Jovem com câncer morre 10 dias após realizar sonho de se casar

Por G1 01/03/2021 Ă s 11:32

As dores não deram conta de esconder o sorriso de Ada. Em cuidados paliativos por causa do câncer, levantou-se da cadeira de rodas na metade do trajeto até o altar e seguiu em pé ao encontro do noivo, Ruan Pablo de Lara, de 27 anos, que tentou — em vão — segurar as lágrimas.

Nenhum dos presentes na Paróquia Nossa Senhora da Salette, em União da Vitória, no sul do Paraná, conteve a emoção. Adarlele Ribas Andrade de Lara, de 26 anos, viveu em 6 de fevereiro a realização do sonho que alimentou entre os vestidos de noivas na loja em que trabalhava.

Jovem com câncer morre 10 dias após realizar sonho de se casar

Adarlele de Lara com o vestido de noiva — Foto: Arquivo pessoal

Dez dias depois da cerimônia, a vendedora perdeu a batalha contra a doença que encarava pela terceira vez. A caçula de cinco irmãos estava ao lado da mãe, Lúcia Glaab de Andrade, de 60 anos, no Hospital de Clínicas, em Curitiba.

“Rezou o Pai Nosso, a Ave Maria, cantou pra mĂŁezinha do cĂ©u duas vezes. Na terceira nĂŁo conseguiu e foi com Deus”, recordou-se a mĂŁe. “Está sendo muito difĂ­cil”, desabafou.

Dos parabéns ao casamento
Ada fazia aniversário em 22 de maio. No último, em 2020, um desconhecido decidiu parabenizá-la em uma rede social. Antes que o mês acabasse, ela e Ruan, que trabalha como programador, tiveram o primeiro encontro.

“A gente se deu muito bem desde primeira conversa [pela internet]. Um começava a escrever, o outro escrevia a mesma frase. Foi de primeira”, contou o viĂşvo. “Vivemos muito em pouco tempo”, indicou.Dali em diante, os cerca de 20 km entre UniĂŁo da VitĂłria e Porto VitĂłria (SC), onde a jovem estava morando, pareciam cada vez mais prĂłximos. Tanto que começaram a namorar em 12 de junho, Dia dos Namorados.

“Ela falava que ele era o prĂ­ncipe encantando dela. É uma histĂłria de filme, uma prova que o amor verdadeiro existe”, afirmou o irmĂŁo da jovem Adnilson de Andrade, de 32 anos.
Quando o casal se conheceu, Ada se considerava curada de um tumor no braço esquerdo descoberto aos 23 anos – e que a deixou com dificuldades para movimentá-lo. Vencer a doença nĂŁo era novidade para ela. Aos sete, já havia superado um tumor no rim.

Jovem com câncer morre 10 dias após realizar sonho de se casar

Adarlele e Ruan em ensaio de fotos antes do casamento — Foto: Arquivo pessoal

Atenta, a jovem percebeu os sinais do corpo. Foi uma bolinha que surgiu na testa. Em agosto, os médicos diagnosticaram a metástase do tumor. A doença reapareceu na cabeça, na coluna e na bacia.

“Desistir jamais. Nunca passou nem pela minha cabeça nem pela dela. Ela lutou atĂ© o fim. A gente sempre acreditou no milagre”, disse Ruan.
No decorrer do tratamento, eles se uniram ainda mais. A decisão de casar foi bem recebida pelas famílias. Do mesmo jeito que as dores não a impediam de viver, a doença não barrou o sonho.

Em meio à pandemia do novo coronavírus, a organização da cerimônia foi cercada de cuidados. Não houve festa, e na igreja um terço da capacidade. A primeira data era dezembro, embora Ada quisesse antes. Com o aumento de casos de Covid-19, ficou para fevereiro.

Ada gostava de organizar festas. Além dos aniversários, tinha ajudado no casamento de uma prima. Segundo a mãe, os cinco afilhados da jovem foram agraciados com a capacidade que ela tinha de deixar tudo no capricho.

Ao passo que fevereiro se aproximava, o quadro da noiva se agravava. Às vésperas da cerimônia, ela encarou dez dias de internação por causa da forte anemia e das dores. Ada queria alta para provar o vestido, os médicos não liberavam.

Jovem com câncer morre 10 dias após realizar sonho de se casar

Adarlele de Lara com o vestido de noiva — Foto: Arquivo pessoal

A família não esconde a gratidão pela equipe do hospital. Uma ambulância com médico e enfermeiro levou a jovem, que estava internada na capital, para provar o vestido ao lado da mãe. Algumas pessoas que participaram do tratamento estavam na cerimônia.

“A hora que estavam saindo da igreja, o Ruan levando ela sentada na cadeira de rodas. Os dois chorando, todo mundo aplaudindo. Ela aplaudia junto com o sorriso mais lindo do mundo”, contou o irmĂŁo.

Os Ăşltimos dias
O casamento não era o único sonho de Ada, que se dividia entre trabalho e faculdade de administração, interrompida pelo tratamento. O curso de radiologia ficou por terminar. Já a carteira de habilitação, não. Tirou mesmo sem o braço estar bom.

Sonhou em ser mĂŁe, ela adorava crianças. Impedida pelos tratamentos agressivos, adotou o cĂŁozinho Snow – um shih-tzu de um ano e meio que mora com Ruan na casa onde vivia com Ada desde dezembro.

Após o casamento, em um sábado, a jovem ficou bem até a terça-feira, contou o marido. Sentia dores, mas a medicação controlava. No dia seguinte, ela foi de ambulância para uma consulta em Curitiba e ficou internada.

A mãe, mais uma vez, estava junto. Dessa vez, ela ficou no hospital o tempo todo. A filha, que comia doces como uma formiga, já não tinha tanto apetite.

O pai, marido e irmãos iriam para visitas, conciliando horários com os trabalhos. Na semana seguinte ao internamento, eles foram chamados às pressas do sul para a capital.

“Na metade do caminho o Ruan disse que nĂŁo adiantava a gente correr, que a gente já estava atrasado”, lembrou o irmĂŁo. “Eu estava sozinha com ela. SĂł eu e ela. E Deus comigo”, disse a mĂŁe.

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