HĂĄ quatro dias, Adriele Ferreira da Silva, de 23 anos, e o marido receberam a difĂcil notĂcia de que a primeira filha deles, Antonella Ferreira, de 4 meses, tem atrofia muscular espinhal (AME), uma doença genĂ©tica rara, que causa degeneração nos neurĂŽnios e paralisia progressiva.
Desde entĂŁo, os pais do bebĂȘ tĂȘm lutado diariamente para conseguir uma medicação que custa em torno de R$ 11 milhĂ”es, considerada a ‘mais cara do mundo’. Especialistas apontam que o medicamento Ă© o mais eficaz para neutralizar em crianças pequenas os efeitos da doença.
Conforme divulgado pelo MinistĂ©rio da SaĂșde, a AME Ă© uma doença genĂ©tica rara, sem cura, e que interfere na capacidade do corpo de produzir uma proteĂna essencial para a sobrevivĂȘncia dos neurĂŽnios motores.
Por isso, as pessoas que tĂȘm atrofia muscular espinhal vĂŁo perdendo o controle e força musculares, ficando incapacitados de se mover, engolir ou mesmo respirar, podendo, inclusive, morrer.
O tipo 1 da AME, que é o de Antonella, moradora de Bertioga, no litoral de São Paulo, é a forma mais grave da doença, e geralmente causa a morte antes dos 2 anos de idade.
Esse tipo Ă© o mais presente no paĂs, mas jĂĄ tem tratamento gratuito assegurado pelo Sistema Ănico de SaĂșde (SUS), por meio do medicamento Spinraza.
PorĂ©m, o medicamento Zolgensma, conhecido como o ‘mais caro do mundo’, por custar US$ 2,1 milhĂ”es (cerca de R$ 11 milhĂ”es) por paciente, Ă© considerado por especialistas o mais eficaz para o tratamento da doença.
E Ă© essa a medicação que a famĂlia tenta garantir para o bebĂȘ. (Veja as principais diferenças entre os dois medicamentos abaixo)
A AgĂȘncia Nacional de VigilĂąncia SanitĂĄria (Anvisa) publicou, em 17 de agosto, o registro do Zolgensma no Brasil. Dessa forma, ele se torna o segundo medicamento disponĂvel no Brasil para tratar a AME, mas Ă© o primeiro tratamento genĂ©tico da doença, capaz de reparar genes do DNA do paciente.
O Zolgensma nĂŁo estĂĄ disponĂvel no SUS, mas o registro na Anvisa foi o primeiro passo para que o Governo Federal incorpore o remĂ©dio na saĂșde pĂșblica.
“O diagnĂłstico foi sufocante para nĂłs. A mĂ©dica percebeu que minha filha era molinha demais, e desde entĂŁo começamos o acompanhamento. Tentamos manter a fĂ© de que nĂŁo seria AME, mas, quando o exame genĂ©tico diagnosticou que era a doença, tudo se tornou muito difĂcil”, diz a mĂŁe.

Antonella Ă© a primeira filha de casal e foi diagnosticada com doença rara que pode atĂ© levar Ă morte â Foto: Reprodução/G1
Com a impossibilidade de custear o tratamento milionĂĄrio, a famĂlia do bebĂȘ estĂĄ correndo contra o tempo para tentar conseguir o medicamento capaz de trazer melhoras mais promissoras a Antonella.
“Ă a chance de vida dela. Estamos contando, nesse primeiro momento, com a sensibilização das pessoas que possam nos ajudar. Mesmo que seja com R$ 1. Esse remĂ©dio Ă© nossa Ășnica esperança. Estou desempregada, e foi o patrĂŁo do meu marido quem se uniu com outras pessoas e custeou o exame que detectou a doença da minha filha. Queremos que ela tenha ainda muito a viver. Estamos correndo e lutando por isso”, conta Adriele.
A famĂlia conta mais sobre o cotidiano de Antonella nas redes sociais, e Ă© tambĂ©m pela web que uma campanha de arrecadação tenta garantir o medicamento que pode ajudar o bebĂȘ.
Zolgensma e Spinraza: Como agem
Em entrevista para a editoria de CiĂȘncia e SaĂșde do G1, o neurologista pediĂĄtrico Rodrigo Reis, membro do corpo clĂnico da Faculdade de Medicina do ABC, explicou a diferença entre os medicamentos Zolgensma e Spinraza (fornecido pelo SUS).
Pessoas com AME tĂȘm baixos nĂveis da proteĂna SMN, que possibilita os movimentos motores. Os neurĂŽnios precisam dela para conseguirem enviar ordens para os mĂșsculos atravĂ©s dos nervos que descem pela medula.
Tanto o Zolgensma quanto o Spinraza aumentam a produção da proteĂna SMN, mas somente o Zolgensma Ă© capaz de neutralizar os efeitos da AME.
A controvĂ©rsia em torno do ‘remĂ©dio mais caro do mundo’
“Enquanto o Zolgensma muda o DNA do paciente, possibilitando que o corpo produza a proteĂna SMN a partir daĂ naturalmente, o Spinraza Ă© um tratamento que faz com que o RNA produza a proteĂna”, explicou Reis.
Outra diferença entre os medicamentos, de acordo com o neurologista pediĂĄtrico, Ă© que o uso do Spinraza “Ă© um tratamento para o resto da vida, que precisa de uma nova dose a cada quatro meses”. JĂĄ o Zolgensma Ă© administrado apenas uma Ășnica vez e nĂŁo precisa de manutenção.
Apesar de ser um medicamento novo, “estudos demonstraram que os pacientes que receberam o Zolgensma tiveram grandes avanços nos marcos iniciais do desenvolvimento neurolĂłgico”, completou o neurologista pediĂĄtrico.
