Médicos recomendam check-up pós-Covid para detectar e tratar sequelas

Por FOLHA DE SÃO PAULO, UOL 09/02/2021 às 14:28

A cura da Covid-19, a doença causada pelo coronavírus Sars-CoV-2, pode ser um processo que se estende para muito depois do final da fase aguda da infecção.

Mesmo após o vírus deixar o organismo, podem permanecer sequelas espalhadas por órgãos como coração, pulmão e cérebro por meses até em pessoas que tiveram as formas mais leves da doença.

MĂ©dicos de diferentes especialidades vĂȘm sugerindo uma visita ao mĂ©dico logo apĂłs o fim da infecção para checagem de sequelas e busca por tratamento, principalmente quando hĂĄ sintomas persistentes ou antes de reiniciar uma atividade fĂ­sica.

Estudos no mundo todo vĂȘm avaliando o cenĂĄrio pĂłs-Covid-19. As estimativas dos cientistas apontam que apenas uma porcentagem entre 10% e 20% dos pacientes relatam recuperação completa nos primeiros meses apĂłs a infecção.

Cerca de metade das pessoas que tiveram Covid-19 dizem ainda sentir fadiga incomum nos meses posteriores.

Sintomas como dor de cabeça, dores no peito, falhas na memória e perda do olfato (anosmia) também aparecem e podem até indicar uma condição crÎnica, segundo médicos.

“Todos os pacientes deveriam procurar um mĂ©dico apĂłs a doença. Cada pessoa tem um ritmo de vida e hĂĄbitos diferentes; Ă© importante saber se hĂĄ alguma sequela antes de retomar a vida normal. HĂĄ pessoas que ficam com alguma inflamação que pode durar meses”, diz o cardiologista Marcelo Sampaio, da BeneficĂȘncia Portuguesa de SĂŁo Paulo (BP).

De acordo com Gustavo Faibischew Prado, pneumologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a melhor opção é procurar um clínico geral ou um médico da família, profissionais que conseguem fazer uma avaliação global e encaminhar o paciente para as especialidades necessårias caso haja necessidade de avaliação complementar.

“Assim, o paciente recebe orientaçÔes sobre os cuidados que deve ter e sabe se precisarĂĄ fazer algum exame para confirmar existĂȘncia das sequelas e conhecer a extensĂŁo delas”, diz o mĂ©dico.

A Covid-19 hoje Ă© reconhecida pelos mĂ©dicos e cientistas como uma doença sistĂȘmica, que desencadeia diversos processo inflamatĂłrios em diferentes regiĂ”es do corpo. Os pulmĂ”es estĂŁo entre os ĂłrgĂŁos mais afetados pelo vĂ­rus.

O coronavĂ­rus pode levar a uma infecção nos ĂłrgĂŁos (pneumonia) que causa morte por insuficiĂȘncia respiratĂłria nos casos mais graves.

Segundo Prado, a avaliação física de um pneumologista vai apontar para a necessidade ou não de exames mais detalhados.

Nesses casos, tomografia do tórax, ecografia pulmonar e a prova de função pulmonar ajudam a montar um tratamento para o problema.

“A tomografia, por exemplo, mostra se hĂĄ sinais de fibrose no pulmĂŁo [cicatrizes que surgem depois de uma infecção] e mostram a presença de doenças das vias aĂ©reas, que podem ser a causa de tosse prolongada ou cansaço”, diz o pneumologista.

No coração, arritmias e insuficiĂȘncia cardĂ­aca inexistentes antes da doença podem surgir apĂłs a infecção.

“Se o paciente passou por uma Covid-19 e tem fadiga, cansaço ou palpitação, o recomendado Ă© passar por uma avaliação mesmo se a pessoa teve um quadro leve da doença”, afirma o cardiologista Fernando Bacal, diretor-cientĂ­fico da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

Segundo o médico, aqueles que tiveram casos moderados ou graves da doença devem passar por uma avaliação ainda que não tenham sintomas.

“ConsequĂȘncias mais graves, como morte sĂșbita, infarto, disfunção ou insuficiĂȘncia cardĂ­aca sĂŁo pouco frequentes, mas devem ser detectadas”, afirma Bacal.

De acordo com Marcelo Sampaio, da BP, algumas das sequelas podem existir sem serem notadas, daí a importùncia de buscar um parecer médico especialmente antes de retornar às atividades físicas, que expÔem o coração a um maior esforço.

AlĂ©m disso, dintomas como dor de cabeça, sonolĂȘncia excessiva e perda de memĂłria podem estar ligados Ă  ação do vĂ­rus no sistema nervoso e pedem a atenção de um neurologista.

A mĂ©dica Clarissa Lin Yasuda, professora na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), lidera uma pesquisa que busca identificar a persistĂȘncia de manifestaçÔes neurolĂłgicas apĂłs a Covid-19 por meio de um questionĂĄrio que pode ser respondido pela internet por qualquer pessoa que tenha tido a doença, mesmo sem sintoma persistente.

De acordo com os dados ainda não publicados em revista científica, das cerca de 4.500 pessoas que responderam a pesquisa, apenas 13,5% afirmam ter se recuperado completamente da doença após dois meses da infecção.

SonolĂȘncia diurna e dores de cabeça depois de dois meses da doença sĂŁo sentidas por aproximadamente 34% das pessoas que responderam o questionĂĄrio. Cerca de 40% afirmam ter alteração de memĂłria.

“Milhares de pessoas tĂȘm entrado em contato para relatar algum sintoma neurolĂłgico, e isso Ă© assustador, especialmente porque 90% desses respondentes nĂŁo chegaram a ser hospitalizados com a doença, tiveram casos leves”, diz Yasuda.

“A dor de cabeça Ă© muito limitante. HĂĄ relatos de pacientes que nĂŁo tinham enxaqueca e passaram a ter, ou de pacientes que jĂĄ tinham enxaqueca e tiveram piora na frequĂȘncia e na intensidade das crises. Mesmo a fadiga, com sonolĂȘncia, pode ter um fundo neurolĂłgico”, afirma a mĂ©dica.

“A cada momento descobrimos fatos novos sobre a doença, e o cenĂĄrio vai mudando ao longo da observação. É uma doença repleta de formas alternativas, e no contexto geral pode ser como vĂĄrias doenças em uma sĂł”, diz Sampaio, da BP.

Segundo os mĂ©dicos, o ideal Ă© que o acompanhamento seja integral. “Especialmente o cansaço e a falta de ar podem ter mais de uma causa em mais de um ĂłrgĂŁo.

Doenças respiratórias e cardiovasculares também podem ter causas variadas, e a Covid-19 traz repercussÔes para os sistemas cardíaco e respiratório.

A avaliação, nesses casos, nunca pode ser simplista”, afirma Gustavo Prado, do Oswaldo Cruz.

“Quando falamos de pacientes curados, isso nĂŁo Ă© algo binĂĄrio —ou o paciente estĂĄ doente ou estĂĄ curado—, hĂĄ todo um contĂ­nuo entre esses dois pontos. Muitas vezes, a recuperação nĂŁo serĂĄ imediata nem completa. Podemos enfrentar a situação de termos um enorme contingente de pacientes que nĂŁo se recupera plenamente ou rapidamente, e o sistema de saĂșde deve estar preparado para isso”, diz o pneumologista.

QUANDO FAZER UM CHECK-UP PÓS-COVID

-Após formas moderadas ou graves da doença
-Casos leves com algum sintoma persistente
-Antes de retomar atividade fĂ­sica
-Exames que o médico pode pedir para um check-up pós-Covid

PULMONARES

Tomografia de tĂłrax
Ecocardiografia pulmonar
Prova de função pulmonar

CARDIOLÓGICOS

Eletrocardiograma
Ecocardiograma
Teste ergométrico

NEUROLÓGICO
Ressonùncia magnética

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