acre, o governo quer justamente que os ĂłrgĂŁos de controle e de fiscalização, estaduais e federais, interajam com o Executivo estadual, para as boas prĂĄticas de um enfrentamento uniforme e eficaz contra os crimes de ordem tributĂĄria e no combate Ă corrupção, mesmo que para isso, tenha que cortar na prĂłpria carne, quando o caso Ă© de servidores pĂșblicos estaduais corruptos.

Volta de Sistema de InformaçÔes pode render economia de até R$ 1 milhão ao ano
O tempo passou, as instituiçÔes se fortaleceram e a sociedade aprendeu a confiar na resolução dos crimes, acreditando na certeza da justiça. Mas os criminosos tambĂ©m se adaptam segundo as tendĂȘncias de cada Ă©poca.

Se na dĂ©cada de 1980, o crime era escrachado porque encontrava, muitas vezes, a leniĂȘncia das prĂłprias organizaçÔes pĂșblicas, hoje ele Ă© mais sutil e organizado, auxiliado pela tecnologia a distĂąncia, sobretudo, com o uso de aplicativos e programas que podem interferir em sistemas eletrĂŽnicos, nos chamados crimes cibernĂ©ticos.

Com relação a esse aspecto, o governo Gladson Cameli reativou o Sistema EletrÎnico de InformaçÔes (SEI), lançado em fevereiro de 2018, no final da gestão anterior, mas que não estava funcionando efetivamente.
O SEI garante mais segurança e economia de gastos na administração estadual, numa proporção de R$ 1 milhĂŁo por ano. Basicamente, com o sistema Ă© possĂvel criar e gerir documentos administrativos totalmente de forma eletrĂŽnica, fazendo com que seja diminuĂdo cada vez mais o uso de papel e da impressĂŁo.
A ferramenta Ă© gratuita e foi criada pelo Tribunal Regional Federal da 4ÂȘ RegiĂŁo. O funcionamento do SEI estĂĄ a cargo da Secretaria de Estado de IndĂșstria, CiĂȘncia e Tecnologia do Acre, a Seict.
Conheça quatro operaçÔes significativas de combate à corrupção e outros crimes no Acre
Operação: Caça-Fantasmas
Data: 2011
Local:Â Sena Madureira
NĂșmero de presos: 0
Descrição: Cumpriu mandados de busca e apreensĂŁo na sede da Prefeitura de Sena Madureira em busca de provas da suposta inclusĂŁo de pessoas na folha de pagamento do municĂpio, mas que jamais bateram o ponto nos ĂłrgĂŁos municipais. Foram apreendidos documentos, discos rĂgidos e computadores da administração municipal.
Operação: Anjo da Guarda
Data: 2012
Local: Capixaba
NĂșmero de presos: 6
Descrição: Operação deflagrada numa madrugada do mĂȘs de março, e que consistiu numa ação de proteção a crianças e adolescentes em situação de risco, encontrados em pontos vulnerĂĄveis Ă exploração sexual nas rodovias federais. A missĂŁo foi da PolĂcia RodoviĂĄria Federal e contou com a participação do MinistĂ©rio PĂșblico do Estado do Acre. Pelo menos 63 adolescentes foram apreendidos em situação de vulnerabilidade e seis pessoas detidas.
Operação: Zaqueu
Data: 2012
Local: Rio Branco
NĂșmero de presos: 3
Descrição: Apurou esquema de dois fiscais da Secretaria de Fazenda do Estado do Acre exigiram, de empresårios de postos de gasolina, dinheiro para expedir auto de infração tributårio em valores inferiores ao devido. A operação impediu que o trio levasse pelo menos R$ 26 milhÔes dos donos dos estabelecimentos.
Operação: Tentåculos
Data: 2012
Local: Rio Branco
NĂșmero de presos: 27
Descrição: Operação constatou o envolvimento de prestadores de serviço de autoescolas e funcionĂĄrios pĂșblicos integrantes de uma quadrilha que agia dentro do Departamento Estadual de TrĂąnsito do Acre, com o objetivo de fraudar exames para facilitar a obtenção da Carteira Nacional de Habilitação. Eles agiam ainda na retirada de multas, na transferĂȘncia de pontuação da carteira e na falsificação de documentos para carros roubados. Houve ainda 33 buscas e apreensĂ”es com 130 pessoas envolvidas na operação.
