IncĂȘndio na boate Kiss que matou 242 e feriu mais de 600 completa 8 anos sem julgamento dos rĂ©us

Por AGÊNCIA BRASIL 27/01/2021 às 07:22

“Kiss, oito anos de impunidade” é a frase do novo mural grafitado sobre a fachada do que restou da boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde um incĂȘndio de grandes proporçÔes matou 242 jovens, a maioria universitĂĄrios, na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013. A tragĂ©dia que comoveu o paĂ­s e gerou grande repercussĂŁo internacional ainda se arrasta numa novela sem data para terminar. Quase uma dĂ©cada depois, os quatro rĂ©us do caso ainda aguardam o jĂșri popular, que nĂŁo tem data para acontecer. Na melhor das hipĂłteses, ocorrerĂĄ em algum momento no segundo semestre deste ano.  IncĂȘndio na boate Kiss que matou 242 e feriu mais de 600 completa 8 anos sem julgamento dos rĂ©usIncĂȘndio na boate Kiss que matou 242 e feriu mais de 600 completa 8 anos sem julgamento dos rĂ©us

“Essa situação Ă© muito injusta. SĂŁo oito anos de sofrimento e dor e, durante esses anos, a gente perdeu muitos familiares, pais de vĂ­timas, que tiveram outras doenças, agravadas pela dor da perda, e acabaram morrendo”, lamenta FlĂĄvio Silva, presidente da Associação dos Familiares de VĂ­timas e Sobreviventes da TragĂ©dia de Santa Maria.

Fundada cerca de dois meses apĂłs a tragĂ©dia, a entidade reĂșne pais e familiares das vĂ­timas em busca de reparação. FlĂĄvio Silva perdeu a filha Andrielle, de 22 anos, no incĂȘndio. Na ocasiĂŁo, ela estava na discoteca com mais quatro amigas para celebrar seu aniversĂĄrio. Todas morreram asfixiadas pela fumaça tĂłxica liberada pelo fogo que consumia a espuma de isolamento acĂșstico do local.

“A gente nĂŁo teve tempo de curtir o luto, porque nĂłs partimos do luto para a luta. EntĂŁo, Ă© uma questĂŁo de a gente tentar transformar a dor num ato de amor, que Ă© esse ato de prevenção, e tentar salvar vidas”, afirma Silva.

Todo dia 27 de janeiro é marcado por homenagens Ă s vĂ­timas do incĂȘndio de Santa Maria. Este ano, por causa da pandemia, a homenagem serĂĄ virtual. A Associação de Familiares VĂ­timas e Sobreviventes da TragĂ©dia organizou uma live (transmissĂŁo online) para as 20h30 desta quarta-feira, que serĂĄ mediada pelo jornalista Marcelo Canellas, com a participação dos atores Tony Ramos, Chistiane Torloni, Dira Paes, a autora de teledramaturgia GlĂłria Perez, a mĂŁe de uma das vĂ­timas da tragĂ©dia, Ligiane Righi, e o jurista Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul.

Mais cedo, por volta das 2h30 da madrugada, uma sirene do Corpo de Bombeiros tocou na cidade para lembrar o exato momento em que o incĂȘndio começou, tambĂ©m como forma de homenagear os mortos.

Situação do processo

No processo criminal, com mais de 85 volumes, os empresĂĄrios e sĂłcios da boate Kiss, Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann, alĂ©m do vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, e o produtor do grupo musical, Luciano Bonilha LeĂŁo, respondem por homicĂ­dio simples (consumado 242 vezes, por causa do nĂșmero de mortos) e por 636 tentativas de homicĂ­dio, de acordo com o nĂșmero de feridos.

Ao longo do ano passado, enquanto o paĂ­s mergulhava na crise sanitĂĄria por causa da pandemia de covid-19, trĂȘs dos rĂ©us (Elissandro, Mauro e Marcelo) travaram uma batalha judicial vitoriosa para que o julgamento pelo jĂșri popular fosse transferido da comarca de Santa Maria para um foro na capital, Porto Alegre. Em seguida, o MinistĂ©rio PĂșblico do Rio Grande do Sul (MP-RS) opinou para que Luciano Bonilha tambĂ©m tivesse o desaforamento concedido, embora ele nĂŁo tivesse requisitado a medida. Dessa forma, todos os rĂ©us poderĂŁo ser julgados numa Ășnica data e pelo mesmo jĂșri. Entre os argumentos para pedir o desaforamento do caso, os rĂ©us alegaram dĂșvida sobra a parcialidade dos jurados em Santa Maria, por causa da comoção da tragĂ©dia, e o ambiente mais distante e controlado da Justiça de Porto Alegre.

DistribuĂ­do por sorteio para a 1ÂȘ Vara do JĂșri do Foro Central de Porto Alegre, em dezembro do ano passado, o processo da boate Kiss agora aguarda a designação de um juiz titular para a Vara, jĂĄ que a magistrada que ocupa atualmente o posto, TaĂ­s Culau de Barros, assumirĂĄ novo cargo no Tribunal de Justiça do estado (TJ-RS) a partir de fevereiro. SĂł depois que um novo juiz da 1ÂȘ Vara for definido Ă© que a data e o local do julgamento serĂŁo definidos. Desde jĂĄ, no entanto, a principal preocupação dos familiares das vĂ­timas Ă© que o jĂșri popular nĂŁo seja a portas fechadas e permita a participação deles.

“Em entrevista, a advogada de um dos rĂ©us informou que estaria peticionando um jĂșri de portas fechadas, alegando restriçÔes da pandemia. A gente teme que isso ocorra. Se acontecer, vamos lutar com todas as forças para reverter. SĂŁo longos anos de espera. Aconteça o que acontecer, nĂŁo teremos nossos filhos de volta, mas a gente espera que se faça justiça”, diz FlĂĄvio Silva.

IncĂȘndio

A tragĂ©dia na boate Kiss ocorreu na madrugada de 27 de janeiro de 2013, na regiĂŁo central da cidade. Por volta das 2h30, um integrante da banda Gurizada Fandangueira, que fazia uma apresentação ao vivo, acendeu um sinalizador de uso externo dentro da casa noturna, e faĂ­scas do artefato acabaram incendiando a espuma que fazia o isolamento acĂșstico do local. A queima da espuma liberou gases tĂłxicos, como o cianeto, que Ă© letal. Foi justamente essa fumaça tĂłxica que matou, por sufocamento, a maior parte das 242 vĂ­timas. AlĂ©m disso, a discoteca nĂŁo contava com saĂ­das de emergĂȘncia adequadas, os extintores eram insuficientes e estavam vencidos. Parte das vĂ­timas foi impedida por seguranças de sair da boate durante a confusĂŁo, por ordem de um dos donos, que temia que nĂŁo pagassem as contas.

O incĂȘndio na Kiss iniciou um debate no Brasil sobre a segurança e o uso de efeitos pirotĂ©cnicos em ambientes fechados com grande quantidade de pessoas. Ainda em 2013, meses apĂłs o acidente, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul aprovou uma lei complementar estadual, batizada de Lei Kiss, que aumentou o rigor de normas sobre segurança, prevenção e proteção contra incĂȘndios em edificaçÔes e ĂĄreas de risco. Em 2017, uma lei federal, tambĂ©m batizada de Lei Kiss, foi aprovada pelo Congresso Nacional com o mesmo objetivo.

Apesar das iniciativas, no caso da lei estadual do Rio Grande do Sul o prazo para adequação dos edifĂ­cios Ă s novas normas foi prorrogado, em 2019, por meio de decreto, por mais quatro anos e sĂł deve começar a valer mesmo, na prĂĄtica, a partir de 2023. “Essas prorrogaçÔes mostram quem os nossos governantes nĂŁo aprenderam nada com a tragĂ©dia. A impressĂŁo que fica Ă© que o risco de mais matança segue legalizado”, critica FlĂĄvio Silva, acrescentando que a prevenção deve ser vista como investimento por empresĂĄrios e o Poder PĂșblico. “O que salva vidas mesmo Ă© a prevenção. Ela Ă© um investimento. Enquanto esse empresĂĄrios pensarem na prevenção como despesa, o Brasil nĂŁo vai pra frente em termos de garantia de segurança”.

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